O Calor do Inverno #1: A terapia da lã

Durante a estação mais fria do ano, série do Pioneiro irá apresentar 10 histórias para aquecer a alma


Publicao em 25 de junho de 2016

Texto

Andrei Andrade

andrei.andrade@pioneiro.com

Fotografia

Roni Rigon


Infografia

Guilherme Ferrari

O Calor do Inverno #1:

A terapia da lã

Direito e avesso, direito e avesso. Há mais de 40 anos, o mantra se repete baixinho na mente de Elda Teresinha Berté, enquanto suas mãos coordenam as agulhas que entrelaçam em perfeita sincronia a lã que se desenrola do novelo. Mais do que o passatempo com que ocupa quase todas as tardes, o tricô também não se resume à arte de transformar a lã em roupas quentinhas. É mais uma terapia, na qual a conversa é substituída por cálculos que logo ficam em segundo plano, enquanto a memória passa a vida a limpo entre um ponto e outro.

O divã particular de Elda é uma cadeira de madeira abaixo da janela da sala, na casa que divide com a mãe, Eride, dois filhos e dois netos no bucólico bairro Forqueta, em Caxias do Sul. O ritual do tricô começa após o almoço e costuma se estender até o anoitecer. Claro que algumas interrupções tratam de devolvê-la ao cotidiano. Quando sente que sobrecarregou o ombro direito, operado devido ao desgaste de ter carregado muitas bandejas pesadas, aproveita para ler um pouco ou caminhar pela vizinhança. Vez ou outra recebe a visita de alguma aprendiz curiosa por aprender um novo ponto.



O Calor do Inverno #1: A terapia da lã

Elda prefere as cores claras, porque as escuras exigem mais de seus olhos. Para cada conjunto, são necessários dois novelos



Elda explica que o inverno é a melhor estação para o tricô. No verão, a lã esquenta muito as mãos e ela prefere o crochê feito com fios mais finos. Não por acaso, quase todos os eletrodomésticos da sala repousam sob peças de crochê, costuradas por ela ou pela mãe. O inverno também faz aumentar os pedidos por roupas de tricô. Há algumas semanas, Elda recebeu uma proposta desafiadora. Uma sobrinha encomendou 22 casaquinhos para bebês cujas mães e gestantes frequentam o posto de saúde de um bairro bem carente de Caxias, o Villa-Lobos.

A empreitada começou na semana passada e seguirá até o meio de julho, quando as peças serão entregues em um chá de fraldas. Só não é uma corrida contra o tempo porque o tempo é algo que a tricoteira respeita muito. Principalmente o dos próprios braços, que levam dois dias para tricotar um conjunto. Em troca do esforço, não quer receber nada além de abraços e sorrisos. Boa parte dos novelos necessários já está espalhada pela casa. Elda prefere as cores claras, porque as escuras exigem mais de seus olhos. Para cada conjunto, são necessários dois novelos. Isso porque hoje em dias as lãs são mais finas, e para dar à criança uma roupa que de fato a proteja do frio, é preciso um reforço.

Da terapia diária de Elda, surgem roupas quentes e acolhedoras. Não parece mágica? Conforme a senhora de cabelos brancos e riso fácil confessa que a cada dia o transcorrer da vida a torna mais pensativa – a preocupação com os filhos em meio à crise econômica e um casamento que terminou em separação são filmes que se repetem –, parece não haver pressa para aposentar as varinhas mágicas, que de tempos em tempos quebram a ponta.

Enquanto for possível, Elda Berté seguirá costurando casacos, luvas ou cachecóis para aquecer a família ou desconhecidos. Bem conservadas, peças de lã podem durar décadas. Com o tempo, algo deixa essas roupas ainda mais aconchegantes, mas é difícil explicar a razão. Se tem a ver com o fato de terem saído do calor de uma mão humana para abrigar a outro, parece uma boa hipótese a se considerar.