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 | 19/04/2008 09h27min

Separar ou não os gêmeos na escola?

Manter os irmãos em turmas diferentes pode ser benéfico

Há escolas que não deixam a decisão para os pais: irmãos gêmeos serão sempre matriculados em turmas diferentes. Isabela e Giovana, 12 anos, hoje alunas da 7ª série em uma instituição que adota esse sistema, estiveram na mesma sala de aula por apenas um ano, durante a Educação Infantil. A mãe recorda a experiência:

- Chegavam em casa se unhando. Um dia a Isabela disse: "Sai da minha frente que eu não agüento mais olhar para a tua cara" - diverte-se Rossana Silva Prado.

O psicólogo Celito Francisco Mengarda salienta que a matrícula em turmas distintas pode ser benéfica para que um dos irmãos se mostre mais, descobrindo suas potencialidades, deixando de simplesmente ser guiado pelo outro. Foi o que aconteceu com Tiago, gêmeo de Mateus, de sete anos. Mateus coordenava até as brincadeiras, determinando quem assumiria os papéis de Batman e Homem-Aranha.

- O Mateus mandava e desmandava no Tiago. Não adiantava a gente querer mexer com isso. Quando eles mudaram de turma, o Tiago se revelou, ganhou autonomia, passou a ter um novo círculo de amigos - lembra a mãe, a gerente comercial Claudete Tavares, 39 anos.

Susana Dornelles, psicóloga e orientadora educacional, afirma não ver desvantagens do ponto de vista do desenvolvimento. Além de facilitar o processo de construção da identidade e ampliar as possibilidades de contatos sociais, estudar em grupos separados permite que cada um se sinta único perante os colegas e os professores.

- Como os gêmeos se sentem sempre acompanhados um pelo outro, eles podem desenvolver uma certa tendência a se fechar em seu mundo, o que pode provocar atrasos no desenvolvimento social. É importante que tenham experiências distintas, que podem ser proporcionadas por turmas diferentes, férias separadas, visitas independentes - exemplifica Susana.

Mengarda aponta uma desvantagem. Se forem muito próximos, e caso estejam começando a vida escolar, a distância pode provocar sofrimento e prejuízo na adaptação.

- Quem sabe mais adiante, deixando passar um ano, dois ou três? Mas se eles já vêm com algum grau de autonomia, é tranqüilo. Os pais devem conversar sobre isso na hora da matrícula - sugere o psicólogo.

ZERO HORA

Fonte: Susana Dornelles, psicóloga, orientadora educacional e professora da PUCRS
Como preservar a individualidade dos gêmeos
Desde o nascimento, chame os bebês pelo nome, e não por "gêmeos". Permita que cada um tenha seus brinquedos, diferentes dos do irmão, bem como um lugar próprio para guardá-los. Se for possível, é importante que cada um ocupe o seu próprio quarto ou, pelo menos, que tenha uma parte do quarto só sua.
Por mais tentador que você ache, não é adequado vestir os gêmeos com roupas iguais ou usar o mesmo corte de cabelo. Essas práticas não auxiliam a conquista da identidade pessoal, que toda pessoa deve ter - muito pelo contrário, dificulta esse processo. A criança acaba por não saber onde termina a sua personalidade e começa a do irmão. Ao invés da diferenciação, tão importante ao desenvolvimento infantil, ocorre a indiferenciação, gerando muita confusão entre as crianças.

Fonte: Celito Francisco Mengarda, psicólogo, professor da Faculdade de Psicologia da PUCRS
Não faça comparações
Incentive as preferências individuais dos gêmeos. Se um gosta de violão e o outro detesta música, não force o segundo a também freqüentar aulas para aprender a tocar o instrumento. Dê chance para que escolham o que querem fazer, a partir de uma variedade de opções. Obrigar a fazer alguma coisa pode gerar frustração, inibir habilidades e qualidades e fortalecer algum tipo de insatisfação ou revolta contra os pais. Mas lembre-se também de que, entre gêmeos, existe a tendência de que apresentem comportamento e gostos parecidos.
As tentativas de padronização podem fazer com que os irmãos se tornem, no futuro, inseguros e incapazes de tomar decisões sozinhos. Iniciar e manter um relacionamento e optar por uma profissão, por exemplo, podem se tornar tarefas complicadas na vida adulta. Ressaltar a independência de cada um, desde cedo, faz com que aprendam a fazer escolhas sem a necessidade da opinião do outro e livres do medo constante de desagradá-lo.
Há casos de irmãos que nasceram em datas muito próximas e são criados como gêmeos. A esses também é preciso dar o direito da livre escolha. Incentive as aptidões e as preferências individuais quanto a alimentação e lazer, por exemplo.
Em casos de não-gêmeos, é comum que o caçula inveje o mais velho, colocando-o como modelo e tentando imitá-lo. O mais velho, por sua vez, não gosta, tenta se preservar, não quer que ninguém seja igual a ele. Com gêmeos, se dá o mesmo: em alguns momentos, eles vão querer fazer escolhas distintas, ficar sozinhos, se dedicar a uma determinada atividade sem o irmão. Respeite as vontades.
Coloque a amizade como um valor familiar, respeitado por vocês, mas não obrigue seus filhos a serem os melhores amigos um do outro. Eles podem se tornar os melhores companheiros, mas não devem ser obrigados a isso. Faça com que se sintam livres para conhecer outras pessoas, que se tornarão tão amigas quanto o irmão ou até mesmo mais próximas.
Quando há diferença de desempenho na escola, isso deve ser bem assimilado pelos pais. Não deixe de ser compreensivo com quem está com as notas mais baixas e incentive o outro, de melhor rendimento. Estimule a ajuda mútua e deixe claro que está dando mais atenção a um deles por causa das dificuldades com o conteúdo.
Nunca faça comparações ressaltando aspectos negativos para cobrar, punir ou ameaçar. Encoraje o que está em desvantagem a se esforçar e a se superar. Investiguem juntos, por exemplo, o que o irmão com boas notas está fazendo para garantir esse bom desempenho - estudando mais, se concentrando mais nas aulas? Interfira para promover um melhor desempenho, mas jamais para salientar a dificuldade.
arquivo pessoal / 

Tiago (à frente) ganhou mais autonomia quando os gêmeos passaram a estudar em turmas diferentes na escola
Foto:  arquivo pessoal


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