As parceiras, de Lya Luft
Publicada em 1980 e leitura obrigatória pelo terceiro ano consecutivo, a obra trata do universo feminino, com foco em questões como matrimônio, sexualidade, solidão, insucesso e laços familiares. Para o professor Pedro Gonzaga, do Unificado, um aspecto fundamental para a compreensão do livro é lembrar que o relato de Anelise, composto ao longo de uma semana, é uma tentativa conjunta de autoanálise e de investigação das mulheres da família Von Sassen — o que começa com a avó
Catarina, passa pela geração de sua mãe, Norma, e de suas três tias, Beatriz, Dora e Sibila, e segue até a trajetória da própria personagem-narradora.
Boca de ouro, de Nelson Rodrigues
A obra é uma tragédia carioca, escrita em 1959 e dividida em três atos. Ela conta a história de um bicheiro de Madureira, conhecido como Boca de Ouro, que mandou substituir todos os dentes por próteses de ouro, símbolo da vitória sobre a origem miserável. O relato é feito sob a perspectiva de uma ex-amante, Dona Guigui. O professor Gonzaga salienta que é preciso ter em mente as três construções divergentes que Dona Guigui faz do bicheiro por meio dos estímulos do repórter Caveirinha.
— O papel da imprensa e o papel da psicologia na criação das memórias devem ser considerados pelos candidatos — ressaltou.
Coletânea de Fernando Pessoa
O professor Zilmar Silva, do Objetivo, delimita algumas linhas temáticas da poesia ortonímica – o contrário do heterônimo, diz respeito ao autor real:
– Nacionalismo-Sebastianista em Infante, O Padrão, Mar Português, Noite e Nevoeiro.
– Metalinguagem e temática do fingimento em Autopsicografia e Isto.
– Choque entre realidade e sonho em Não Sei se É Sonho, se Realidade e nos poemas V e VI de Chuva Oblíqua.
– A música como metáfora da brevidade, da melancolia e do sonho em Pobre Velha Música!, Qualquer Música e Ela Canta, Pobre Ceifeira.
– A crise do indivíduo com tendência a se multiplicar em Não Sei Quantas Almas Tenho e Viajar! Perder Países.
– A memória difusa de um futuro incerto em Natal... Na Província Neva.
– No poema Liberdade, percebe-se as projeções dos heterônimos Álvaro de Campos (pela liberdade inconsciente dos excessos) e de Alberto Caeiro (pela ironia por meio da lógica sem lógica da natureza).
Zilmar aconselha ainda que se fique atento ao possível diálogo entre o poema Mar Português, presente na obra nacionalista Mensagem, do modernista Fernando Pessoa, com o episódio do Velho de Restelo (Canto IV), de Os Lusíadas, do renascentista Luís Vaz de Camões, em um debate sobre expansionismo e conquistas ultramarinas. A esperança ufanista, em Pessoa, pode ser comparada à criticidade presente no episódio da obra camoniana.
Dançar tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco
São cobrados os seguintes contos: Dois Guaxos, Travessia, Noite de Matar um Homem, Guapear com Frangos, O Voo da Garça-Pequena, Sesmarias do Urutau Mugidor, A Língua do Cão Chinês, Idolatria, Outro Brinde para Alice, Guerras Greco-Pérsicas, Majestic Hotel, Não Chore, Papai, Café Paris, A Dama do Bar Nevada, Um Aceno na Garoa, No Tempo do Trio Los Panchos, Conto do Inverno e Dançar Tango em Porto Alegre.
O professor Marcos Bondan, do Universitário, destaca três pontos aos quais os candidatos devem ficar atentos:
— A vida rural da fronteira, em que as personagens se envolvem em paixões preservando valores de lealdade e coragem.
— A memória de uma infância e adolescência instigantes, de vivências de encantamento e frustração.
— A amargura de homens e mulheres do submundo urbano, velhos e desempregados que denunciam uma permanente relação de atrito com adversidade de sua história presente.
Contos de Murilo Rubião
A UFRGS selecionou os seguintes contos de Murilo Rubião para o vestibular: O Pirotécnico Zacarias, O Ex-Mágico da Taberna Minhota, Bárbara, A Cidade, Ofélia, Meu Cachimbo e o Mar, A Flor de Vidro, Os Dragões, Teleco, o Coelhinho, O Edifício, O Lodo, O Homem do Boné Cinzento e O Convidado. O professor Gonzaga reforça que são os únicos relatos de realismo fantástico na seleção da UFRGS. Para ele, os candidatos devem memorizar as pessoas dos narradores e os personagens principais dos contos, atentando para os eventos sobrenaturais ou inexplicáveis que lhes ocorrem.
