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Crônicas  |  21/11/2011 16h18min

O fim da rotina em uma volta

Marcone Tavella  |  Jornalista e assistente do www.diario.com.br


Reclamou uma vez mais a Juarez do freio de mão não puxado, acionou o contato, esperou os três apitos agudos e deu a partida. O ruído do Mercedes Torino 1722 ocupou o seu lugar junto às buzinas, motores, músicas bregas e anúncios ritmados de megafones desregulados. Embalo tradicional do meio dia no centro da capital catarinense, que ardia naquela terça-feira de verão.

Havia três anos que Moacir - motorista de ônibus há 23 - guiava pela linha 137, que contorna o morro do Pantanal, passando pela Av. Mauro Ramos, Beira-Mar Norte, Lauro Linhares, Universidade Federal e Saco dos Limões, nesta ordem. Seu turno começava em um horário infeliz para quem deixou lá atrás uma possível carreira como bancário — o que lhe renderia ao menos um ar-condicionado durante o expediente.

O ônibus estacionado nos fundos do terminal foi engolindo os cidadãos de cada dia, enquanto esperava sua deixa para fugir daquele aparente caos urbano. Sentado em seu banco de cobrador, Juarez ia despejando a vida difícil de um deficiente físico com três filhos pra criar e uma mulher com problemas com álcool. Moacir se resumia a olhar para o relógio de pulso falsificado e transpirar.

Com uns 15 indivíduos pendurados pelas barras de ferro ensebadas e todos os bancos ocupados de idosos, assalariados e/ou estudantes impacientes, o dispositivo da catraca enfim apitou, permitindo a saída para mais uma jornada.

As janelas iam abertas, escancaradas. Bem abaixo delas, a rotina, estampada nos rostos inexpressivos, buscavam lá fora alguma novidade do trajeto. Um, dois, três semáforos fechados... os braços se estendendo a cada ponto. Que infelizes! Desejam entrar naquele ambiente de chão metálico e caras fechadas. Local de trabalho de Moacir Pereira dos Santos, 46 anos.

O ônibus azul trafegou pela Av. Beira-Mar Norte, um consolo à visão e ao calor. O vento que correu pelo interior do veículo fez Moacir quase sentir prazer de estar ali. Pelo retrovisor interno, o motorista sorriu para Juarez quando uma mulher bonita entrou chamando-o carinhosamente de Moa. Sua expressão se fechou logo em seguida. A lembrança de que ainda era motorista de ônibus veio com uma fechada logo na entrada da Lauro Linhares. Alguns passageiros deixam escapar uma ofensa ao motorista, que não abriu mais a boca.

Numa equação comum a cada rodada desta linha, o ônibus apontou no entroncamento da Edu Vieira com a entrada do bairro Córrego Grande com o mesmo número de passageiros do início da viagem. Apesar de rostos novos, a representatividade é a mesma: idosos, assalariados e estudantes impacientes. O ônibus parou, seguindo a ordem natural do trânsito naquele local - a cada cinco minutos, roda-se dez a quinze metros, com sorte.

O calor predominava naquele mar de carros, ônibus, motos e pessoas famintas e injuriadas. No fundo do ônibus uma rádio evangélica tinha como audiência o volume no máximo de um celular moderno. Moacir e Juarez iam tirando a cabeça para fora do ônibus em busca de espaços para rodar, terminar aquela viagem maçante. Uma criança explode em choro no banco atrás do espaço reservado ao motorista, de onde pode-se ouvir um suspiro inconformado.

Ali, naquele horário, encerrado no entroncamento abrasador, em meio a mais ensurdecedora poluição sonora, Moacir refletiu sobre sua vida. Pondo marcha para ocupar um espaço vago, seguiu pela curva do condomínio Athenas Park em velocidade progressiva em direção a Eletrosul. Foi aí que tudo mudou para aquele coletivo de mesmices. Uma freada chamou a atenção de Juarez para seu amigo no volante. O ônibus parou em frente ao posto de gasolina com seta em direção a ele. Algumas cabeças despertaram do estado de tédio em que estavam, tentando entender o que ocorria. Após a passagem do último carro de uma fila que seguia em direção oposta, o ônibus cortou a via e entrou no pátio do posto de gasolina.

O frentista tirou o boné, coçando a cabeça. Um rapaz que saia da conveniência abriu seu refrigerante sem piscar os olhos, acompanhando aquela cena. Dentro do ônibus começou um alvoroço. "O que este infeliz está fazendo?", perguntavam uns, "ele enlouqueceu!", diagnosticavam outros. Juarez, sem saber o que dizer, tentava conter a algazarra atrás da catraca. E Moacir, sorrindo e alheio a tudo aquilo, guiou o ônibus por entre as bombas e de volta para a sua rota, como se recolocasse um trem descarrilhado no seu trilho de sempre.

Muitos ali só se deram conta do feito horas depois em suas casas, no conforto do sofá, com a novela das oito na TV. Até Juarez, que teve que abandonar o serviço logo na volta ao terminal, por conta de mais uma briga do filho no colégio, demorou a reconhecer. O que o amigo havia feito era digno de um herói. Moacir tinha quebrado a rotina.

Felipe Parucci / Arte DC


Foto:  Felipe Parucci  /  Arte DC


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