A fiscalização precária nas fronteiras estimula o contrabando de agrotóxicos e pode comprometer a saúde da população. É o que revelou uma reportagem da RBS TV exibida na noite deste domingo pelo Fantástico.
Durante duas semanas, a equipe da RBS TV rodou cerca de 7 mil quilômetros pelas fronteiras do Brasil com o Uruguai e o Paraguai e gravou flagrantes de comerciantes dos dois países negociando produtos. A própria equipe conseguiu cruzar as aduanas com frascos de defensivos sem despertar suspeitas.
Em Aceguá, vizinha à cidade uruguaia de mesmo nome, o posto da Receita Federal estava fechado. A falta de fiscalização também foi constatada nas cidades uruguaias de Artigas, vizinha à Quaraí, Bella Union, na divisa com Barra do Quaraí, e em Rivera.
Um ex-contrabandista confirma a fragilidade das aduanas:
- Tinha um cara que passava lá porque é barbada.
Para o superintendente regional da Receita Federal no Rio
Grande do Sul, Paulo Renato Silva da Paz, a extensão de cerca de
1,7 mil quilômetros de fronteira faz com que a estratégia dos fiscais seja a desarticulação das quadrilhas, e não a presença em pontos específicos.
- Até porque seria impossível na prática estar em todos os postos permanentemente - pondera Paz.
O esquema de contrabando de agrotóxicos também foi flagrado em Ciudad Del Este, na divisa com Foz do Iguaçu. Na cidade paraguaia, um vendedor afirmou que o produto local possui uma concentração de princípio ativo quatro vezes maior. Um agricultor gaúcho, que aceitou falar sem ser identificado confirmou que usa agrotóxicos contrabandeados.
- Com certeza prejudica a natureza, as lagoas. Tu vê a diferença até no peixe, passarinho morre - admitiu.
Antes de ser vendido no Brasil, um defensivo agrícola precisa passar por testes e ser registrado em três ministérios: da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente. Esse processo não ocorre com o produto trazido ilegalmente.
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Esses agrotóxicos produzem desde uma simples reação alérgica até
efeitos mais graves, que podem perdurar por anos. Temos hoje dados cientificamente comprovados que mostram que o uso prolongado desses agrotóxicos pode levar ao aparecimento de câncer - alerta o diretor da Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), José Agenor Alvarez.
Testes realizados pela Polícia Federal do Rio Grande do Sul comprovam os riscos. O laudo de uma amostra apreendida em uma agropecuária de Passo Fundo revelou que um dos produtos, vendido para combater insetos, era na verdade veneno para fungos.
- A população está se expondo a um maior nível de agrotóxicos, e o agricultor corre mais riscos durante a aplicação, pois se trata de um princípio ativo mais tóxico. Além disso, ele terá o prejuízo econômico de não estar matando a praga que deseja - disse a perita criminal federal Daniele Zago, responsável pela análise.
Além do prejuízo à saúde, existe também o dano ao ambiente. Pela lei, embalagens vazias de agrotóxicos devem ser
encaminhadas a centrais, onde são
lavadas e separadas para posterior reciclagem. Quando o produto é ilegal, o descarte é feito pelo próprio agricultor.
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