| 05/05/2008 10h51min
Cristina de Quadros, 42 anos, sempre teve aquele sonho que hoje em dia mais parece desejo de avó do que de mãe: encher a mesa de gente no almoço de domingo. No segundo casamento, com o comerciante Osvaldo Peuckert Neto, 51 anos, o plano era ambicioso - seis filhos - , e logo foi posto em prática. Vieram Rafael, hoje com 16 anos, Felipe, 14, Débora, 13, Camila, 10, e Lívia, sete. Uma gravidez interrompida no segundo mês fez o casal desistir do sexto. Mas nem por isso a casa deixou de ser menos superlativa.
Os três mais velhos estudam pela manhã. Toda a turma freqüenta escola particular - o que representa um armário lotado de uniformes que passam de um para outro, de todos os tamanhos, R$ 3 mil em material escolar no início deste ano letivo e 40 cadernos comprados. Cristina acorda cedo, com a primeira leva, para monitorar o café da manhã. Dois litros de leite, de 12 a 15 pães. Almoço e janta - um quilo de arroz e dois de carne por dia - reúnem, sempre, os sete em casa, e é a mãe quem
cozinha. Cristina
então deixa as menores na escola e vai para o trabalho. Busca as gurias no final da tarde e, em casa, curte o melhor momento do dia.
- Todo mundo já saiu, já voltou e está em casa - explica.
Cristina e Osvaldo têm cinco filhos planejados em uma época em que a média, segundo dados de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 1,7 filhos por mulher no Estado e de dois no Brasil. Nos anos 50, os índices eram de 5,7 e 6,2, respectivamente. Compras em atacado facilitam a tarefa de manter a despensa cheia.
- Imagina a quantidade de papel higiênico e sabão em pó. A máquina de lavar funciona 24 horas por dia - diverte-se.
A família numerosa é referência por onde passa. Cristina não é apenas Cristina. O nome ganhou um aposto - "a mãe dos cinco filhos". Ao adquirir sete edredons de uma só vez, a vendedora questionou se a compra era para alguma pousada, caso em que a loja poderia oferecer um desconto. Para organizar a
vida na casa de dois andares e quatro
dormitórios, Rafael, Felipe, Débora, Camila e Lívia seguem duas regras para as quais não há desculpa: tudo que foi tirado do lugar deve ser devolvido, e aqui está incluída a obrigação de lavar prato, copo e talheres após o jantar, e todo mundo vai para a cama às 22h.
- Temos que ter um horário para a gente - justifica a mãe em nome do casal.
Na espera de um, vieram mais três
A suspeita foi apontada pela ecografia realizada na sexta semana de gestação: havia chances de que o segundo filho do casal Mirella Gonçalves Meirelles e Flavo Beno Fernandes, médicos de 38 anos, fosse, na verdade, o segundo, o terceiro e o quarto bebês da casa. Três semanas depois, um novo exame reforçou as chances, e então a família passou a multiplicar por três o enxoval e as expectativas. Maria Fernanda, a primogênita, hoje com seis anos, deixou de ser filha única para ganhar três irmãos de uma só vez, no último dia 8 de
fevereiro.
Helena (2,055 kg), Clara (1,895 kg) e João Henrique
(1,725 kg) nasceram com 34 semanas e permaneceram 18 dias no hospital. O apartamento de três dormitórios passou por uma reorganização. Maria Fernanda, incentivada pelos pais, aceitou mudar de quarto, para melhor acomodar o trio que estava a caminho.
- Bem mais pequeno - ressalva a irmã mais velha, que ganhou mobiliário novo como compensação pela diminuição do espaço.
Três moradores a mais significam, no momento, cinco funcionárias para dar conta da turma: três técnicas do plano de saúde e uma babá para atender os trigêmeos e uma segunda babá, que também toma conta da casa, para cuidar de Maria Fernanda. Mirella, que em breve retornará aos dois empregos, amamenta durante o dia, e à noite uma das enfermeiras permanece vigilante no quarto cheio de berços. Para agilizar as mamadas, quando um bebê termina, ela o entrega para uma das auxiliares e já acomoda o próximo no seio. Assim, o procedimento, que se repete a cada três horas, dura, em média, uma hora - 20 minutos
amamentando cada um dos três.
Trocas de fralda, são cerca de 30 por dia.
- Só assim para funcionar, para a casa seguir seu rumo o mais normalmente possível - comenta a mãe.
Maria Fernanda teve uma garantia quando soube do nascimento dos irmãos: ela continuaria tendo um espaço só dela, em programas exclusivos com os pais, que sempre a levam e buscam na escola, além de acompanhá-la em sessões de cinema e passeios no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS. Mesmo assim, o ciúme encontra uma brecha para se manifestar, como é esperado que aconteça.
- Ontem ela me disse: "Eu queria ser única. Vê um lugar para eles morarem". A gente entende, faz parte, ninguém ralha com ela - conta Mirella.
Tudo ainda é muito novo para os pais e a primogênita. O dia-a-dia mostra as necessidades e as adaptações que precisam ser feitas - faltam, por exemplo, um automóvel maior, para que todos possam sair juntos, e um carrinho de bebê com dois lugares. Amigos doam ou emprestam roupinhas,
e muito havia sido guardado do tempo em que
Maria Fernanda era pequena. Em uma viagem aos Estados Unidos, Flavo aproveitou os preços mais baixos para adquirir um estoque de roupinhas.
- No início foi um susto para nós e um susto para ela - comenta a mãe. - A gente ainda tem muito um olhar de encantamento - define.
