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Crônicas  |  01/12/2011 18h24min

Floripa, um poema modernista

Sérgio da Costa Ramos  |  Colunista do Diário Catarinense


Falta pouco. Talvez uns dois anos de boas vendas das 22 montadoras de veículos existentes no país para que alcancemos o verdadeiro labirinto urbano. Fôssemos uma cidade com planejamento e uma pitada, mínima, de "vontade política", já teríamos um rodoanel para retirar o trânsito pesado das vias de acesso citadino. E corredores urbanos para o BRT, o autêntico "ônibus-metrô".

Mais um transporte marítimo de massa e pelo menos mais umas duas pontes e uns três túneis. Um ligando o centro à Universidade, "tatuzando" o Morro do Antão. Outro "furando" o Morro do Padre Doutor e ligando o Itacorubi à Lagoa da Conceição. E um terceiro, submarino, ao lado das pontes, como os túneis que ligam Kowloon a Hong Kong e Nova York a Nova Jersey.

Mais: teríamos uma mobilidade "alternativa". Com um projeto sério de ciclovias e de estímulo à utilização do transporte coletivo de qualidade - desde que houvesse um, é claro. E um centro inacessível aos automóveis, quatro rodas a serviço de uma única pessoa egoísta. Se ainda precisamos conviver com os automóveis, que, na Ilha, já dão em árvore, necessitamos de duas coisas.

1) Limites.

2) Ordenamento na ocupação do solo.

"Com o inchamento da zona continental e a caotização da Ilha - diagnosticou o falecido arquiteto Luiz Felipe da Gama D'Eça - criou-se um grande desequilíbrio, que estimula os conflitos de uso e a desordem, ampliando o atrito urbano, hoje responsável pela deterioração do sistema viário".

Ao invés da regulação de um Plano Diretor, o que vimos nos últimos anos foi uma "força-tarefa" na Câmara Municipal modificando zoneamentos e ampliando gabaritos de edifícios. Ou seja: um caos cuidadosamente cultivado e devidamente "contratado" para o futuro. Poucas cidades do mundo, talvez nem mesmo Xangai, na China, tem crescido tanto e de forma tão febricitante quanto Floripa.

Em duas gerações, de 1960 a 1990, a cidade terá crescido a um ritmo de quase 8% ao ano. Em 1960, a cidade contava com uma população ainda de dois dígitos de milhar: 98.590 habitantes. Hoje, só na ilha temos meio milhão. Se contarmos a GranFloripa, um milhão.

Era bom. Todo mundo se conhecia. Todas as casas tinham quintais, mesmo no centro da cidade. As crianças conheciam um peru, uma galinha, bichos que hoje só conhecem prensados e congelados nas gôndolas dos supermercados. O carteiro entregava a correspondência sem olhar o endereço, só pelo formato do envelope. As casas eram identificadas pelo jardim. As margaridas da dona Ina Moelmann; as buganvílias do "seu" Raulino Horn; as bocas de leão do seu Carolo Wendhausen, na Praia de Fora; os copos de leite da casa do Barão, na Bocaiúva. Jornal era na banca do Beck e carne já era nas Fiambreiras Koerich...

Há 50 anos, a cidade era uma aldeia, podia-se dormir de janela aberta. Hoje, Floripa é muito melhor, se considerarmos o setor terciário, os serviços, a gastronomia. Mas já não temos um porto, sossego ou segurança. Vive-se "sobre rodas", um labirinto sem mobilidade. Já fomos boa notícia no The New York Times, mas a vida poderia ser muito melhor se contássemos com administrações mais ágeis e competentes, com visão prospectiva do futuro.

Não tenho dúvida, contudo, de que a Ilha vencerá a luta pela sua preservação. Terá uma economia voltada para a ciência da computação, a economia da TI, tecnologia da informação e do conhecimento. Costumava passar férias no Rio nos anos 1960 e lá me perguntavam:

- Florianópolis? Não sei... Onde fica? Fica no Brasil?

Sonho de consumo

Hoje, morar em Floripa virou um sonho de consumo. Não conheço brasileiro de bom gosto que não ame Floripa, que não persiga a Ilha nos verões abrasivos ou na amenidade de abril-maio, querendo testemunhar os mais belos "ocasos" do planeta - e, por tabela, ouvir os "casos raros" da ilha formosa. Seria o caso de se parodiar o samba famoso e versejar:

- Quem não ama Floripa/ Bom sujeito não é/ Ou é ruim da cabeça/ Ou doente do pé...

Há, contudo, "ruins da cabeça" que não acreditam mais na salvação da cidade, condenada ao imobilismo. E pregam, de forma mesquinha, uma política de "pão e água" para Floripa, cujos problemas urbanos "não mereceriam mais o investimento e a atenção dos governos".

Aí, perdem a razão. A esses poucos dedico um poema do modernista imortal Raul Bopp, que se enamorou de Floripa quando aqui esteve nos anos 1930. Versos livres, que chamou "Florianospi":

Florianospi de casaria tranquila/ Penteada com ar colonial/ As ruas abraçam a gente:/ - Como vais?/ Moças olham quem passa das janelas/ Criança faz pipi na calçada/ Na praça, as velhas árvores protegem os namorados.../ Ah, adeus cidade titia/ Que dá melado pra gente./

Pois é. Floripa dá melado para todos, mesmo para aqueles que contra ela destilam fel.


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