clicRBS

Buscar

">ZERO HORA.com

none
  •  | 
  • imprimir
  •  | 
  •  | 
  • letra A - | A +
26 de fevereiro de 2008 | N° 15522AlertaVoltar para a edição de hoje

O Centrinho de Atlântida, por Tailor Diniz*

Semana passada, aqui em ZH, a jornalista Marta Gleich e o escritor Moacyr Scliar abordaram dois assuntos de educação e cultura que merecem atenção. Scliar escreveu sobre a colocação de banheiros químicos na praia de Atlântida e sua importância para a saúde pública. Marta Gleich nos falou da decepção de seus filhos, ao voltarem de um passeio aos Estados Unidos, com o desrespeito a regras que impera no Brasil.

Do artigo de Scliar concluímos que o poder público, bem ou mal, eventualmente faz a sua parte. Marta nos adverte sobre o caráter de um povo sem a consciência de que pequenos gestos individuais fazem um todo melhor. Nada nos garante, portanto, que mesmo com banheiros disponíveis na praia não haverá aquele contingente de banhistas que, por estarem mais próximos do mar, optarão por entrar na água para "se aliviar", usando a expressão do próprio Scliar. Às vezes, não basta a ação do poder público para chegarmos à sociedade dos nossos sonhos, civilizada nas suas relações políticas e sociais.

Na companhia dos filhos, neste verão e no anterior, passei alguns dias em Atlântida, alojado em um apartamento de frente para o chamado Centrinho, local onde, todas as noites, jovens e adolescentes se reúnem para se divertir. Ali, a cada 20 passos há uma lixeira. Ao amanhecer, no entanto, o ambiente que se vê é de verdadeira desolação. Copos plásticos, latas, cacos de garrafa e sujeira de toda ordem se espalham de ponta a ponta da praça, como se por ali tivesse passado um bando de bárbaros. Gesto comum é esvaziar uma garrafa e quebrá-la logo a seguir no gramado ou nas canchas de minigolfe, que, durante o dia e início da noite, têm as crianças como seus mais assíduos freqüentadores. Não vamos cair aqui na perfídia da generalização, pois não são todos os que se comportam dessa maneira. É verdade, porém, que o Centrinho de Atlântida é freqüentado por jovens oriundos das classes média e média alta do RS.

O comportamento dos freqüentadores do Centrinho de Atlântida faz pensar na polêmica que se instalou no Estado por conta do trabalho que cientistas gaúchos pretendem realizar entre jovens delinqüentes da Fase, com o intuito de saber se a violência seria conseqüência de alguma possível alteração biológica do organismo. As boas discussões desencadeadas pela pesquisa, por si só, já contribuem para atestar o seu valor.

Entendo, no entanto, que não seria insensatez fazer estudo semelhante com esses jovens bem-nascidos, bem nutridos, que freqüentam os melhores colégios particulares da Capital, usaram fraldas descartáveis desde que deixaram o ventre materno, ouvem músicas em i-pods de última geração, ostentam roupas de grife da cabeça aos pés, mas se comportam de forma tão lamentavelmente torpe. O que eles fazem no Centrinho de Atlântida, em especial nos fins de semana e em dias de grandes eventos, é algo, no mínimo, muito próximo da delinqüência pura.

*Jornalista e escritor

  •  | 
  • imprimir
  •  | 
  •  | 
  • letra A - | A +

Grupo RBSDúvidas Frequentes | Fale conosco | Anuncie - © 2000-2007 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.