| 18/04/2008 11h05min
Eles se conheceram em um bar. No meio do papo, ele avisou:
- Não sei no que isso vai dar, mas quero te dizer duas coisas: não sei dançar nem quero ter filhos.
Doze anos se passaram desde aquele encontro. O professor universitário Beto Ferrari, 47 anos, e a representante comercial Andrea Vico, 44, continuam juntos e planejam oficializar a união em outubro. Ele continua não muito a fim de dançar, e eles nunca quiseram ter filhos. Um bebê também não fazia parte do projeto de vida de Andrea. Eles preferem dedicar seu tempo, dinheiro e planos futuros a eles próprios e a suas carreiras. Beto até brinca:
- Já me acostumei a estar do lado errado da estatística.
As estatísticas, porém, sinalizam que Beto e quem mais optar por não ter filhos podem fazer parte de um movimento crescente. A porcentagem de casais sem filhos do total de arranjos familiares no país passou de 13%, em 1996, para 15,75% em 2006, de acordo com o IBGE. É um indício da
chamada Terceira Transição demográfica, em que
os homens e mulheres não apenas adiam a hora de ter filhos - simplesmente há quem decida não tê-los. E muitos deles já criaram espaços para trocar experiências e buscar informações em associações como a canadense No Kidding!, que já tem filiais em mais quatro países e site traduzido para 13 idiomas, inclusive português (www.nokidding.net). Também são tema de livros e estudos acadêmicos.
No próximo semestre, serão divulgados os resultados da pesquisa realizada na Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE (Ence) sobre um grupo específico desse universo, apelidado de casais dink, sigla para a expressão Double Income no Kids, que engloba casais sem filhos, em que ambos os cônjuges têm renda própria. O número de casais dink dobrou nos últimos 15 anos: eles habitam 3,68% dos lares brasileiros e aparecem como um nicho de mercado a ser desbravado. Além de contar com uma renda mais polpuda e maior nível educacional, eles não têm escola nem babá para pagar no final do mês.
- É um fenômeno
internacional que vai se intensificar - diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, coordenador da pesquisa e da Pós-Graduação do IBGE.
No livro Trends Brasil, lançado no ano passado, a sociológa Susana Kakuta incluiu na lista de novas tendências de mercado os casais dink. Seriam um filão especialmente convidativo às áreas de turismo e lazer - podem viajar durante o período escolar e têm demandas específicas, como hotéis e restaurantes voltados para quem não vai acompanhado por crianças. No entanto, Susana admite que esse público ainda não foi devidamente percebido - nem pelo mercado nem pela sociedade brasileira.
- Há uma reação ao novo. Fomos educados para casar e ter filhos. Esse é o nosso modelo - diz Susana.
Por que não ter filhos? Algumas das razões apontadas por estudiosos para este fenômeno demográfico predominantemente urbano e de classe média e alta remontam o momento em que as mulheres começaram a investir seu tempo e suas expectativas na
profissão, desempenhando outros
papéis além da maternidade. Paralelamente, o modo de criar os filhos foi revisto, exigindo cada vez mais dos pais, que nem sempre têm uma tia ou avó disposta a dar uma mão como antigamente. Os pais querem oferecer mais aos filhos, e consolidou-se a crença de que brinquedos de última geração e aulas de inglês, balé ou judô são parte obrigatória do pacote, analisa a socióloga Maria Coleta de Oliveira, pesquisadora do Núcleo de Estudos da População e chefe do Departamento de Demografia da Unicamp.
A paternidade hoje parece demandar mais tempo e dinheiro. Assim, muitas pessoas vêem não ter filhos como uma opção, seja para a vida toda, seja a partir do segundo casamento ou por não ter encontrado o parceiro certo. Ou simplesmente porque, para eles, a felicidade pessoal está descolada da maternidade e da paternidade: preferem manter um estilo de vida, trabalho e lazer em que criança não entra. Sinal de hedonismo e individualismo dos tempos atuais? Boa parte dos casais sem filhos também já ouviu
comentários
assim.
- Estamos seguindo um padrão europeu. Os casais preferem investir neles mesmos, os filhos não são mais o objetivo do casamento. É um modismo associado ao narcisismo de uma sociedade que prefere investir no indivíduo - afirma a historiadora Mary Del Priore, uma das maiores estudiosas brasileiras da história da vida privada.
- Há o individualismo, mas como reconhecimento de que se pode ter projetos seus, que não necessariamente interessem à coletividade. Não no sentido de egoísmo - diz a socióloga Maria Coleta.
No meio do debate teórico, de rótulos ("Não gostam de crianças", "São egoístas") e previsões ("Quem cuidará deles na velhice?"), os casais sem filhos têm, cada um, seus motivos. Para Beto Ferrari nunca houve desejo de ser pai. Aos 20 anos, consultou um médico sobre a possibilidade de fazer vasectomia e ouviu "não". Fez a vasectomia há dois anos, aos 45.
- Dizem que é egoísmo e perguntam quem vai cuidar de mim quando
eu for velho - diz Ferrari. - Então, sou egoísta
por não querer ter filho, mas deveria tê-los para que eles cuidassem de mim?
- Espero ter saúde na velhice, ao lado do Beto. Quando não tiver mais, espero não estar aqui - diz Andrea. - Vivemos há nove anos juntos e continuamos como namorados, viajamos quase todo ano, não temos regras nem horários fora do trabalho. No nosso esquema de vida, não entra crianças.
Nem no projeto de vida da farmacêutica Raquel, 31 anos, e do marido e sócio Cristiano de Souza, 34. Eles não descartam a possibilidade de vir a mudar de idéia, mas dizem que a cada ano um filho parece uma opção mais remota. Juntos há oito anos, administram uma farmácia onde trabalham 10 horas por dia, de segunda a sábado, e Cristiano ainda faz faculdade de gestão financeira à noite. Na contabilidade do casal, contra a idéia de ter filhos pesam a estabilidade financeira, a violência, a falta de tempo para curtir a criança.
- A gente teria um filho, e a melhor parte ficaria com a tia da creche -
diz Raquel. - Egoísmo é ter filho
sem ter condições plenas de dar atenção, educação, saúde e segurança.
E a favor da possibilidade de ter filhos? Pesa o fato de os dois adorarem crianças - em muitas viagens, levam os três sobrinhos a tiracolo.
- A gente nasceu para ser tio! - brinca Raquel. - Curtimos as crianças, mas tem hora para entregá-las aos pais.
Opções como essa colocam em xeque a própria noção de família.
- Família sempre foi a mantenedora de sangue, valores, tradições e um nome. Qual a função de uma família de dois? Celebrar o momento ou a fugacidade da vida? Ainda não sabemos - diz a historiadora Mary Del Priore.
A socióloga Maria Coleta de Oliveira faz sua aposta:
- Claro que são uma família, criam vínculos, têm obrigações, parentescos. Ter filhos é uma experiência única, de transcendência. Mas quem não os tem pode viver igualmente essa experiência nas suas relações. Uma professora de ensino fundamental sem filhos
quantas crianças está ajudando a formar?
Cristiano tem orgulho de
ser um exemplo para os sobrinhos. Ele confessa, entretanto, que tem curiosidade de saber como seria um filho que misturasse seus traços com os da mulher. Mas, por ora, prefere continuar curioso.
"Egoísmo é ter filho sem ter condições plenas de dar atenção, educação, saúde e segurança.” Raquel de Souza
Foto:
Ricardo Duarte
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