Território só para meninas
Uma família tão grande nunca esteve nos planos de Clara Tajes, 40 anos. E por um bom tempo a prole se resumiu a Antônia, 13, e Sofia, 12. De três anos para cá, um incremento e tanto: chegaram Isadora, três, Natália, dois, e Bibiana, oito meses. Casa cheia, só de mulheres.
- Um guri ficaria muito mal aqui. Seria o maquiador das gurias - brinca a mãe.
Clara reconhece a importância da ajuda que recebe das mais velhas: Antônia e Sofia, afirma, são tão mães quanto ela. Tomam conta das menores, brincam, dão banho, e só torcem o nariz para a troca de fraldas. Como passam a semana na casa do pai,
Clara fica só com as outras três de segunda a sexta-feira. Acabou de passar
por um teste e tanto - enfrentou três semanas sem babá no período da tarde, que é quando faz um esforço para se concentrar no trabalho como revisora. Fecha a porta do quarto e tenta trabalhar.
- Ou espero todo mundo dormir. Para isso existem as madrugadas - conta a mãe do quinteto, que às vezes procura o computador de uma lan house para ter mais sossego.
Depois de um dia cheio, que começa às 7h30min, nem sempre Clara tem forças para uma sessão noturna de trabalho. Dorme cedo, com as filhas, que pegam no sono cada uma agarrada em uma mamadeira. Bibiana ainda mama no peito, o que faz com que a mãe tenha de se levantar durante a madrugada. Levar as cinco para qualquer atividade do lado de fora é uma aventura: Bibiana e Natália no carrinho e Isadora correndo atrás, Redenção afora ou pelo shopping.
- Com cinco filhas, quando uma pára, quatro se mexem - diverte-se. - É um evento, mas já não acho tão complicado.
Desentendimentos acontecem,
e as brigas são em duplas, divididas por faixa
etária e interesses: Antônia e Sofia, Isadora e Natália. Só Bibiana ainda fica de fora, por não ter um par com que implicar e ser ainda muito pequena. A equação faz sentido para cada uma delas e justifica alguma dose de ciúme: a mãe precisa dividir atenção e carinho por cinco.
- Todas elas acham que eu gosto mais das outras - brinca Clara.
| Cristina de Quadros, 42 anos Mãe de Rafael, 16, Felipe, 14, Débora, 13, Camila, 10, e Lívia, sete |
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| Dica para a mãe com muitos filhos: "Coração de mãe tem que se multiplicar, e não se dividir. Ou alguém sempre vai dizer que ficou com um pedaço maior ou menor" |
| Quem ajuda: Motorista e empregada doméstica |
| Não abre mão de... Ir ao cabeleireiro e à manicure toda semana |
| O que gosta de fazer nas horas livres sozinha: "Ouvir música e desenhar jóias" |
| Dia das Mães inesquecível: "Uma vez ganhei um edredom de pluma de ganso. Fomos todos para debaixo da coberta em cima da cama" |
| Melhor programa com todo mundo junto: "Viajar. A gente nunca volta igual de uma viagem" |
| Regra que ninguém pode descumprir em casa: Tirar as coisas do lugar e não colocar de volta |
| A melhor hora do dia: "Final da tarde, quando todo mundo já saiu, já voltou e está em casa |
| Clara Tajes, 40 anos Mãe de Antônia, 13, Sofia, 12, Isadora, três, Natália, dois, e Bibiana, oito meses |
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| Dica para a mãe com muitos filhos: "Não sei. Gostaria muito que me dessem uma!" |
| Quem ajuda: Uma babá e as duas filhas mais velhas |
| Não abre mão de... "Ler. É difícil, mas leio todos os dias, nem que tenha que me trancar no banheiro |
| O que faz nas horas livres sozinha: Sai para caminhar muito |
| Dia das Mães inesquecível: "Quando a minha mãe ainda estava viva. Eu tinha minhas filhas e minha mãe ao mesmo tempo" |
| Melhor programa com todo mundo junto: Um passeio na Redenção domingo de tarde ou uma sessão de vídeo com muita pipoca |
| Regras que ninguém pode descumprir em casa: Brinquedos não podem ficar atirados pela sala, ninguém pode gritar ou ouvir funk. Todo mundo tem que dormir cedo |
| A melhor hora do dia: "De manhã, logo que as gurias acordam. Ficam muito mimosinhas" |
| Mirella Gonçalves Meirelles, 38 anos Mãe de Maria Fernanda, seis anos, e de Helena, João Henrique e Clara, que completam três meses no dia 8 |
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| Dica para a mãe com muitos filhos: Método, organização, uma rotina bem definida |
| Quem ajuda: Três técnicas mantidas pelo plano de saúde e uma babá para os trigêmeos e uma babá, que também cuida da casa, para a mais velha |
| Não abre mão de... Ir ao salão para cuidar do cabelo e das unhas e fazer depilação |
| O que faz nas horas livres sozinha: "Deito um pouco, assisto a um filme, leio jornal" |
| Dia das Mães inesquecível: "O primeiro" |
| Melhor programa com todo mundo junto: "Ainda não teve. Só fomos ao médico. E ainda precisamos de um carro grande!" |
| Regra que ninguém pode descumprir em casa: Não se usa sapato dentro de casa. Quem usa deve calçar também um protetor em volta dos pés |
| A melhor hora do dia: "É difícil escolher uma. A gente ainda tem muito um olhar de encantamento, sabe que esse momento vai durar pouco" |
Todos juntinhos: Felipe, Rafael, Cristina e Débora (da esquerda para a direita) e, à frente, Lívia e Camila
Foto:
Jefferson Botega
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