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18 de maio de 2008 | N° 15605AlertaVoltar para a edição de hoje

Um olhar sobre a catástrofe chinesa

A enviada da RBS relata o drama testemunhado na região atingida pelo terremoto

Estava na China na segunda-feira trágica do terremoto e não senti absolutamente nada em Yangshuo, 70 quilômetros ao sul de Guilin e a cerca de 850 quilômetros do epicentro. Seis dias depois, tendo viajado até a província de Sichuan, onde ocorreu o abalo, e observado de perto a destruição, a comoção e a solidariedade, posso dizer que senti muito do terremoto, que - além de um tremor de 7,8 graus na escala Richter - significa...

Não ter coragem de voltar para casa, para quem mora em Chengdu e sentiu o forte tremor no alto de um edifício e viu estantes, louças, livros, copos de água e outros objetos e móveis tremendo e caindo. A lembrança do tremor - e o medo de que possa acontecer novamente - colocou a população da capital da província de Sichuan em pânico. Até hoje, moradores passam a noite na rua, dentro de carros ou sob lonas, barracas e guarda-sóis. Ou procuram abrigo em casas de amigos, escolas, andares térreos de universidades, quaisquer lugares onde se sintam quase seguros. Na cidade, poucos foram os prédios que sofreram danos, mas o temor irracional impede as vítimas de retornar à antiga vida.

- Sei que nada vai acontecer, mas não consigo - disse um chinês apelidado de Jerry em uma praça da capital, sob um guarda-sol, na terceira noite após o terremoto.

Não ter casa para voltar, no caso de quem teve sua moradia destruída ou parcialmente danificada, nas localidades mais atingidas, como Dujiangyan. A calçada se transformou no novo lar de milhares de chineses, que, sob tendas e recebendo água e alimentos do governo (oriundos muitas vezes de doações), não têm perspectiva de sair da rua. Os desabrigados perderam sua história, mas já reconstroem outra a partir de uma nova realidade, com algumas atividades que provavelmente já eram comuns antes: ler, fumar, brigar, conversar e, principalmente, esperar.

- Ficaremos aqui até quando for necessário - disse um pai de família em frente à casa de adobe destruída.


Veja quais foram as regiões mais atingidas pelo terremoto


Perder familiares soterrados e não saber onde eles estão, para aqueles que esperaram (ou ainda esperam) os trabalhos de resgate nos locais destruídos pelo tremor. Ou para aqueles que percorrem hospitais e procuram nomes em listas afixadas nas paredes, com a expectativa de que seus parentes tenham sidos salvos. As reações das vítimas da perda podem passar pela apatia de quem se conforma com a fatalidade até pela indignação de quem esperou pelo socorro que chegou tarde ou não veio.

Trabalhar para salvar vidas, no caso dos integrantes das forças armadas e da polícia. Eles buscam intensamente corpos nos escombros, transportam mantimentos e esperança às áreas devastadas, muitas vezes em regiões de difícil ou sem acesso por estradas. Na maioria muito jovens, nem sempre têm a dimensão da importância do que fazem ou da tragédia que vivenciam. Médicos e enfermeiros também fazem parte deste batalhão, que ajuda a manter vivos os feridos resgatados.

Ser a fonte de confiança do povo de que a vida voltará ao normal, as vítimas serão salvas, as casas serão reconstruídas e o tremor será apagado da memória. Para representar a força que a população espera, o primeiro-ministro Wen Jiabao fez visitas às vítimas das localidades destruídas e exibiu as imagens incansavelmente na TV pública, intercaladas com as cenas épicas dos resgates, em que os policiais militares aparecem como grandes heróis.

Ser solidário, para todos os que não foram fortemente atingidos e se transformaram em um segundo exército capaz de amenizar a dor e preservar pelo menos as necessidades vitais dos sobreviventes desabrigados, feridos ou traumatizados pela amplitude da tragédia. As ações espontâneas e organizadas são das mais variadas: doações, trabalho nas áreas de resgate, hospitais, estradas e promoção de eventos com fundo beneficente.

Morrer.

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