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 | 17/04/2008 12h34min

A TPM, segundo eles

Como os homens enfrentam a instabilidade emocional das mulheres

Do outro lado da linha, a secretária do ginecologista pergunta:

– Qual é o tema da entrevista? É para eu já ir avisando o doutor. Ao ouvir que a reportagem seria sobre como os homens lidam com as mulheres em TPM, ela suspira:

– Ah, meu Deus... Logo, Simone Malafaia, 34 anos, se explica:

– Meu marido não tem paciência, não. Se puder evitar ficar perto de mim nesses dias, evita... Fico insuportável mesmo. Nem eu me aturo.

Muitos livros, consultas médicas e papos de mesa de bar já trataram da TPM e de como as mulheres podem evitar esse desconforto. Mas as páginas que seguem serão reservadas ao que têm a dizer aqueles que precisam enfrentar a irritação ou a tristeza súbita que, uma vez ao mês, acometem as mulheres próximas.

Isso para citar apenas dois dos 150 sintomas possíveis da Síndrome Pré-Menstrual – o termo TPM caiu em desuso entre os médicos porque a palavra “tensão” não dá conta da falta de motivação, da ansiedade, da sensação de inchaço, da compulsão por doce, do sono, da insônia e tantos outros sinais provocados pela flutuação hormonal típica de quando a mulher está prestes a entrar “naqueles dias”.

A questão é: como os homens enfrentam os dias antes “daqueles dias”? Depois do relato de Simone, entre o bom humor e a queixa, era preciso ouvir o mecânico Sandro Garcia da Silva, 31 anos, companheiro da secretária há três. E que merece, segundo ela, nota 8,5 em tempos de TPM.

– A Simone fica muito nervosa – argumenta ele. – Nada agrada, nada está bom. Você fala alguma coisa, irrita. Tudo incomoda. Então, procuro não fazer nada, ficar o mais quieto possível mesmo. Se você gosta dela, quer ter um futuro ao lado dela, tem de agüentar.

São só uns diazinhos. E aí? A nota ainda é 8,5? Ginecologistas atestam nos consultórios uma nova disponibilidade dos homens para entender os efeitos da TPM. A professora de Ginecologia da UFRGS Maria Celeste Osório Wender quase não ouve mais queixas de suas pacientes sobre a incompreensão de maridos e namorados, e Eliezer Berenstein, que desde 1995 mantém uma subdivisão de sua clínica destinada à TPM, conta que eles se tornaram seus aliados:

– Há 10 anos, a maioria dos homens não tinha informação sobre o que é Síndrome Pré-Menstrual. Hoje, eles são os principais observadores e trazem a mulher para clínica. Claro que aturar mau humor não virou hobby masculino. Eles ainda reclamam – e muito, em especial no trabalho.

Nos projetos que desenvolve em empresas para ajudar funcionários a entender e identificar os sintomas da TPM, Berenstein já ouviu de muitos chefes frases como “Se ela tem TPM, troco por um homem” e encontrou quem alegasse que machos não têm “esse defeito”. Aí, é um passo para rotular como TPM qualquer destempero feminino, por mais cheia de razão que a moça esteja.

Além da competição no mercado de trabalho, a psicóloga e consultora organizacional Roberta Fernandes Lopes do Nascimento aponta outra razão para essa resistência:

– Tem dias em que não se agüenta o mau humor do homem, mas ele não tem uma desculpa hormonal para dar, como a mulher.

Eis o desafio para os homens: entender e aceitar algo que eles jamais vão sentir. Donna ZH perguntou a homens como eles lidam com a TPM. O resultado foi que a sigla de três letras é parte do folclore familiar. A compreensão mútua não impede pequenos dramas e micos cotidianos – apenas permite que ambos possam rir juntos depois que o pior já passou.

Para Sônia e Volmar Sganzerla, ambos de 44 anos, casados há 25, TPM é coisa do passado mesmo: ela teve menopausa precoce. Mas a memória de Volmar, permanece viva: uma vez por mês, a mulher ia da brabeza às lágrimas em instantes. Quando dizia que estava mal por causa da nonna, que morrera anos antes, ele chegava ao veredicto... TPM.

