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 | 19/05/2008 11h26min

Babás contam casos de mães ausentes

Alguns cuidados podem evitar distanciamento dos filhos

Tudo bem precisar de uma babá. O problema é quando ela se torna mãe da criança. Leia abaixo depoimentos de três babás que estiveram nessa situação, apegando-se à criança muito mais do que a própria mãe. Confira também algumas dicas para manter-se próxima das crianças mesmo tendo uma rotina atribulada.

>> Leia também: A mãe é você, não a babá

ZH/MEU FILHO
Mãe de mentirinha: depoimentos de babás que fizeram as vezes de mãe
Mentiras na agenda
"Cuidava de um bebê de dois meses que tinha feito uma cirurgia de estômago. Tinha um irmão de oito anos. A mãe às vezes chegava do trabalho às 2h, 3h da manhã e saía 6h, 6h30min. Ficava três ou quatro dias sem ver o pequeno. Ela não podia chegar e abrir a porta para olhar a criança no berço, para ver se estava bem, dar um beijinho? Isso me causava muito mal-estar. Ela via mais o maior. O pai também não era muito preocupado, fazia aquela festinha que você sempre faz para criança, mas ficava na dele. Trabalhava muito também. O pequeno não queria nem o colo da mãe, era tudo eu. Ele chorava e se atirava para mim. Quando ele caía, tinha que ser o meu colo. Foi só depois de um ano e pouco que ele começou a reconhecer um pouco mais a mãe.

Ela não era muito mãe. Era uma excelente profissional. Enchia as crianças de presentes caríssimos, dava carros de controle remoto de R$ 700, R$ 800. Muitas vezes, em vez de ficar com as crianças, ia para o shopping. Às vezes ela me dizia: Eu já nem sei mais as coisas do Pedro. Ela não conseguia fazê-lo dormir, ele não dormia com ela. Ai, acho que ele já acostumou a dormir contigo e só quer saber de ti. Eu levava ele para o quarto, deitava no sofá, ficava brincando, cantando. Com ela, ele queria sair do quarto, chorava e chorava. O mais velho era extremamente tímido, não falava com ninguém, se escondia. Era inteligentíssimo, mas viciado em jogos de computador. Ele não fazia os temas, aí ela chegava em casa e, em vez de mandá-lo fazer, escrevia um bilhete na agenda mentindo que ele tinha ido ao médico, para não ter que ficar com ele e ajudar. E se trancava no quarto com o notebook dela. O casal tinha uma relação muito ruim, várias vezes brigaram, ela quis se separar, mas depois desistiu porque teria que abrir mão de uma das duas babás. Isso pesou na decisão.

Eu ficava muito triste por ela não se dedicar às crianças no tempo disponível. Ela sumia de casa. Partia da gente telefonar. Às vezes, eu ligava para o trabalho e ela não estava - e chegava em casa às 20h, 21h, cheia de pacotes. Tinha passado o dia no shopping. Trazia alguma coisa para eles e muita, muita coisa para ela.

No pouco tempo em que ela ficava com eles, era carinhosa. Se passasse o domingo inteiro em casa, ficava meia hora, uma hora com os filhos. Ia dormir, saía. Quando chegava, eu falava tudo o que tinha acontecido. Faltava ela ser mais mãe, ela não era, com a força da palavra. Mãe qualquer uma pode ser. Mas com aquele carinho, aquele amor, aquela coisa... eu sou muito mais mãe do que ela. Eu ficava noites acordada com aquela criança no colo, dei muito mais amor. Quando eu saí foi muito triste. Até hoje, morro de saudades do pequeno. Gosto mais dele do que da minha neta, que mora longe."

Vanessa, 56 anos, 10 anos de experiência
 Dedicação só nas fotos
"Trabalhei um ano e meio naquela casa. A mãe tinha um menino de três anos, que já tinha uma babá, e esperava um outro. Estava no começo da gestação. Entrei para já ir me acostumando com a família. Ela ganhou o nenê e o passou para mim. Amamentou só no hospital e não quis mais porque ia ficar com o peito flácido. A cada duas horas e meia, três horas, eu ia com a bombinha tirar o leite dela, botava na mamadeira e dava para o nenê. Eu tinha que ligar para avisar que, se ela não viesse para casa logo, o peito ia inchar e vazar. A mãe tinha contato físico com o nenê uma hora por dia, se muito, de manhã, quando o buscava para ficar com o casal na cama. Ia para a ginástica, para o inglês, tomava chá, não ficava em casa. Estava sempre envolvida com outras coisas.

A outra babá morava lá, tomava conta do pequeno à noite e do maior de manhã. Eu trabalhava das 7h às 19h. Tinha ainda copeira e cozinheira. Se eu quisesse ganhar mais dinheiro, poderia trabalhar em todos os finais de semana, ela sempre queria. O que ela nos oferecia era muito bom, mas fiquei com o nenê durante seis meses e não agüentei mais. Eu estava muito agarrada, muito apaixonada pelo filhinho dela, e o meu filho eu deixei para trás.

Ela quis ter esse segundo filho, mas não veio o que ela queria, que era uma menina. O meu problema maior foi esse: a mãe pariu e deu para os outros criarem. O pai era muito atencioso, mas mais viajava do que parava em casa. Raramente ficavam todos juntos nos finais de semana. Eu estava ficando muito raivosa. Ela não tinha o amor de mãe, e o que eu mais prezo é o amor de mãe: o amor, o carinho, a atenção. Isso foi me incomodando, até que eu não quis mais.

