ao completar 30 anos, o polo tecnológico catarinense consolida a atuação no país e projeta alcançar a posição de setor mais importante na economia do Estado nas próximas três décadas

TEXTO | LEONARDO GORGES

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rescer a taxas médias de mais de 200% ao ano em meio a uma das maiores crises financeiras já vividas pelo país. O feito parece improvável, mas foi exatamente isso que conseguiu a Nanovetores, empresa com sede em Florianópolis e que trabalha no desenvolvimento de insumos industriais encapsulados a partir de nanotecnologia. Os ativos químicos microscópicos são vendidos principalmente para empresas do ramo cosmético e têm a função de potencializar o produto oferecido ao consumidor, fazendo com que aquele creme, gel ou pomada tenha um tempo mais longo de ação no corpo, seja mais resistente e, claro, obtenha um melhor resultado. São pequenas cápsulas vendidas a clientes de 26 países, mas que pouca gente sabe que utiliza.

— Por ser algo invisível aos olhos, é normal que poucos conheçam. Mas é uma tecnologia que tem permitido incrementos muito importantes no sentido da eficácia e até quebrando alguns paradigmas, como no teor de dosagem e no tempo que se leva para a obtenção de melhores resultados — diz Betina Giehl Zanetti Ramos, sócia-fundadora da empresa.

Esse trem-bala de crescimento em meio ao atual marasmo da economia nacional é um fenômeno recente. A Nanovetores foi fundada no final de 2008, depois que Betina concluiu doutorado em Ciências Químicas em Bordeaux, na França. Formada também em Farmácia, ela se juntou ao marido e administrador Ricardo Henrique Ramos para fundar a startup. Foram quase oito anos incubados no Parque Celta, na Capital, até que o negócio foi graduado, no meio deste ano.

Desde então, já com 45 pessoas no quadro de funcionários, eles se mudaram para o Sapiens Parque, no Norte da Ilha de Santa Catarina, em um espaço no Inova Lab. É uma estrutura de dois andares, dividida nas partes comercial, administrativa e de desenvolvimento, mas que também possui uma linha de produção onde são feitas as nanocápsulas. A nova área trouxe mais espaço. Porém, com desejo contínuo de crescer, os empreendedores já planejam mudanças.

Betina e Ricardo compraram um terreno também no Sapiens Parque, onde pretendem erguer a sede definitiva. Também já negociam com empresas do ramo têxtil, como a Malwee, de Jaraguá do Sul, para vender roupas capazes de hidratar e combater problemas de pele ou celulite.

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caso de sucesso da Nanovetores não é isolado em Santa Catarina. As empresas de tecnologia catarinense mantêm crescimento constante e têm passado praticamente incólumes pelo mau momento econômico nacional. São quase 3 mil empresas espalhadas pelo Estado, o que representa 5,3% do PIB, com quase 50 mil empregados. Tudo isso num espaço curto de tempo. Em 2016, o setor tecnológico catarinense completou 30 anos de consolidação. O marco é a criação da Associação Catarinense das Empresas de Tecnologia (Acate), em abril de 1986.

Antes disso, no entanto, empreendedores já se aventuravam e davam os primeiros passos. Inicialmente Joinville e, depois Blumenau, viram nascer, nas décadas de 1960 e 1970, empresas como Conteplan, Manchester, Datasul e o Centro Eletrônico da Indústria Têxtil (Cetil). Atual líder do segmento no Estado, Florianópolis entrou na onda um pouco depois. A fundação da Dígitro, em 1977, é referência. A empresa, que tem softwares nas áreas de comunicação corporativa, contact center, operações e inteligência, lançou as bases na Capital catarinense e segue relevante no cenário estadual e nacional.

O presidente da Acate, Daniel Leipnitz, conta que, após um início difícil, desbravado por pioneiros, a expansão do setor de tecnologia e inovação segue caminho oposto ao de segmentos tradicionais no Estado, como o agronegócio e a indústria, que ano a ano vêm perdendo espaço percentual na geração de riquezas. Exemplo disso é a multiplicação dos negócios: das quase 3 mil empresas hoje existentes no Estado, metade delas foi fundada nos últimos oito anos. Em 2015, enquanto a economia catarinense sofreu um tombo de quase 5%, o segmento tecnológico avançou 3,6%, melhor resultado do país. Para Leipnitz, a tendência é de uma aceleração ainda maior nos próximos anos, com uma perspectiva ousada.

— Nós trabalhamos com um cenário de que tecnologia e inovação vai ser o maior segmento da economia catarinense num futuro entre 15 e 30 anos — afirma.

