DILMA ROUSSEFF
1992
Presidente da FEE
Dona de um perfil técnico e com experiências anteriores na Secretaria da Fazenda de Porto Alegre e na diretoria da Câmara da Capital, a economista assumiu a Fundação de Economia e Estatística no início do governo Alceu Collares, em 1991. Ela integrava os quadros do PDT, que, às vésperas da votação na Câmara, defendia o impeachment de Collor.
2016
Presidente da República
Para evitar o afastamento, Dilma abandonou o estilo de evitar discursos e resolveu transformar o palanque em front. Em pronunciamentos quase diários, costuma relembrar seu perfil de "guerreira" – a presidente chegou a ser torturada na luta contra a ditadura militar, nos anos 1960 e 1970. Essa estratégia abre espaço para que ela repita que "não vai ter golpe", o bordão que virou o mantra petista na batalha contra o impeachment.
FERNANDO COLLOR
1992
Presidente (PRN-AL)
Acuado pela pressão popular, o presidente adotou a discrição nos dias anteriores ao impeachment. Em eventos públicos, vestido de preto em protesto pelo "golpe", evitava falar sobre o processo – o porta-voz Etevaldo Dias é quem se encarregava dos pronunciamentos diários com a imprensa. Isolado no mundo político, ele próprio assumiu as negociações com possíveis aliados, recebendo até duas dezenas de parlamentares por noite no gabinete. A estratégia não vingou. Depois de somar só 38 votos na Câmara, desistiu de fazer um pronunciamento sobre a derrota, evitou questionar o processo na Justiça e até criou uma comissão para fazer a transição com Itamar Franco.
2016
Senador (PTC-AL)
Depois de o PTB anunciar o desembarque do governo Dilma, o senador anunciou a saída do partido e a filiação ao PTC (que sucedeu o PRN, sigla com a qual se elegeu em 1989). Em entrevistas nos últimos meses, criticou a presidente, mas garantiu não torcer pelo afastamento.
– Talvez em função de um desejo íntimo meu: que não ocorra com nenhum presidente o que ocorreu comigo – justificou o senador, que, a exemplo de 1992, voltou a ser alvo de suspeitas de corrupção.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
1992
Presidente do PT
Derrotado nas eleições de 1989, Lula foi um dos principais negociadores políticos contra Collor. A posição lhe rendia prestígio: distribuía autógrafos, recebia entusiasmados aplausos em manifestações, sofria assédio de partidos como PMDB e do PSDB. Sentou com Fernando Henrique Cardoso, Orestes Quércia e Ciro Gomes nas articulações para um pacto pró-Itamar, mas se negou a aceitar que o PT integrasse o novo governo. Ao descer do avião para acompanhar a votação do impeachment, não escondeu a satisfação:
– Não podia deixar de vir depois de lutar tanto. Seria como faltar ao casamento de uma filha.
2016
Ex-presidente (PT-SP)
Lula comanda a articulação política para tentar salvar a sucessora. Para ganhar força nas negociações, tentou assumir a Casa Civil. Não deu certo. A Justiça barrou a posse, por suspeita de que a manobra buscava transferir o processo da Lava-Jato contra ele para o STF e reduzir o risco de prisão. Costuma atacar aqueles com quem se aliou no impeachment de Collor, como Fernando Henrique Cardoso.
– Vou passar para a história como o presidente que mais fez universidades nesse país. Isso incomoda. Como pode esse peão analfabeto ter mais título de doutor honoris causa que o sociólogo?
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
1992
Senador (PSDB-SP)
Nos finais de semanas anteriores à votação do impeachment, a casa do senador virou o QG da oposição. Integrantes do PMDB, PSDB, PT, PTB e outros partidos se reuniam ali para discutir a estratégia para derrubar Collor, o pacto pró-Itamar e a divisão de cargos do futuro governo. A exemplo do senador Pedro Simon, FHC era um dos interlocutores mais próximos do vice-presidente.
2016
Ex-presidente
(PSDB-SP)
Longe de cargos públicos desde que passou a faixa presidencial para Lula, o ex-presidente ainda tem influência no ninho tucano e tenta manter o PSDB em torno de uma mesma causa. Depois de hesitar por meses, FHC passou, nas últimas semanas, a fazer a defesa de que o PSDB caminhe "unido" pelo impeachment.
