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17 de março de 2008 | N° 15543AlertaVoltar para a edição de hoje

Fernanda Takai e seu barquinho japonês

Se você quiser ser uma cantora brasileira de sucesso, procure se enquadrar em dois modelos básicos. No primeiro, mostre as coxas, tenha voz grave e possante e mande o público tirar o pezinho do chão. No segundo, use calça comprida, tenha voz possante e grave e seduza multidões com canções que investem forte na sensualidade. Fernanda Takai acaba de inventar uma terceira via.

O novo modelo foi apresentado aos gaúchos na sexta-feira à noite, no palco do Teatro Bourbon Country, quando a cantora lançou o CD Onde Brilhem os Olhos Seus. A previsão era de que o show se limitaria às releituras que ela fez de sucessos de Nara Leão, mas o que se viu e ouviu foi uma sucessão de ótimas surpresas.

Se o repertório original do disco já era afinado com a independência estética de Nara, enfileirando o samba Ta-hi com a balada Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, a sofisticada Insensatez com a tropicalista Lindonéia, e o chorinho Odeon com a risonha Trevo de Quatro Folhas, Fernanda avançou mais ainda. Com os olhos brilhando, lembrou Ben (sucesso de Michael Jackson), Esconda o Seu Pranto (composição de Evaldo Braga, ídolo brega dos anos 70) e There Must Be an Angel (clássico dancing dos Eurythmics). Numa prova de irreverência, brincou com palavras e estilos e engatou Ordinary World, do Duran Duran, depois de Estrada do Sol, de Dolores Duran e Tom Jobim.

O novo modelo ficou mais claro quando Takai surpreendeu o público com O Divã, lançada em 1972 por Roberto Carlos, única canção em que o Rei alude ao acidente que o mutilou na infância. Da mesma maneira como a inspiradora Nara Leão, Fernanda não foi em busca de fórmulas prontas e submeteu O Divã a seu estilo, reinventou, surpreendeu. Com a parceria do marido e companheiro de Pato Fu, John Ulhoa, Fernanda parece empenhada em abrir uma vereda entre o rock pop e a MPB. E não está se contentando em vestir a MPB com roupas moderninhas - a ambição é criar um novo figurino (uma busca que deverá marcar também o primeiro CD solo de Marcelo Camelo). Por tudo isso, nada mais natural do que fechar o show cantando O Barquinho... em japonês.

( renato.mendonca@zerohora.com.br )

RENATO MENDONÇA
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