O maior era muito revoltado, insuportável. Ou ele ganhava o que pedia, ou se jogava no chão. A gente tinha autorização para chamar a atenção dele e botar de castigo. Ela ia para o quarto e não queria que a chamassem para coisas relacionadas aos filhos. Era essa a orientação para todas as empregadas. Levávamos ele no médico a cada 30 dias. Enquanto dirigia, antes de chegarmos ao consultório, ela me perguntava o que ele tinha, para dizer ao médico. Nas duas primeiras consultas, ela não soube responder se o filho tinha cólica ou não. Abriu a porta e me chamou. No fim, a conversa foi entre eu e o médico. Dar banho, trocar fralda, dar mamá, só vi ela fazendo isso quando foram lá fazer fotos para um jornal. Ela pegou no colo, sentou na cadeira de amamentação, botou o nenê no trocador. Foi a única vez.

A relação do nenê comigo era de mãe para filho. Eu percebia falta de carinho na mãe, isso me incomodava muito. Por isso que eu quis sair. Ela ofereceu um monte de coisas para eu ficar - aumento, troca de horário, ajuda na escola do meu filho. Mas eu não quis. Falei a verdade para ela."

Juliana, 36 anos, babá há 20 anos
Falta amor, falta paciência
"A mãe trabalhava uma ou duas vezes por semana e não se interessava pelo filho. Ficava uns 15 minutos por dia com ele, para eu tomar banho. Depois me dava a criança de novo e ia fazer as coisas dela - chamava manicure em casa, fazia depilação, ficava na internet. Era raro ficar com o guri, que tinha um ano e pouco. Depois ela me dispensou e contratou duas babás: uma para a semana e uma para o final de semana.

A mãe que precisa de babá é a mãe que trabalha. É muito difícil trabalhar numa casa com a mãe arrastando chinelo atrás de você. Tem muitas que nem sabem por que tiveram filhos. Foi para prender marido, para dar satisfação para a família. Não são muito ligadas às crianças, os filhos não estão em primeiro lugar. Mas estão em primeiro lugar para a gente. Várias vezes aconteceu de eu assumir mais do que aquilo que combinei, por ficar com pena da criança. Você tenta suprir o que a mãe não dá, se apega. Quando a criança já está mais apegada à gente do que a elas, elas sentem, ficam com ciúme.

Geralmente elas ficam sem paciência. Quando a babá volta da folga, parece que elas carregaram o mundo nas costas. Fulano incomodou a noite toda, não pude dormir. A gente, que cuida, sabe que a criança dorme de noite. Talvez seja até um sinal de alerta - quando está com a mãe, o bebê não dorme para ficar com ela. Já vi muitos casos de crianças que acordam de noite para ficar com a mãe."

Carmem, 44 anos, babá há 20
Acompanhe a rotina
Fontes: Alana Porto Alegre, psicóloga, e Ana Lúcia Mignot Schuster, psicóloga, membro do Comitê de Bebês da Sociedade de Psicologia do RS e diretora científica da entidade
Veja como estar presente na vida da criança
– Faça uma seleção rigorosa quando precisar contratar uma babá. Principalmente durante os primeiros dois anos de vida, a criança requer constância – reconhecer um mesmo rosto no dia-a-dia, acostumar-se com o jeito, o cheiro e o rosto dessa pessoa. Um troca-troca de babá pode ser muito prejudicial nesse sentido.

– Você está realmente se dedicando ou apenas administrando a casa e os filhos? Sua ausência não pode se tornar um hábito.

– Com quem e com o que você tem ocupado seus dias e horas livres?

– Mesmo que você passe o dia fora, é capaz de dar detalhes sobre a rotina do seu filho em casa?

– É importante que a mãe assuma o que se relaciona à criança quando estiver disponível: trocar fralda, dar banho, dar a comida ou o leite não podem ser, sempre, tarefas delegadas a terceiros.

– Demonstre interesse pelo que acontece na vida da criança. Não basta perguntar à babá se tudo correu bem na festa de aniversário a que compareceram naquela tarde. Converse com seu filho sobre isso, peça detalhes, estimule-o a contar como passou o dia.

– Acompanhar a rotina de estudos e ajudar na realização do tema de casa e na organização do material é tarefa dos pais, e não da babá. Reserve um horário, mesmo que seja à noite, e estabeleça uma rotina.

– A distância não impede o contato. Se você viaja muito, não deixe de ligar, escrever ou bater papo na internet.

– Tente, se possível, começar o dia com a criança. É importante ela olhar para a mãe logo que acorda.

– Permita que a babá se sinta à vontade para relatar malcriações e desobediências ocorridas durante o dia. Não ignore ou faça pouco caso do que ela disser. Valorize o comentário da babá na frente do seu filho, para que ele não perca o respeito por ela e comece a fazer o que bem entender, ignorando a autoridade dela.
Imagem Filmes, Divulgação / 

O Diário de uma Babá: Annie brinca com Grayer na cabaninha improvisada enquanto os pais do menino discutem na sala
Foto:  Imagem Filmes, Divulgação


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