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Crônicas  |  01/12/2011 18h34min

Nós, ogros!

Thiago Momm  |  Editor-chefe da revista Naipe


Você é especial, diz a propaganda, a sua mãe, o livro de autoajuda. E todos têm razão. Temos peculiaridades e gostar delas é um estímulo básico para se viver melhor.

Mas levamos isso tão a sério que desaprendemos ou nunca aprendemos a viver coletivamente - e o trânsito de Florianópolis esfrega isso na nossa cara: se cada um continuar insistindo que é especial e alheio à responsabilidade pelas filas na Ilha, aí está.

Aos 18 anos, ganhei carro próprio. Até os 30, nunca fiquei sem. Vendi o último para viajar três meses pelo mundo. Talvez eu compre outro em breve, não sei, mas há 15 meses sou pedestre, como nos tempos do Ensino Médio.

Sim, há poréns de ser pedestre. Para sair à noite tenho contado com a benevolência de familiares. Até um amigo me jogou a chave outro dia e disse "pega aí, depois você devolve". Sem esse suporte, adeus a quase todos happy hours, cinemas, nights, jantares.

Mas é só. De dia, ainda bem que tenho uma garagem vazia. Primeiro, nada mais divertido do que andar no banco do carona destes ogros enervados e arrogantes que são os motoristas. "Olha essa porra de fila", bufou um outro dia. Dedos impacientes mexendo nos botões do carro (deve ser por isso que os novos modelos têm cada vez mais deles), olhar incrédulo/inconformado no oceano de lataria à frente. Cena corriqueira. Até ontem, o Shrek era eu. Em breve vêm as bufadas sobre os carros que acabaram de chegar às ruas, a falta de um novo elevado, o péssimo transporte público, o além.

O além é um grande vilão. No Brasil nunca nos disseram (ou disseram e não aprendemos) que uma cidade é composta da soma de atitudes dos seus habitantes. A coisa se retroalimenta: quem nunca viu uma cidade funcionar não sabe o que se faz para isso. Nascer holandês é mais fácil. O exemplo já está lá. Você vê os bons resultados e tem o estímulo necessário para mantê-los. Então vem o especialista em transporte multimodal da Holanda e não há tradução simultânea que nos faça entendê-lo. Ele diz, sobretudo, que a culpa não é do além, mas nossa.

Então a coisa toda cabe mais aos psicólogos que aos especialistas de trânsito. É preciso estudar essa imunidade e excepcionalidade que nos atribuímos como motoristas. Todos dirigem pior que nós e aos outros deveria ser negado o direito de ficar sozinho no carro.

Aliás, leio aqui no caderno de Mobilidade Urbana em SC, encartado no Diário Catarinense, que 18% dos entrevistados não usariam o transporte público nem se ele fosse melhor. O percentual pode assustar, mas ainda me parece baixo. No Brasil, não ter carro é ser fracassado. Assim funciona na Ogrolândia. Parabéns ao Jornal do Almoço por ter feito reportagem com um médico que trabalha de bicicleta. É preciso romper com o clichê de que não se pode ser próspero e socialmente responsável.

Além de me divertir como caroneiro, gosto de caminhar por aí. Disse um inglês, no Fórum Internacional sobre Mobilidade Urbana em abril deste ano na Ilha, que andar não é apenas ir de "a" para "b", mas aproveitar o que existe entre os dois pontos. Algo óbvio, mas que esquecemos.

Dirigir de janelas fechadas mata nosso contato com a cidade. Entrar nos lugares, fruí-los sem pressa, distinguir os sons de Florianópolis, viajar nos detalhes e nos rumos da Ilha sem pensar no tempo da Zona Azul: sei que muitos acham tudo isso muito hippie e também sei que agora o calor estimula menos a ziguezaguear pelas ruas. Tanto sei que, fora deste texto, eu ainda nem havia conversado muito sobre isso com ninguém.

Enfim, não quero ser panfletário. Alguns compromissos se adaptam às suas possibilidades, outros você perde mesmo. Entre prós e contras, a vida de quem dirige menos ganha outro ritmo. Você cria uma Holanda particular.

Felipe Parucci / Arte DC


Foto:  Felipe Parucci  /  Arte DC


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