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 | 19/05/2008 10h50min

A mãe é você, não a babá

Terceirizar o cuidado dos filhos deve se restringir ao necessário

Há mães que precisam contratar uma babá. Trabalham demais, viajam muito, tentam diariamente montar o quebra-cabeças de uma rotina sem horários fixos e transbordante de compromissos. E existem mães que preferem contratar uma babá. Porque é mais cômodo, trabalhando fora ou não, ter alguém que dê banho, troque fraldas, perca o sono, acalme o choro, brinque, acompanhe os temas – de segunda a sexta-feira e também aos finais de semana. Esta reportagem se dedica a discutir o papel das mulheres do segundo grupo, aquelas que, quando transferem o papel de mãe à funcionária, viram estranhas dentro da própria casa.

Vanessa*, 56 anos, foi contratada para cuidar de um bebê de dois meses que se recuperava de uma cirurgia. A mãe do bebê cumpria uma agenda exigente - com freqüência, chegava por volta de 2h ou 3h da manhã e retornava ao trabalho em seguida, às 6h ou 6h30min. Entrando ou saindo de casa, não abria a porta do quarto onde o caçula e a babá dormiam, ainda que Vanessa insistisse. Aproveitava as horas livres no shopping e chegava a passar quatro dias sem ver a criança. Submetido a essa rotina, o filho passou a tomar a babá como principal referência – quando caía, chorava ou queria colo, era a Vanessa que recorria.

– Faltava ela ser mais mãe. Ela não era, com a força da palavra. Mãe qualquer uma pode ser, mas com aquele carinho, aquele amor, aquela coisa... eu era muito mais mãe do que ela. Eu ficava noites acordada com aquela criança no colo, dei muito mais amor – lembra Vanessa. – Já fui a muitas casas completamente diferentes, com as mães bem presentes, que trabalhavam, chegavam tarde, mas faziam questão de dormir com a criança, já que não tinham tempo durante o dia. Aproveitavam os minutos que tinham – completa.

>> Leia mais: Babás contam casos de mães ausentes

Psicóloga e proprietária de uma agência de babás, Alana Porto Alegre destaca justamente a parte sacrificante da rotina de mãe como elemento indispensável para a construção dos laços afetivos com a criança. A função da babá é ser uma auxiliar, aquela que cuida dos filhos principalmente na ausência dos pais, cumprindo tarefas e seguindo orientações determinadas por eles. Um erro comum, entretanto, é terceirizar tudo o que se relaciona aos pequenos, eximindo-se das responsabilidades e tornando-se apenas uma observadora distante.

– O amor também é uma construção. A gente ama quem a gente conhece. Essa trabalheira, esse cuidado é que vão reforçar o vínculo. Se a criança não tem isso com a mãe, vai construir com a babá – comenta Alana.

Mãe de mentirinha

Especialistas identificam uma razão para o desprendimento de algumas mães – surpreendidas pela sobrecarga do dia-a-dia que passa a incluir uma criança, mulheres que não desejavam realmente ter um filho ou não imaginavam, antes da gravidez, que teriam de abrir mão da vida levada até então podem se desligar e transferir as responsabilidades para outra pessoa.

A psicóloga Ana Lúcia Mignot Schuster observa que a intensidade e a rapidez das mudanças espantam até mesmo quem ansiava pela maternidade. Por mais segura que se sinta com a decisão, a mãe, principalmente com o primeiro filho, nunca está preparada o suficiente.

– Que bom que as pessoas pudessem se dar conta antes se é o que elas querem –comenta a especialista em terapia de casal e família. – O que acontece muitas vezes é um desejo externo: pelas circunstâncias sociais, para salvar um relacionamento, por exigência do companheiro. Há mulheres que pensam que só vão ser reconhecidas como mulheres, à altura das outras, quando tiverem filho. Tem gente que tem filho porque todos os outros amigos já tiveram, e eles são os diferentes – completa.

Carmem, 44 anos e há mais de 20 na profissão, comenta um comportamento curioso, verificado com freqüência em casos de mães que elegem a babá para assumir o posto que deveria ser delas próprias: o bebê cresce, começa a caminhar e a falar e deixa evidente que prefere a babá. A mãe, então, leva um susto, suficiente, em algumas ocasiões, para provocar uma mudança de atitude.

– Várias vezes aconteceu de eu assumir mais do que aquilo que combinei porque fiquei com pena da criança. Você tenta suprir aquilo que a mãe não dá. Quando a criança já está mais apegada à gente, a mãe começa a sentir, fica com ciúme – conta Carmem.

Alana Porto Alegre estima em dois anos o tempo médio de permanência nos empregos. O período é equivalente à fase em que a criança mais exige atenção.

– As crianças amam a babá, colocam a babá nos desenhos. É quem dá afeto. Quando a relação começa a gerar um incômodo na mãe, ela troca de babá, mas não fica sem –diz Alana.

Em um emprego recente, Helena, 29, presenciou uma mudança saudável. Trabalhava para uma família que tinha, ao todo, três babás se revezando nos cuidados com um casal de gêmeos. Por dia, o tempo que a mãe passava em contato com os filhos não ultrapassava 30 minutos.

– Quando ela viu que estava perdendo a atenção deles, que a filha já preferia as babás e não fazia a mínima questão de ficar com ela, ficou mal. Diminuiu o trabalho, cortou plantões de finais de semana. Era tudo que as crianças queriam. Ficaram mais calmas, não eram mais tão agitadas – relata Helena.

Não é preciso ir para um extremo ou outro, sem concessões. Para conciliar trabalho, estudos, maternidade e o que mais aparecer, babá, creche ou familiares serão necessários em algum momento. Toda família precisa de uma rede de apoio para se manter e ficaria longe do ideal se o convívio das crianças se resumisse a pai e mãe. Mas contratar uma babá de final de semana, por exemplo, só se justifica nos casos de quem trabalha também aos sábados e domingos.

– A mãe não tem que se esfolar o final de semana inteiro. Com equilíbrio, ela é uma mãe melhor. É impossível não conseguir tomar um banho e querer estar de bom humor com seu filho – exemplifica Alana. – Ela tem que poder jogar um pouco a bola para o pai também, para poder recarregar as baterias.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas

ZH/MEU FILHO
Imagem Filmes, Divulgação / 

Cena do filme O Diário de uma Babá
Foto:  Imagem Filmes, Divulgação


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