Essa transformação, na opinião do empresário, vai passar necessariamente por uma revolução do trabalho, com a extinção de boa parte das profissões que hoje se baseiam em atividades manuais e mecânicas. Como exemplo, ele cita os motoristas:

— Em algum momento, as pessoas vão ser proibidas de dirigir. Hoje, já existem tecnologias para que um carro possa ser perfeitamente guiado por um computador. Para nós, seres humanos, há uma série de fatores que influenciam a execução da tarefa e aumentam as probabilidades de acidente.

O setor de tecnologia catarinense mantém uma

linha de crescimento constante e tem passado praticamente incólume pelo mau momento econômico nacional. São quase 3 mil empresas espalhadas pelo Estado, o que representa 5,3% do PIB e mantém

quase 50 mil empregados.

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e há um conceito perseguido pelos empreendedores tecnológicos, ele é a disrupção. Trata-se da busca pela criação de algo que mude a forma como as pessoas consomem determinados produtos ou se relacionam com seu grupo de amigos e o mundo. Há exemplos clássicos: Netflix, Uber, Google, Apple. Em comum entre todos esses está o fato de terem sido desenvolvidos em mercados já considerados maduros no que se refere à inovação.

Santa Catarina e o Brasil ainda são vistos como produtores periféricos desse tipo de tecnologia. Lá fora, não se acredita que daqui possa sair um produto que vá romper barreiras e quebrar paradigmas. Para a doutora Betina Ramos, da Nanovetores, mesmo que algumas empresas tenham conceitos extremamente inovadores, ainda há um certo preconceito.

— Quando vamos apresentar nossos produtos na França, por exemplo, muita gente ainda torce o nariz quando falamos que somos do Brasil. As pessoas não associam o país com a tecnologia — diz, acrescentando que, no país europeu já há uma cultura de roupas com funcionalidades cosméticas, enquanto no Brasil esse mercado ainda engatinha.

Para Sergio Risola, diretor do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), um dos principais polos do país, ligado à Universidade de São Paulo (USP), as empresas brasileiras precisam pensar de forma global e o primeiro passo para isso é montar um escritório no exterior, seja em São Francisco, Londres ou Tel-Aviv.

— É claro que isso fica muito aquém do que gostaríamos, mas depois de atingir um determinado tamanho ainda é preciso colocar um endereço lá fora, abrir um escritório, nem que seja em Orlando — conta.

O professor cita ainda a falta de incentivo como um dos grandes entraves para o desenvolvimento do mercado de tecnologia no país. Segundo ele, é falsa a análise de que sobra dinheiro para as boas ideias. Para embasar esse raciocínio, traz números: enquanto no Brasil o investimento em tecnologia é de 1,2% do PIB, em países como Coreia do Sul, Finlândia, Cingapura e Japão essa taxa passa dos 4%. Nos Estados Unidos, fica em 3%, porém, em valores absolutos, atinge com folga a primeira posição mundial.

Apesar dessa diferença em relação ao mundo, Risola crê, na comparação com o restante do país, que Santa Catarina está um passo à frente. Ele lembra que aqui, ao contrário da maioria dos Estados, há a tentativa de criação de um ecossistema voltado à inovação. O poder de lobby do setor também é maior, justamente pela existência de uma associação forte e com poder de barganha como a Acate. Em São Paulo, o professor conta que houve uma tentativa de criar uma instituição parecida em 2007, porém o grupo não durou mais do que dois anos.

— Essa união é algo que invejamos aqui em São Paulo. Isso faz também com que Santa Catarina tenha um olhar diferenciado por parte dos políticos. A associação se torna um parceiro privado do Estado e que, ao mesmo tempo, abre um caminho para colocar nossas empresas no radar de gigantes, como a Microsoft — diz.

Outro ponto que diferencia o Estado é a descentralização. Embora Florianópolis, Joinville e Blumenau concentrem quase 80% das empresas, há um esforço para dar suporte aos empreendedores de outras regiões. Isso se traduziu em números no ano passado, já que a Serra, com 11,7%, e o Oeste, com 9,6%, apresentaram os maiores índices de crescimento.

— Precisamos que todos tenham as mesmas condições para se desenvolver. Diminuir a concentração é uma prioridade — afirma Leipnitz.

É justamente essa descentralização que faz com que produtos inovadores possam ser criados em lugares onde antes não se esperava. Na pacata Timbó, com seus 42 mil habitantes, um trio de jovens vem desenvolvendo tecnologias com um objetivo bem claro em mente: acabar com as carteiras.

A Atar, startup fundada por eles, fica em uma sala bastante modesta, de uns 30 ou 40 metros quadrados em um prédio de três andares no centro da cidade, vizinha de advogados e outros pequenos negócios de ramos mais tradicionais da economia. Lá dentro trabalham os oito funcionários da empresa.

