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Enquanto bebia Coca-Cola light e comia pastéis de queijo, a deputada federal Manuela D’Ávila (PC do B) fez um balanço da eleição de domingo. Às 11h51min de ontem, entrou em um dos seus lugares preferidos, uma cafeteria na esquina das Ruas Lima e Silva e Otávio Correa, em frente ao seu escritório político, na Cidade Baixa, para dar uma entrevista após o silêncio de segunda-feira. Manuela não irá a Brasília esta semana. Quer descansar em Porto Alegre, e deve ficar longe do assédio de adversários.
A deputada conversou com Zero Hora por uma hora ontem. A seguir, a síntese:
Zero Hora – Como é viver a primeira derrota nas urnas?
Manuela D’Ávila – Quem tem 27 anos e faz política há 10, já teve outras derrotas. Perdi muitas eleições na minha vida por diferentes motivos. Quando a gente vive a política, a gente aprende a ganhar, a perder, a rir e chorar. O que faz a diferença é como se ganha e como se perde. Eu perco de consciência
tranqüila e feliz com o que eu consegui ajudar a
produzir. Produzimos uma aliança nova que rompeu um espectro político construído sempre em torno de dois projetos, o a favor e o anti. Assim, funciona um computador. A vida não funciona assim.
ZH – Dói ser derrotada?
Manuela – Ninguém que disputa para ganhar não sente dor quando perde. O sujeito que não estuda para o vestibular e roda não sente dor. Quem estuda e roda sente dor.
ZH – O que fez entre a madrugada de domingo e hoje (ontem) pela manhã?
Manuela– Saí do comitê e fui ao aeroporto buscar o meu namorado (deputado federal José Eduardo Cardozo, do PT paulista). Dormi. Falei com o Juliano (Corbellini, cientista político), com o Berfran (vice) e com o Beto (Albuquerque).
ZH – Chorou?
Manuela – Não choro muito. Tenho uma concentração grande e sei que não tinha o direito de chorar na frente dos meus
militantes. Não era justo com as pessoas que construíram junto comigo isso. Não quer dizer que não tivesse vontade
de chorar. Não sou fria.
ZH – O que o seu namorado (o deputado federal José Eduardo Cardozo, PT-SP) lhe disse?
Manuela – Ele estava aqui como meu namorado. Disse que estava com saudade de mim. Não confundimos a nossa vida privada com a política. Não tratamos da relação com o PT. Ele viu a gravação da minha entrevista coletiva e gostou muito.
ZH – O resultado surpreendeu?
Manuela – Na reta final, achava muito difícil irmos para o segundo turno porque disputamos contra duas estruturas grandes, partidos tradicionais, com um campo político novo. Jurei para mim mesma que nunca faria isso na política: achar que o povo só acerta quando gosta e vota em mim. Sei que o povo de Porto Alegre gosta de mim e me respeita. Isso é um orgulho. Esta cidade não escolhe qualquer um para abraçar e dar 15% dos votos. O povo tem as suas razões e não me escolheu. Ninguém é obrigado a gostar de
mim.
ZH – Em que momento sentiu a derrota?
Manuela
– Não há um fato marcante. A gente vai apurando a sensibilidade. Fui sentindo. Não teria como achar isso a partir do afeto da população por mim, por gostar das minhas idéias e o que representei.
ZH – O que responderia a quem diz que o passo foi maior do que a perna?
Manuela – Digo que fiz 15% dos votos em Porto Alegre. Não é porque não fui ao segundo turno que deixei de acreditar que tenho condições de ser prefeita.
ZH – Se arrepende de alguma coisa?
Manuela – Hoje (ontem), não. Passou apenas um dia. Talvez ainda não tenha pensado em tudo.
ZH – Está mais próxima do PPS ou do PT?
Manuela– São relações distintas. Hoje, estou mais próxima de quem estive há dois dias. Não era pragmatismo, era uma aliança sólida. Mas tenho proximidade grande com o PT. Não mudou a minha relação com o PT nacional, que
é um PT aliancista e desenvolvimentista.
ZH – Como está a sua relação com o PT gaúcho?
Manuela – Partido é direção e não indivíduo. Não tive a oportunidade de conversar com a direção do partido para ver se a relação continua igual. Creio que sim porque eles devem ter um respeito grande pelo PC do B, que tem 86 anos e fez 15% dos votos.
ZH – O que sentiu ao ser chamada de “filhinha de papai” por Maria do Rosário (PT)?
Manuela – Sei que não sou. Na adolescência, fui chamada de gorda e elefanta. As pessoas têm o direito de errar. Sou filha de professor de universidade federal. Não haveria como financeiramente. O chapéu não me serve.
ZH – A senhora se ofendeu com o senador Pedro Simon (PMDB), que insinuou que o eleitor não se engane com aparência?
Manuela – Cada pessoa pública emite as opiniões que considera corretas. Não quer dizer que esteja certo.
ZH – Atenderá ligações de Fogaça e
Rosário?
Manuela - Vou descansar nos próximos dias. Já dei a minha opinião ao meu partido. Já conversei com
a direção e com meus aliados. Ontem (segunda-feira), tinha um recado de Rosário no meu celular às 15h30min. O celular estava no silencioso. Na segunda-feira, estarei de volta. É natural descansar. O que ocorreu com meu telefone não tem relação com a política. Qualquer ser humano que quer descansar põe o celular no silencioso. Não sou presidente do PC do B. Não atendi o telefone para a minha mãe.
ZH – Conseguirá subir no palanque de Maria do Rosário ou de José Fogaça?
Manuela – Sou mulher de partido. Não faço política com o estômago.
ZH – Como cidadã, votará em Rosário ou Fogaça?
Manuela– Votarei conforme a orientação do meu partido.
ZH – A senhora guarda mágoa de Rosário ou Fogaça?
Manuela – Não conseguiria sorrir tanto se fosse alguém que carrega mágoas. Todos aprendemos com os erros.
marciele.brum@zerohora.com.br
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