– Diante da incapacidade do governo de governar, de flagrantes abusos que ferem a nossa Constituição praticados reiteradamente por aqueles que detêm o poder, infelizmente, não resta outro caminho senão marcharmos para o impeachment. Não tem nada a ver com golpe, é um remédio constitucional.
MICHEL TEMER
1992
Procurador-geral
de São Paulo
Temer havia se licenciado da Câmara para assumir o cargo no governo de Orestes Quércia no Estado de São Paulo, mas não se furtou a analisar o impeachment de Collor. Professor constitucionalista, o procurador-geral escreveu um artigo para a Folha de S.Paulo em que defendeu o impeachment como um julgamento político.
"A pergunta que o parlamentar votante se faz quando vota é: convém ou não convém que o acusado continue a governar?", argumentou.
2016
Vice-presidente
(PMDB-SP)
Depois de uma atuação periférica em 1992, Temer ocupa uma posição central no debate sobre o processo que tenta afastar Dilma do Planalto. Há menos de duas semanas, o vice-presidente chegou a ouvir de Lula a acusação de que, sendo professor de Direito, sabe que "estão fazendo um golpe" ao tentar chegar ao poder derrubando "um mandato legal". A assessoria do peemedebista respondeu: "Justamente por ser professor de direito constitucional, Michel Temer tem ciência de que não há golpe em curso no Brasil".
EDUARDO CUNHA
1992
Presidente da Telerj (PRN-RJ)
Tesoureiro da campanha de Collor no Rio de Janeiro, em 1989, o economista assumiu o comando da empresa em 1991. A ascensão de Cunha (na foto, em 1997) se explica graças ao aumento do poder de influência do empresário Paulo Cesar Farias, segundo relatório da CPI que apurou a corrupção no Planalto. Cinco meses depois do impeachment, o economista deixou a Telerj, mas voltou a ser citado em um relatório da Polícia Federal em 1996. O documento o colocou como uma das autoridades que tiveram as despesas pagas por PC em Brasília com dinheiro de um esquema cujo maior financiador seria a Odebrecht.
A suspeita não prosperou.
2016
Presidente da Câmara dos Deputados
(PMDB-RJ)
O peemedebista trava uma guerra contra o governo desde o ano passado, quando o Planalto tentou evitar que assumisse o comando da Casa. Responde a três processos no STF, um deles por suspeita de receber US$ 5 milhões de propina no esquema de corrupção na Petrobras. Suspeito de ter mentido sobre contas na Suíça, virou alvo do Conselho de Ética da Casa, num processo que tramita em marcha lenta graças a manobras de aliados. As acusações levam a base governista a questionar a legitimidade de Cunha na condução do impeachment.
RENAN CALHEIROS
1992
Ex-deputado federal
Assessor do PRN na campanha de 1989, Calheiros ganhou a liderança do governo assim que o presidente recém-eleito subiu a rampa do Planalto. A amizade, que parecia próspera até a metade de 1990, terminou em briga. Ao perder a disputa do comando de Alagoas, o deputado tentou convencer o governo federal de que o adversário havia fraudado as eleições. Collor negou apoio – o alvo era Geraldo Bulhões, outro amigo do presidente.
Calheiros se entrincheirou na oposição, confirmou corrupção no Planalto em depoimento na CPI e celebrou com entusiasmo a derrota do ex-amigo.
– Era isso que o povo queria. À medida que o tempo vai passando o povo vai percebendo a podridão no governo.
2016
Presidente do Senado (PMDB)
Visto como um dos principais aliados peemedebistas do Planalto, Calheiros tem adotado uma postura dúbia. Na véspera do anúncio da saída do PMDB do governo, na porta de casa, com um sorriso no rosto, ofereceu um aperto de mão a Temer – gesto flagrado por fotógrafos e interpretado como um sinal da união do partido. Engano. Calheiros não só se ausentou do encontro como mostrou desconforto com a possibilidade de o afastamento de Dilma parar em sua mesa.
– Espero que o impeachment não chegue ao Senado – afirmou o senador, que, dias depois, mostrou simpatia pela ideia de realizar eleições gerais como solução para a crise política.