O amor de Pedro por João, de Tabajara Ruas
Lançada em 1982, a obra foi incluída na lista em 2014, ano em que o golpe de 1964 completou 50 anos, já que trata da ditadura militar. Foi cobrada no vestibular de 2015. O professor Bondan salienta que o livro utiliza o cenário dos regimes autoritários no Brasil e no Chile como pano de fundo para a história de militantes, cujas trajetórias foram interrompidas pelo exílio.
Assim, capítulos que se iniciam no Chile de 1973 – quando o presidente socialista Salvador Allende foi deposto por um golpe militar liderado por Augusto Pinochet – são sucedidos por outros ambientados no Brasil sangrento de 1971.
Terras do Sem Fim, de Jorge Amado
Publicado em 1943, o romance descreve conflitos da conquista de pedaços de terra nas florestas da Bahia. De acordo com o professor Bondan, a história gira em torno
de uma sangrenta disputa entre duas forças — a família Badaró e o latifundiário Horácio da Silveira — pelas terras de Sequeiro Grande, para expandir suas plantações de cacau.
Há intrigas políticas, tocaias, adultério e muitas reviravoltas.
— O amor de Jorge Amado à terra do cacau evidencia-se nesta obra, que mescla lirismo poético com denúncia social — diz Bondan.
O cortiço, de Aluísio Azevedo
Lançada em 1890, a obra naturalista expõe o processo de urbanização da sociedade brasileira em um período pré-republicano. O professor de literatura Zilmar Silva, do Objetivo, detalha que o capitalismo primitivo está representado em João Romão, comerciante que ascende ao mesclar sacrifício pessoal, roubo (desvia o dinheiro da negra Bertoleza) e reinvestimento.
– A narrativa em 3ª pessoa, o emprego de sinestesias, a forte presença do Determinismo, bem como a animalização dos homens, zoomorfismo, e humanização do espaço, antropomorfismo, são marcas estruturais da obra – destaca.
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Obra realista, retrata o drama de Bento, em sua resolução de reconstruir sua vida a partir do fracasso de seu casamento com Capitu. Segundo o professor Zilmar, entre os aspectos estruturais que podem ser cobrados, estão o forte psicologismo, a ironia e o diálogo com o leitor. Fique atento ao foco narrativo, em 1ª pessoa. É importante relacionar a derrocada do patriarcalismo urbano do Brasil pós-republicano do século 19 com a decadência do patriarcado rural da Era Vargas. Releia o capítulo 10, em que Bento, ao aceitar a teoria de Marcolini que compara a vida a uma ópera, sintetiza seu drama ao distinguir verossimilhança e verdade.
Sermões do Padre Antônio Vieira
William Moreno Boenavides, professor do Anglo, explica que os três textos selecionados, Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, Sermão da Sexagésima e o Sermão de Santo Antônio aos Peixes dialogam diretamente com seus contextos políticos imediatos:
– A seleção da UFRGS privilegiou a dimensão de intervenção de Vieira, mais político do que religioso, conforme expressão da própria prova há alguns anos. Por isso, o professor aposta que seja muito importante conhecer as especificidades históricas de cada um desses textos.
Tropicalia ou panis et circensis
Para o professor William, têm sido marcantes na prova as questões sobre os inúmeros referenciais culturais e políticos associados ao disco, lançado em meados de 1968, alguns meses antes da instauração do AI-5.
– Saber identificar e refletir sobre as influências estéticas marcantes no disco, desde as vanguardas europeias, até o Cinema Novo, passando pela antropofagia oswaldiana e pelo concretismo, bem como pelas montagens de Hélio Oiticica pode ser determinante para a resolução das questões – indica.
A noite das mulheres cantoras, de Lídia Jorge
Lançada em 2011, a história se passa em Portugal, nos anos 1980, e trata da busca por sucesso de um grupo de cinco cantoras. Elas cantam com o intuito de conquistar a admiração dos ouvintes mais do que com a vontade de difundir uma mensagem pelas canções. Tudo pelo estrelato. O professor William lembra que Lídia Jorge já tratou do tema dos "retornados" da África – portugueses africanos que tiveram de migrar de volta para Portugal – e a precária situação que se instala por isso em outras obras. O preconceito, o abandono, a falta de condições destes retornados aparecem nesses livros.