Mulheres na linha de frente

Mulheres na linha de frente

Elas estão na indústria, no comércio, nas universidades, no esporte, nas artes, na política — embora em menor número — e nos lares. Talvez por isso, a ausência de mulheres no ministério do presidente em exercício Michel Temer (PMDB) tenha causado estranheza e até certo desconforto. Uma nota publicada em um jornal de Brasília por um colunista social, em resposta às críticas à composição masculina do governo, afirmando que a primeira-dama Marcela Temer já representava "muito bem o charme e a elegância da mulher brasileira", provocou alvoroço maior ainda. Marcela já havia sido alvo de polêmica ao ser retratada pela revista Veja como "bela, recatada e do lar", expressão que viralizou nas redes sociais.

Entre as justificativas para um governo predominantemente masculino está a de que os partidos não indicaram mulheres. Além disso, a explicação de que o importante era a competência, independentemente de ser homem ou mulher. Para a coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Mulher e Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jussara Prá, os argumentos permitem várias interpretações. A primeira, de que, na percepção de quem fez as indicações, não existem mulheres capacitadas para participar de um governo. Outra leitura, segundo ela, é a de que a subrepresentação feminina reflete diretamente nas indicações — no Brasil, a representação de mulheres não chega a 10% no Congresso Nacional quando o mínimo ideal seria de 30%.

— Não é porque não tenhamos mulheres competentes, não é porque as mulheres não estejam atuando politicamente, mas é por uma questão de falta mesmo de ter as mulheres no lugar que lhes é de direito. Essa subrepresentação acaba refletindo na composição do governo. Se tivéssemos a massa crítica dentro do Congresso, teríamos mais mulheres indicadas aos ministérios. Se tu não tem esses 30%, tu vai depender de vontade política.

A falta de representação feminina no alto escalão do governo federal gerou uma natural cobrança, que resultou na nomeação de Maria Silvia Bastos Marques para a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e na tentativa de colocar uma mulher na Secretaria Nacional da Cultura, que perdeu o status de ministério e agora está vinculada ao Ministério da Educação — pelo menos cinco mulheres foram sondadas e recusaram.

— A luta das mulheres por direitos gerou uma consciência não só entre as mulheres, mas entre toda a população. As pessoas vão vendo que essa falta não é uma coisa normal, porque somos mais da metade da população. Isso vai fazer com que haja uma cobrança social. E aí vai ter uma resposta política, mas é insatisfatória. Colocam uma mulher e acham que é o máximo — analisa Jussara, doutora em Ciência Política.

Nesta reportagem, mostramos quatro mulheres que se destacam pela dedicação e competência em suas áreas de atuação.

Nilda, a militante da educação




Uma tendência que temos é de sentimento de culpa, porque deixamos nossa família para atender a nossa profisssão. Mas também acho que isso é uma ilusão e é também a reprodução de um discurso coletivo que produz isso: o lugar da mãe é dar conta da sua profissão, mas é dar conta da casa, do marido e dos filhos.



A pequena Nilda Stecanela queria ser jornalista e cientista. Mas na hora de escolher a profissão, deixou de lado o sonho de criança e optou pelo magistério. O motivo? Trabalhar meio período para poder conciliar o emprego com o cuidado da casa e da família, escolha de muitas mulheres de sua geração.

Mas a ideia de que a dedicação ao trabalho seria parcial foi uma ilusão. A professora acabou se envolvendo de tal forma com o ensino que transformou a profissão em militância. Passou a ter uma atuante vida comunitária e envolveu-se em projetos sociais. E nunca deixou de estudar.

Foram duas graduações, especialização, mestrado, doutorado em Educação, aliados ao trabalho em sala de aula e à função de mãe da Bruna e da Bianca, 32 e 26 anos, respectivamente.