Mas, quando se trata do destempero de uma das 26 jogadoras que ele treina no time de futebol feminino do Juventude, Volmar não exibe a mesma forma. Dia desses, falou para uma das meninas que acertasse o passe. Berrou, porque precisava ser ouvido no campo, explica, não por mal. A reação da jogadora não foi das mais cordatas, e Volmar revidou:

– Tu tá na TPM, tchê?! Não, ela não estava. Ele admite a bola fora e se explica:

– Geralmente, não pergunto essas coisas. Apesar de que deveria. Para saber se tem que chegar mais leve, né?

Foi para evitar desentendimentos que a escritora Gisela Rao, 43 anos, passou a usar um anel vermelho para alertar o namorado quando está na TPM. O administrador Giuliano Taneze, 29, garante que o método evitou muita chateação. Talvez não os micos. Certa vez, ela teve um acesso de choro porque ele pediu uma codorna para jantar.

– Comi com o maior embaraço – lembra Taneze.

A TPM pode mesmo ser reveladora para um casal. O ginecologista e terapeuta sexual Amaury Mendes Jr. já observou em consultório que esse é o período em que mais se discute a relação e em que as mulheres se perguntam: “Será que ele me ama mesmo?”.

Quando um casal que está em tratamento aparece dizendo que as coisas voltaram a dar errado, não raro o médico investiga e descobre que se tratava da tal TPM, algo passageiro. O ginecologista ressalva que muitas vezes vêm à tona frustrações que nada têm a ver com o ciclo hormonal: a diminuição da libido que pode se manifestar na TPM serve com freqüência de desculpa para evitar o sexo com um parceiro que não desperta mais o interesse.

A irritação ou qualquer outro sintoma serviriam como lente de aumento para os problemas a dois.

– TPM pode ser a hora da verdade, se você quiser ouvir – diz o médico.

O cartunista Moacir Gutterres, o Moa, 45, parece disposto a escutar. Ele até faz graça da pergunta de como lida com a TPM da mulher, a terapeuta ocupacional Simone Lerner, 41:

– Fuga vale? Mas logo Moa fica sério e diz:

– Pode ser uma armadilha para todo mundo, até para a mulher. Às vezes, ela fala uma grande verdade que a TPM liberou e recebe um “Ah, tá na TPM”.

Há ainda outra forma de os homens encararem a Síndrome Pré-Menstrual. Para Amaury Mendes Jr., esse é um bom momento para mimar a mulher e fazer suas vontades – o que pode até melhorar o sexo, mesmo que isso só aconteça quando a TPM passar. No quesito cavelheirismo, o músico Eduardo Normann, 39 anos, das bandas Planondas e Space Rave, se desdobra com a mulher e parceira de música, Mariana Kircher: massagem, do-in e até café na cama.

– Deixo ela se recuperar tranqüilamente – conta.

– Essa é a hora de namorar – afirma Amaury Mendes Jr., que coloca esse ensinamento em prática com a própria mulher.

Quem sabe é isso o que falta para a secretária de Amaury aumentar a nota de seu companheiro, Sandro.

ZERO HORA
Nem todas estão à beira de um ataque de nervos
Quem pesquisar na internet pode levar um susto. Há registros de que a TPM atinge até 95% das mulheres em idade fértil. Antes que homens e mulheres fiquem tensos, a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, professora da UFRGS e doutora em Climatério e Ginecologia Endocrinológica, esclarece: se perguntar às mulheres quem percebe alguma mudança antes da menstruação, 90% dirão que sim. Mas se a pergunta for se essas mudanças realmente afetam sua vida e seus relacionamentos, esse número deverá cair para cerca de 20%.

E não deverá passar de 3% no caso de transtorno disfórico pré-menstrual, uma espécie de TPM muito mais severa, que leva as mulheres a perder o senso crítico e fazer coisas que normalmente não fariam. Então, há uma grande massa de mulheres – e de homens, por tabela – que não convivem com os sintomas da TPM. Alcimir Cordeiro Richter, 57 anos, dono de uma grife de roupa para garotas, é um deles. Casado, pai de uma filha e chefe de 40 mulheres, ele afirma: – Assim como a celulite, não consigo perceber essa mudança de hábito.
Divulgação / 

Mulheres na tpm têm sido mais compreendidas por seus parceiros
Foto:  Divulgação


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