Com três anos de fundação, a empresa Atar deu seu primeiro grande passo em maio, quando foi iniciada a pré-venda da Atar Band, uma pulseira que almeja substituir os cartões de crédito. É com ela que você realiza o pagamento, encostando-a na máquina de cartão de crédito. A pulseira não tem bateria e é à prova d´água. Em compras acima de R$ 50, é preciso digitar a senha, mas, para valores mais baixos nem isso é necessário. A pulseira carrega um dispositivo com a tecnologia NFC, presente em 85% dos aparelhos de cartão brasileiros hoje.

— Não somos apenas uma forma de pagar, mas também um estilo que mistura tecnologia, pagamentos e moda — diz Orlando Purim, de 25 anos, diretor executivo da Atar.

Ao lado dele estão Luiz Fernando Heidrich Duarte, 30, diretor de tecnologia, e Mike Allan Pellin, 25, diretor operacional. Eles afirmam ter percebido o potencial do produto quando participaram de um evento nos Estados Unidos no ano passado, o Tech Crunch Disrupt 2015, em São Francisco, na Califórnia. No encontro, despertaram o interesse de oito bancos estrangeiros, e muitas pessoas queriam comprar o produto para sair usando, embora ele estivesse ainda em testes.

De lá para cá, no entanto, a Atar decidiu mudar sua estratégia e focar no consumidor final e não apenas no desenvolvimento tecnológico para outras empresas. Com isso, colocaram o produto à venda na internet e garantem ter um diferencial.

— Somos uma exceção na América Latina por desenvolver o hardware, o software, o serviço, a marca e a comunicação. Tudo isso sendo o distribuidor e principal canal de seus produtos — diz Purim.

No primeiro trimestre do ano que vem, os três timboenses começarão a entrega das pulseiras, mas não querem parar por aí. Embora estejam focados no produto, eles possuem protótipos de um anel e um clip para relógios, ambos também para realizar pagamentos. Para o futuro, o objetivo é substituir todos os itens que hoje carregamos em nossas carteiras por tecnologias vestíveis.

— Não é algo para o curto prazo, mas que é possível lá na frente — aposta.

no Brasil, o investimento em tecnologia é de

1,2% do PIB. em países como Coreia do Sul,

Finlândia, Cingapura e Japão essa taxa passa

dos 4%. Nos Estados Unidos, fica em 3%.

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mundo da tecnologia em Santa Catarina, no entanto, não vive apenas de apostas. Há empresas consolidadas que buscam se expandir e, para isso, a ordem é pensar fora da caixa. Na Senior, companhia de softwares de gestão com sede em Blumenau, as taxas de crescimento fazem inveja aos chineses. Foram 16% de aumento na receita em 2015 e a projeção para este ano está em 14%. Para 2017, esse número pode chegar a 20%. Esse avanço se reflete na contratação de pessoal hoje, já são quase 1,3 mil empregados. Em meio às turbulências, cortes tiveram de ser feitos, mas o orçamento para investimento em inovação foi protegido. É o que garante o inquieto diretor de Marketing e Produto, Alencar Berwanger.

A Sênior também está entre as pioneiras do setor de tecnologia no Estado. Fundada em 1988, a companhia prepara as comemorações dos 30 anos em grande estilo. A atual sede da companhia é um prédio espelhado de cinco andares que dá uma ideia do tamanho da empresa hoje. Ali, em uma rua movimentada do bairro Victor Konder, fica a maior parte dos funcionários.

Hoje, a companhia trabalha com a sétima geração tecnológica. Antes, esse processo de renovação de processos levava de cinco a 10 anos. Agora, mal chega a três. No começo, a Sênior produzia praticamente todas as etapas dos produtos. Com o avanço, a companhia se tornou uma “montadora”, agregando coisas de fora para desenvolver os produtos.

Quando o assunto é Santa Catarina, Berwanger defende que o Estado está bem posicionado nacionalmente. Porém, faz uma ressalva: por aqui ainda há carência de mão de obra qualificada.

— Esse é um tema que os governantes deveriam tomar como prioridade para evitar uma fuga de empresas e para que o Estado não saia perdendo — conta, dizendo também que a Senior tem buscado mão de obra fora do Estado.

Antes de terminar, Berwanger fez, a pedido da reportagem, um exercício de futurologia para responder a seguinte pergunta: como a humanidade estará daqui a 30 anos diante dos constantes avanços tecnológicos?

— É difícil prever tão longe porque as coisas estão mudando muito rapidamente.

A tecnologia vai influenciar muito e cada vez mais o nosso comportamento. Em 2017, por exemplo, vai se completar 10 anos da criação do smartphone. Quanto já não mudou nesse tempo? — ele devolve a pergunta.

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