JOSÉ SERRA
1992
Deputado federal (PSDB-SP)
Um dos líderes pró-impeachment, o deputado desencadeou uma operação para diminuir a ausência dos parlamentares na votação. Disparou telegramas para colegas que disputavam as eleições municipais, que ocorreram quatro dias depois da sessão histórica. No telefone, mostrava-se ainda mais duro:
– A única justificativa aceita seria o atestado de óbito.
Prestigiado pelos tucanos, o parlamentar chegou a ser o favorito para o Ministério da Economia assim que Itamar Franco assumisse a Presidência, mas foi barrado pelo governador Orestes Quercia (PMDB-SP).
2016
Senador (PSDB-SP)
Um dos tucanos mais próximos do vice-presidente, Serra concedeu uma entrevista em que expôs o pacto costurado entre PSDB e PMDB para um eventual governo Temer. Interessado no Ministério da Saúde, ele garantiu que o partido "será chamado" a integrar a nova gestão e "terá obrigação de participar". Por falar mais do que devia, levou um puxão de orelha público do peemedebista. "Michel Temer não tem porta voz, não discute cenários políticos para futuro governo e não delegou a ninguém anúncio de decisões sobre sua vida pública", respondeu.
AÉCIO NEVES
1992
Deputado federal (PSDB-MG)
Em campanha para a prefeitura de Belo Horizonte, o deputado em segundo mandato teve uma atuação apagada na reta final do processo de impeachment. Mas não deixou de discursar no plenário e votar contra Collor:
– Trata-se de virar uma página da nossa história. Hoje, esperamos que a dignidade, a decência e conceitos éticos fundamentais possam ser preponderantes no momento de o cidadão definir seus representantes e seu voto.
2016
Senador (PSDB-MG)
Desde os primeiros meses de mandato, Aécio exigiu a saída de Dilma. Mas nem sempre foi simpático ao impeachment. Segundo colocado numa das mais apertadas disputas pelo comando do país, ele preferia a cassação da chapa Dilma-Temer por irregularidades na campanha de 2014. Com a demora da decisão dos tribunais, resolveu aderir ao coro do afastamento da presidente via Congresso. No ataque à petista, repete palavras do discurso de 1992:
– A política do PSDB será uníssona, clara e dura em favor da virada dessa página triste da história do Brasil que o PT ajudou a escrever.
PAULO MALUF
1992
Candidato a prefeito (PDS-SP)
Com a vitória no primeiro turno encaminhada em São Paulo, Maluf viajou a Brasília às vésperas da votação do impeachment na Câmara com a intenção de vigiar a bancada do PDS. Preocupava-se com a possibilidade de os integrantes do partido serem seduzidos por cargos oferecidos pelo Planalto:
– Quem não votar a favor (do impeachment) é por fisiologismo, é porque recebeu uma vantagem.
2016
Deputado federal (PP-SP)
Integrante da Comissão do Impeachment, o parlamentar do PP votou pelo afastamento da presidente. A exemplo de 1992, deu declarações em que se mostrava incomodado com a troca de votos por vagas no governo:
– O presidente do meu partido pode vender a legenda, mas eu agora voto a favor do impeachment para mostrar a meus eleitores que sou independente e não me vendo.
LINDBERGH FARIAS
1992
Presidente da UNE
Com 22 anos, o estudante de Direito presidia a UNE, que botou, nas ruas pelo país, um dos símbolos mais eloquentes pelo impeachment de 1992: os caras-pintada. Defendia a queda do presidente, qualquer que fosse a maneira.
– Se Collor não sair por causa do impeachment, ele terá que cair de outra forma. Collor não tem dignidade para representar o Brasil no Exterior, nem moral para governar o país.
2016
Senador (PT-RJ)
Alvo da Operação Lava-Jato, considera o impeachment como "um acordão de cúpula" para abafar as investigações contra a corrupção. Também considera o processo uma tentativa para retirar os direitos que os pobres conquistaram desde 2002, com a chegada do PT ao Planalto. É um discurso semelhante ao de Lula, de quem ouviu um conselho em telefonema gravado pela Polícia Federal:
– É ir pro cacete, querido. Não tem mais jeito.
