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 | 29/04/2008 11h21min

Acordo de paz entre irmãos

Saiba como estimular a boa convivência entre os filhos

Na estimativa da mãe, quando Augusto e Vicente se reúnem para brincar, a calmaria não dura 10 minutos – sendo otimista. Em média, garante-se cinco minutos de silêncio, e então alguém precisa intervir, normalmente quando um dos pequenos grita ou chora. Vicente, dois anos e 11 meses, concentrado em um jogo ou enfileirando carrinhos lado a lado, seguidamente dá o alerta, sinal de que Augusto, um ano e três meses, chegou arrasando:

– Tira ele daqui! Tira ele daqui! – suplica.

A mãe acode primeiro quem está chorando e dá início à investigação: o que houve? Quem começou? Vicente, sincero e disposto a colaborar, se entrega sem demora quando é o culpado e confessa que mordeu o irmão. Às vezes, Augusto confunde beijo com mordida e crava os dentes no companheiro. Dependendo do tamanho do auê, cada um vai para um lado, até que se acalmem. Depois, é proposto o acordo de paz: um abraço e um pedido de desculpas.

– Eles são muito carinhosos um com o outro, mas na hora de dividir brinquedos é um estresse. Gritaria, choro, mordida, tapa e pontapé dos dois lados – conta a bibliotecária Simone Petrolli, 34 anos.

Psicóloga e especialista em terapia familiar e de casal, Caroline Rubin Rossato Pereira salienta que o relacionamento entre irmãos é, provavelmente, o laço familiar mais duradouro que a criança terá ao longo da vida, e manifestações de carinho e cuidado, além da boa convivência, devem ser estimuladas pelos pais. Momentos de raiva, ciúme e rivalidade são normais, durante todo o desenvolvimento.

– Quando as crianças são pequenas, os adultos precisam auxiliá-las a se acalmar e a lidar com a agressividade em situações de tensão. O mais importante é os pais as estimularem, gradativamente, a abandonar a expressão puramente física de agressão, choro ou brabeza, por estratégias mais bem desenvolvidas, como a conversa, a negociação e a troca – diz Caroline.

O músico Alexandre Birck, 40 anos, pai dos guris, observa os filhos à distância em algumas situações, enquanto discutem e tentam acertar sozinhos a partilha dos objetos. Se a briga se estende e fica mais agressiva, surgindo o risco de que um deles possa se machucar, ele interfere. É essa iniciativa que a psicóloga Patrícia Mazeron recomenda. A postura dos pais é determinante para o tipo de relação que se estabelecerá entre as crianças e os adolescentes da casa.

– Tem que deixar os dois resolverem e intervir quando necessário para acalmá-los, explicar, ver qual é a razão de um e de outro e como poderiam resolver a situação da melhor maneira. Quando for uma coisa mais grave, os limites têm que ser dados, para que respeitem as regras – explica Patrícia.

>> Leia mais na matéria Como lidar com as brigas entre os filhotes

ZH/Caderno Meu Filho. Fonte: Caroline Rubin Rossato Pereira, psicóloga, especialista em terapia familiar e de casal, mestre e doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento
Competição e rivalidade são essenciais
Promover um bom relacionamento entre irmãos é uma tarefa que deve ter início durante a gravidez do segundo filho. Prepare o primogênito para recebê-lo, converse sobre o assunto e estimule-o a compartilhar pequenas responsabilidades em relação ao bebê, mas sem forçá-lo ou sobrecarregá-lo. Ajude as crianças, ao longo do desenvolvimento, a se perceberem como pessoas diferentes, com interesses, necessidades e habilidades distintos. Tratar cada filho de acordo com suas particularidades não significa gostar ou privilegiar um ou outro.
Estimule os irmãos a terem momentos de lazer e diversão juntos, para que aprendam a desfrutar da companhia do outro.
A raiva é um sentimento normal e faz parte da vida de todos. É importante que a criança descarregue o que sente e que aprenda a fazer isso de maneiras não-violentas - conversando, por exemplo. Ela precisa do exemplo dos adultos para aprender. Famílias que consideram ideal o modelo de convivência em que não há nenhum tipo de atrito entre pais e filhos, reprimindo tensões e brigas, podem dificultar a resolução e a superação desses sentimentos. Para que a criança consiga expressar amor e carinho pelo irmão, precisa, ao mesmo tempo, de espaço para manifestar raiva e descontentamento.
A competição e a rivalidade são tão essenciais para o relacionamento entre irmãos quanto a cooperação, o carinho e o companheirismo. O alerta vem quando as desavenças tomam a maior parte do tempo de convivência entre eles. Os pais devem investigar os motivos dessa relação tensa, e um especialista pode auxiliar muito nesse processo de aproximação. Fatores como temperamento, idade, sexo, mudanças na rotina familiar e a interação com os adultos da casa devem ser considerados.
Em alguns casos, as disputas se originam em busca da atenção dos pais. Os irmãos podem ver, um no outro, um rival brigando pelo afeto e pelo tempo do pai e da mãe. Como no período logo após o nascimento de um irmão, é importante reservar um tempo especial para passar com cada um dos filhos, dando atenção exclusivamente a essa criança e propondo atividades do interesse dela.
Não se sinta culpado pelos atritos surgidos entre seus filhos ou pela impossibilidade de se dedicar igualmente a cada um deles o tempo inteiro. O sentimento de injustiça aparece com certa freqüência nas relações fraternas, e a diferença será sempre apontada pelos irmãos. Todos na família precisam aprender a lidar com isso.
Emilio Pedroso / 

Vicente e Augusto voltam a ficar numa boa após um abraço e um pedido de desculpas
Foto:  Emilio Pedroso


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