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 | 18/04/2008 11h18min

Você tem filhos? Que bom. Eu não

Dispensa da maternidade ainda surpreende

Há um diálogo que os casais sem filhos já conhecem bem.

- Vocês têm filhos?

- Não.

- Mas vão ter, né?

Se a resposta for novamente negativa, o interrogatório pode continuar:

- Mas por quê?

A surpresa perante alguém que pode mas não quer ter filhos tem raízes históricas. Como explica a historiadora Mary Del Priore, em uma sociedade cristã e patriarcal o casamento sem procriação era inconcebível, e essa lógica ainda tem força: o filho materializaria a razão de ser de uma união. Somam-se a isso os traços de uma sociedade machista cujos preconceitos afetam tanto homens quanto mulheres: gerar uma criança seria a prova da virilidade deles e o exercício do que já foi considerada a "maior função feminina", a maternidade, presente em textos médicos do século 16.

Para a psicóloga Luci Mansur, autora do livro Sem Filhos: Mulher no Singular Plural, embora já se questione hoje no mundo ocidental o devotamento absoluto à maternidade como algo natural e específico do sexo feminino, algo mais forte do que a razão ainda faz pensar a maternidade em termos instintivos:

- Conservaram-se algumas ilusões em torno de uma tendência primordial que predisporia toda mulher "normal" tanto ao desejo de ter filhos quanto ao amor materno.

E esse suposto "instinto materno da mulher normal" gera cobranças.

- Como tu não vais ser mãe se tu tem útero?

A pergunta vinda de uma amiga da mesma idade chocou a secretária Claudia Santos, 35 anos.

- Mas se ainda fosse a tua avó me fazendo essa pergunta! - respondeu.

Claudia diz nunca ter sentido desejo de engravidar. A decisão, que gerou impasse em seu primeiro casamento, é compartilhada com seu atual marido, o bancário Sergio Gasparin, 43 anos. Eles preferem investir na carreira e na vida a dois e se consideram uma família completa, da qual faz parte o cachorro Wallace. As famílias de ambos já aceitaram o fato de que eles não terão uma criança crespinha como a Claudia correndo pela casa. Mas amigos e colegas de trabalho ainda se surpreendem.

- Somos felizes assim e não sentimos falta de um filho. Respeito a opção de quem quer ser mãe, mas eu quero o mesmo respeito - diz Claudia.

- Temos uma vida normal, só não temos filhos, mas muita gente não assimila isso - completa Sergio.

Há alguns anos, depois de um jantar na casa de amigos, o casal Beto Ferrari, 47 anos, e Andrea Vico, 44, tomaram uma decisão diante da insistência do anfitrião para que eles tivessem filhos. Assim que entraram no carro, combinaram: dali em diante diriam que estavam tentando ter um bebê.

- Daí as pessoas ficariam constrangidas de perguntar quem de nós tinha algum problema - conta Andrea.

Com o tempo, pararam de perguntar.

No Estados Unidos e Canadá, onde casais sem filhos têm mais visibilidade por meio de associações, uma sutil mudança de vocabulário vem sendo adotada para reforçar a idéia de que não ter filhos pode se tratar de uma opção de vida, como destaca a psicóloga Luci Mansur: preferem se denominar de childfree (que pode ser traduzida como "livre" de crianças) em vez de childless (sem filhos), que teria uma conotação de ausência ou falta involuntária.

ZH/CADERNO DONNA
adriana franciosi - banco de dados\ZH / 

Claudia Santos é um exemplo de "childfree"
Foto:  adriana franciosi - banco de dados\ZH


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