GILMAR MENDES
1992
Chefe da Assessoria Jurídica da Presidência
Jovem jurista de 36 anos, Mendes já defendia suas posições com veemência, o que não bastou para evitar a derrota de Collor. No julgamento do Supremo que definiu o voto aberto na votação do impeachment na Câmara, usou um telefone celular (que custava entre R$ 7 mil e R$ 30 mil, em valores atualizados) para informar a perda da batalha por oito votos a um. Revoltado, o jurista classificou o caso como um "processo de exceção que o STF legitimou".
2016
Ministro do STF
Indicado por FHC, um dos artífices do impeachment contra Collor, assumiu em 2002 uma cadeira no tribunal que criticara em 1992, mas jamais deixou de lado a vocação pela polêmica. Nas últimas semanas, barrou a posse de Lula na Casa Civil, ironizou a decisão do colega Marco Aurélio Mello sobre o impeachment de Temer e precisou se defender dos ataques de petistas, que o acusaram de "conspiração" ao promover um seminário em Lisboa sobre a crise política brasileira.
JOSÉ SARNEY
1992
Senador (PMDB-AP)
Sarney preferiu atuar nos bastidores pela queda de seu sucessor na Presidência, mas colocou a família na linha de frente. Com a planilha nas mãos, a deputada Roseana Sarney (PFL-MA) comandava a comissão pró-impeachment (ou "Sindicato do Golpe", nas palavras de aliados de Collor) e fazia o controle diário da tendência de votos. Já Sarney Filho (PFL-MA) ficou responsável pela "Esquadrilha do Impeachment", que arrumou seis jatinhos para buscar os deputados em suas bases eleitorais e evitar as ausências no dia da votação da Câmara.
– Estamos vivendo um momento singular na História do país. Forças políticas antagônicas se unem para salvar o Brasil – saudou.
2016
Ex-presidente do Senado (PMDB-AP)
O ex-presidente chegou a criticar o impeachment em março, mas, nos últimos dias, garante que saiu das discussões. Jornalistas políticos, porém, detectaram que a família passou a atuar contra Dilma. Segundo o repórter Gerson Camarotti, a insatisfação surgiu depois de o Planalto tentar cooptar aliados históricos dos Sarney no Maranhão, agora sob influência do governador Flávio Dino (PCdoB-MA).
ROBERTO JEFFERSON
1992
Deputado federal (PTB-RJ)
Integrante da "tropa de choque" de Collor, tornou-se um dos mais leais defensores do presidente no Congresso. Para tentar reverter a derrota, apelou para a oferta de vagas na Esplanada dos Ministérios.
– Os cargos que hoje estão ocupados pelo PMDB e PSDB vão ser de aliados do governo – avisou a quatro dias da votação.
Nos últimos dias de duras negociações, tomava comprimidos de Valium contra a tensão e Lexotan contra a insônia.
2016
Presidente nacional
do PTB
Depois de cumprir 15 meses de prisão em regime fechado e outros 10 meses em regime aberto após ser condenado no mensalão, Jefferson obteve o perdão da pena em março. Não esperou 10 dias para voltar à carga contra um inimigo no episódio do impeachment de Collor que se tornou um aliado nos primeiros anos do governo petista.
– Cunha é o bandido que mais gosto. Lula nunca esperou encontrar o bandido da mesma qualidade moral, intelectual que ele – ironizou o petebista, que reassume a liderança do PTB nesta semana.
CIRO GOMES
1992
Governador do Ceará (PSDB)
Antes mesmo da votação do impeachment, o então tucano participou das articulações para a formação de um pacto pró-Itamar Franco – governo do qual seria ministro da Fazenda dois anos depois. Duro nas críticas ao presidente, às vésperas da sessão histórica da Câmara, vaticinou:
– Se Collor vencer, não lhe restará poder nem para botar nome em rua.
2016
Pré-candidato à Presidência (PDT)
Com a bandeira de que "impeachment é golpe" em punhos, o pedetista se tornou alvo de um grupo anti-Dilma. Em um protesto em frente à casa do irmão, o ex-governador Cid Gomes, Ciro se exasperou, empilhou palavrões e enfrentou manifestantes:
– Seu frouxo! Fascista! Democracia é respeitar a casa alheia, rapaz!
Dias depois, movimentos souberam que o ex-ministro jantava em um restaurante em São Paulo e ofereceram R$ 1 mil para quem o hostilizasse.