— Uma tendência que temos é de sentimento de culpa, porque deixamos nossa família para atender a nossa profisssão. Mas também acho que isso é uma ilusão e é também a reprodução de um discurso coletivo que produz isso: o lugar da mãe é dar conta da sua profissão, mas é dar conta da casa, do marido e dos filhos — diz Nilda, atualmente divorciada.

Além da culpa, a professora universitária, hoje com 54 anos, reconhece que algumas mulheres podem se sentir intimidadas pelo simples fato de ocuparem um espaço de destaque, o que é natural diante de uma história de opressão e dominação patriarcal:

— Acho que tem algo interno que nos diz "não tenho certeza se nós devemos, se nós merecemos". Por exemplo, ocupar um importante cargo em uma instituição. Mas é também uma intimidação externa — finaliza.

Cida, a guerreira




Depois, me envolvi na política e é bem complicado para mulher. Tu tens atividade, reunião, nem todo marido vai aceitar isso. Então, é muito complicado ter um parceiro nesse sentido. E eu não vou largar a política.



Bastam alguns minutos de conversa para entender porque Maria Aparecida Auricchio Stecca, a Cida, 58 anos, presidente da Associação de Moradores do Loteamento Portinari, é conhecida como uma lutadora do bairro.

— Um dia, eu quebrei um pau com um secretário no primeiro andar da prefeitura que se ouvia no terceiro piso. E o pessoal: "Meu Deus do Céu, a Cida pedreira chegou." E era assim, eu fazia um barraco. E continuo fazendo, talvez não da maneira que eu fazia, mas continuo.

O apelido "Cida pedreira" ela ganhou por ter se apresentado em uma das reuniões da União das Associações de Bairros (UAB) como líder comunitária da região da antiga pedreira. Não demorou muito para que ela passasse a ser chamada de "Cida guerreira".

A liderança nunca havia imaginado entrar no movimento comunitário. Mas o risco de perder a casa por conta de uma decisão que determinava a reintegração de posse da área do Portinari a fez se envolver na luta pelo direito de dezenas de moradores permanecerem no local. Cida, então, criou a associação do bairro há 15 anos e foi a primeira presidente. E permanece até hoje.

— O movimento comunitário é diferenciado, tem muitas mulheres presidentes de amobs (associações de moradores). É a mulher que sabe quando tem pó, quando falta água, então, ela começou a se envolver — destaca.

O envolvimento comunitário acabou levando Cida para a política partidária. Desde 2007, é filiada ao PDT, onde preside a Ação da Mulher Trabalhista e ocupa cargo em comissão no Orçamento Comunitário (OC). Embora demonstre vocação, nunca pensou em concorrer a cargo eletivo.

O negócio de Cida, natural de São José dos Campos (SP), é continuar na luta comunitária e cuidar dos gatos e cães que dividem a casa com ela.

— Me divorciei em 1986 e nunca mais quis casar. Foi uma opção minha. Depois, me envolvi na política e é bem complicado para mulher. Tu tens atividade, reunião, nem todo marido vai aceitar isso. Então, é muito complicado ter um parceiro nesse sentido. E eu não vou largar a política — garante.

Analice, a empreendedora




Por que tem poucas mulheres nas entidades? Porque nós não vamos, porque nós não nos colocamos à disposição, porque ninguém ocupa lugar ocupado. Se nós deixamos desocupado, alguém vai ocupar, independente de sexo.



Quando era adolescente, Analice Carrer deixou a casa dos pais, no interior de Garibaldi, para tentar uma "vida melhor" na cidade grande. Chegando em Caxias, viu a oportunidade bater a sua porta e, com apenas 17 anos, montou sua primeira empresa. Precisou, inclusive, ser emancipada pelos pais para abrir um negócio no ramo da serigrafia.

— Existia receio e descrédito por ser mulher. Mas eu sempre gostei muito da linha de montagem, da engenharia. No início, eu era mais mão de obra que empreendedora. Trabalhava no sábado, enquanto elas (amigas) estavam arrumando as unhas e o cabelo, meio que dizendo: "Ah, o que tu quer, fazendo esse trabalho, te matando." Mas eu adorava. De repente, virou um negócio — conta.

