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 | 27/04/2008 07h10min

Felicidade masculina atrás do fogão

Homens começam a assumir a cozinha com o maior prazer

Feliz o homem que come comida, bebe bebida, e por isso tem alegria. As palavras do poeta português Fernando Pessoa talvez sejam as mais adequadas para explicar o que tem inspirado homens modernos a buscarem na cozinha um encontro com a felicidade. Executivos, médicos, advogados, engenheiros, dentistas, estudantes universitários. Não interessa a ocupação. O evidente é que cada vez mais cedo eles entendem a arte de cozinhar como uma forma de prazer, relaxamento e de sedução.

- Nos últimos 15 anos, a culinária começou a ficar popular. Chegaram chefs franceses, novos livros e a TV tem séries maravilhosas - diz o chef e professor de Gastronomia do Senac Mamadou Sene, tentando explicar o interesse de profissionais pelas panelas.

Como fizesse parte de uma alquimia, cozinhar é uma atividade lúdica que encanta, diz o coordenador do curso de Gastronomia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Rodolfo Krause. Da mescla de aromas, sabores e texturas nascem resultados aliados ao prazer, à energia do criar, à satisfação do saborear e à confraternização. É a soma dessas combinações que tem reunido homens em volta do fogão nas confrarias e nos jantares entre amigos.

- É como receber uma injeção de adrenalina. Pensar em todos os detalhes faz a gente se perder no tempo. Ver a satisfação das pessoas é maravilhoso - revela Joel Paulo Arosi, 25 anos, sócio de uma empresa de automação industrial.

Dono de uma cozinha espaçosa, com uma dezena de facas de diferentes funções, base magnética para utensílios e um pequeno fogão industrial de alta pressão, Joel percebeu a importância das reuniões em volta da mesa durante a infância. Nas férias na casa da avó, em Putinga, interior do Estado, comia peixe frito na banha de porco, descobria especiarias no quintal e via de perto a dedicação e a paixão pela produção da culinária caseira. Tudo parecia mágico e muito saboroso. Hoje, quando retorna ao Interior, quem surpreende é ele. Em um dos últimos finais de semana que visitou a família, preparou nhoque com ricota e molho ragu. Os ovos para a massa foram recolhidos do galinheiro, os temperos saíram da horta e o leite foi retirado fresquinho da vaca enquanto o molho fervia desde cedo entre as carnes.

Além de testar habilidades, cozinhar é uma representação de carinho. Em um pensamento análogo, o escritor irlandês Oscar Wilde afirmou que "depois de fazer uma boa refeição, somos capazes de perdoar a todos, mesmo aos nossos parentes". Para os cozinheiros, manipular ingredientes e transformá-los em delícias pode ser também um resgate à infância, uma forma gostosa de relembrar a comida da mãe e da avó. Ou uma maneira de quebrar o tabu de que lugar de mulher é na cozinha.

Modelo e monitor da escola de Educação Profissional de Gastronomia (Egas), Guilherme Scholl Schell, 22 anos, recorda o tempo em que era pescador em Capão da Canoa e das habilidades com anchova e tainha na brasa. Feitas com o perfeccionismo de um exímio cozinheiro, as receitas são apreciadas em grupo, com "todo mundo em volta", como gosta de dizer.

- O fundamental é saber que as pessoas vão gostar. A cozinha é para o homem uma maneira de seduzir, mas é importante ter conhecimento, saber preservar sabores naturais e dar leveza aos pratos - diz Guilherme.

Receitas que fogem do arroz-e-feijão, com ingredientes refinados e preparo que exige tempo fazem parte das preferências deles. De acordo com o chef Jorge Nascimento, professor do curso de Gastronomia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), a paixão pela culinária faz parte de um movimento mundial. Por não terem obrigação de cozinhar todos os dias, como é o caso de muitas mulheres, os homens geralmente cozinham melhor, acredita o chef. Na prática, eles fazem tudo com muita dedicação porque têm vontade de ir às panelas, mas nem sempre conseguem criar receitas próprias apenas com os alimentos disponíveis na geladeira.

- Houve uma evolução na forma de comer. A boa educação em casa, o conhecimento da história do vinho e da comida e a sociabilidade dão status, projeção social e cultural. Essa sociabilidade faz com que as pessoas tenham mais assunto, se sintam mais cultas. Isso é o que seduz - explica Nascimento.

No dia-a-dia das compras, o homem é bem mais ousado. Ao contrário das mulheres, que geralmente afirmam ter medo de investir em um produto e entregá-los na mão das empregadas domésticas, os cozinheiros investem em fogões e geladeiras de primeira qualidade, panelas de titânio ou cobre e produtos de linha masculina.

De acordo com o empresário Fernando Pascual, dono da Cook Store, elas são as maiores compradoras, mas eles são os que gastam mais. Os fogões mais caros da loja, por exemplo, que custam de R$ 12 mil a R$ 13 mil, foram adquiridos por homens.

- Homem costuma não se importar com o preço. Hoje, aventais e luvas ganharam cores masculinas, e os eletrodomésticos ficaram mais robustos, são feitos em ferro fundido e aço escovado. Objetos têm mais cara de profissional - afirma o empresário.

Se eles estão investindo mais, elas, por outro lado, estão incentivando. As semanas que antecedem o Dia dos Pais são as mais movimentadas da loja. Não porque as mulheres queiram cozinhar para eles, mas porque sabem que eles gostam mesmo é de moedores de pimenta, pilão, luvas de silicone, tesouras para pizza, potes para temperos.

ZH/CADERNO DONNA
Divulgação, 15/04/2008  / 

Joel Arosi considera cozinhar uma injeção de adrenalina
Foto:  Divulgação, 15/04/2008


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