Com as férias de Sérgio Jockymann, então titular do Informe Especial na Zero Hora, em abril em de 1969, um jovem que vinha fazendo Porto Alegre rir com suas bem-humoradas dicas de programação cultural e gastronômica no Programinha, estreou como cronista e publicou seu primeiro texto. Comprovando que sua ligação com o Inter é histórica, Verissimo estreou como cronista no fim de semana em que o colorado jogaria seu primeiro Gre-Nal no Beira-Rio estalando de novo, e esse, óbvio, foi o assunto da primeira coluna, na qual o novato também se apresenta ao público leitor. Leia abaixo.
Pues, vamos nós. Luís com "esse" Fernando dos Veríssimos de Portugal e Cruz Alta. Admirador do Internacional em geral e do Ivo Correia Pires em particular, pró-Bráulio-no-time mas aberto ao diálogo. Credencias, muito poucas. Sei que estou entrando em campo para substituir um astro mas vamos suar a camiseta tentarei corresponder futebol é assim mesmo e no fim das coisas, que diabo, são onze contra onze. Um consôlo você tem; a coluna não caiu na mão de um inimigo. Estou dando um gol para domingo, jantar pago no
"Floresta Negra".
O Sérgio prêto substituiu Bráulio
com vantagem, eu substituo o
Sérgio branco com vontade, e só espero que o futuro seja para o meu jôgo como a defesa do Penharol em dia de bobeira. O Sérgio branco é senhor de "rushes" estilísticos, taquinhos verbais, parábolas por elevação e sentenças em curva. Eu me limitarei a um vaivém funcional e pessoal, trocando idéias laterais, com pouca profundidade e menos objetividade. E se algum dia eu começar a dar balõezinhos na beira da área será por pura falta de assunto. Uma coisa o Sérgio branco e eu teremos em comum; você, leitor, nosso atento Claudiomiro _ branco ou prêto, colorado ou não _ para as tabelinhas de todos os dias.
O desafio ali de cima é sério, estou apostando, mas se você notou um tremor nas entrelinhas, não o atribua à emoção do momento. Ele vêm da constatação, que todo o colorado consciente traz há dias camuflada na sua confiança, de que existe uma assustadora diferença entre o Grêmio que acabou com o mito húngaro e os 11 orientales patetas que nos alegraram o domingo. Moral por moral, estamos empate. Se é verdade que o estádio e a festa são nossos, não é menos verdade que estragar a nossa festa vale quase um estádio nôvo para eles. E de par com a constatação de que, em síntese, não vai ser mole não, vem outro temor oculto, que eu ouso trazer à tona para o nosso horror e ponderação. Chegam mais perto e vê se não é de dar frio na pleura: nós vamos de peito aberto, num deslavado e suicida quatro dois quatro, contra um time cautelosamente defensivo, como todos do Sérgio dêles. Certo, certo, faz-se a nossa sanfona,
Pontes vale por dois, todos sobem e todos descem, etc., etc. Mas eu ainda tremo e garanto que o Sérgio branco também está tremendo. Nossa esperança é que o o Sérgio prêto nos devolva a calma, se possível no primeiro minuto.
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Ivo Correia Pires
Dirigente colorado, parte do grupo de cartolas que colocaria o Inter no mapa do futebol nacional em fins dos anos 1960 e ao longo dos 1970. O próprio Verissimo os apelidaria de "Mandarins" _ entre outros, Pires, Cláudio Cabral, Ibsen Pinheiro, Paulo Portanova e Hugo Amorim.
Bráulio no time
Referência à grande polêmica futebolística do Inter à época, se havia lugar no novo time, amparado em critérios de força, rapidez e marcação, para o técnico e elegante Bráulio, o "garoto de ouro", considerado por alguns "muito lento" para o novo time que se desenhava.
Floresta Negra
Restaurante marco gastronômico de Porto Alegre nos anos 1970 e 1980, de propriedade de Fredolino Schirmer.
Sérgio preto
Referência a Sérgio Galocha, jogador nascido em Butiá e que esteve no Inter entre 1967 e 1972. Oriundo das categorias de base, encaixava-se melhor nos planos do Inter.
Sérgio branco
Sérgio Jockymann (1930 _ 2011), poeta, escritor, dramaturgo, roteirista e um dos maiores jornalistas do Rio Grande do Sul. Na época, o titular da coluna Informe Especial. Verissimo estreou no jornal cobrindo as férias do cronista.
O Grêmio que acabou com o mito húngaro
Referência à partida amistosa do Grêmio contra a seleção da Hungria, em 13 de abril de 1969, parte do torneio comemorativo de inauguração do Beira-Rio.
Os 11 orientales patetas que nos alegraram o domingo
No mesmo 13 de abril de 1969, também no torneio comemorativo de inauguração do Beira-Rio, o Inter goleou o uruguaio Peñarol por 4 a 0. Ironicamente, um dos "11 orientales patetas" em campo nessa partida era Elias Figueroa, que se tornaria anos mais tarde um dos maiores zagueiros do Inter, e amigo de Verissimo.
O estádio e a festa são nossos
No dia seguinte à publicação desta crônica, um domingo, Inter e Grêmio fariam o primeiro Gre-Nal do recém-construído Beira-Rio, como parte do torneio comemorativo.
Sérgio deles
O técnico do Grêmio no período, Sérgio Moacir Torres Nunes (1926 _ 2007), que havia começado a carreira no futebol como goleiro do próprio Grêmio, entre 1949 e 1956, e treinava o tricolor desde 1968.
Pontes vale por dois
Bibiano Pontes, zagueiro colorado _ continuador de uma tradição familiar, já que era irmão dos também zagueiros João e Daison Pontes, do Gaúcho de Passo Fundo, célebres na época por seu estilo ao mesmo vigoroso e brutal.
Se possível no primeiro minuto
O Gre-Nal terminou em 0 x 0, mas a calma passou longe da tensa partida, que terminou em monumental pancadaria entre jogadores e equipe técnica dos dois times, após uma entrada dura do colorado Urruzmendi no tricolor Espinosa.
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