Hoje, Analice, 58 anos, é uma empresária de sucesso, proprietária da Anay Fitas (segmento de fitas adesivas), com matriz em Caxias e filial em Porto Alegre. Sua atuação a levou a presidir a Microempa e a ser vice-presidente da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias. Atualmente, é presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). A primeira mulher, em 50 anos de história da entidade, a presidi-la.

— Por que tem poucas mulheres nas entidades? Porque nós não vamos, porque nós não nos colocamos à disposição, porque ninguém ocupa lugar ocupado. Se nós deixamos desocupado, alguém vai ocupar, independente de sexo — acredita.

Viúva e mãe de Matheus, 15, Analice se sente realizada e orgulhosa da trajetória que construiu. Mas admite que a cobrança é muito grande.

— Sou muito organizada e sempre pude contar com a família. Mas tem de ter uma estrutura psicológica forte para te manter no controle. Nós, mulheres, somos muito cobradas. Se a gente sair da linha, a gente é muito cobrada, ou a gente mesmo se cobra. Somos muito cobradas em acertar, temos de acertar.

Denise, a determinada




Nunca consegui me imaginar como minha mãe, como outras mulheres, como colegas minhas que vejo do colégio, de infância, que só ficam em casa. Não que não tenham um baita trabalho e não tenham valor.



Quem acompanhou a eleição municipal de 2000 em Caxias lembra muito bem de uma mulher aguerrida, que incendiava debates e comícios. Candidata a vice-prefeita na chapa de José Ivo Sartori (PMDB), Denise Kempf, 56 anos, do extinto PPB (hoje PP), movimentou um dos pleitos mais concorridos dos últimos tempos: Sartori e ela levaram a eleição para o segundo turno e perderam para Pepe Vargas (PT) por apenas 824 votos de diferença.

Denise se destacou de tal maneira que ganhou projeção estadual. Dois anos depois, ela disputava, ao lado de Celso Bernardi, o Piratini. Como candidata à vice-governadora, rodou o Estado defendendo suas propostas da mesma forma determinada como fez na eleição em Caxias.

Quando o PPB virou PP, Denise deixou a sigla e ingressou no PSDB. Concorreu a deputada estadual em 2006 — fez 6.042 votos — e integrou a executiva tucana. Mas, nos últimos anos, deixou a militância política de lado e voltou a se dedicar a advocacia.

— Eu estava cansada, então, dei um tempinho. Eu tinha que rever minha clientela, pensar um pouco na minha vida pessoal. Foi um desgaste físico muito grande. Mas, principalmente, eu tinha que retomar o meu trabalho. O envolvimento na política é uma doação. E eu tinha um grande apoiador, que era meu pai. Perdi ele em 2014. Ele que me empurrava — recorda.

Afastada da vida partidária, ela volta e meia é provocada a voltar. Não descarta a possibilidade, mas, no momento, não está em seus planos. A dedicação, agora, é ao trabalho e às filhas Michele, 35, Caroline, 34 e Sabrina, 26.

— Nunca consegui me imaginar como minha mãe, como outras mulheres, como colegas minhas que vejo do colégio, de infância, que só ficam em casa. Não que não tenham um baita trabalho e não tenham valor. É um grande trabalho, mas não uma coisa de participação, de mudança, de transformação. Eu me sinto uma transformadora. Eu não consigo ficara parada. Eu tenho que colaborar, eu tenho que deixar minha marca no sentido de colaborar com a sociedade — destaca Denise, que está divorciada atualmente.

Representação ainda é pequena










Reportagem:

Juliana Bevilaqua

Fotografia:

Felipe Nyland

Porthus Junior

Infografia:

Guilherme Ferrari