Quando decidiu enfrentar o prestígio do River Plate, comprar uma briga com dirigentes e torcedores de um dos clubes mais importantes do país e passar o jogo deste sábado contra o Brasil do Monumental de Nuñez, o maior estádio argentino, para o Gigante do Arroyito e seus 38 mil lugares, Diego Maradona não estava pensando apenas nos aspectos técnicos. Para Maradona, um homem habituado a declarações de empolgado patriotismo e de duras críticas aos americanos, Rosário tem um simbolismo especial que vai bem além dos lances de campo. Eles são importantes, podem mudar a história de um jogo, como ocorreu no empate em 0 a 0 na Copa do Mundo de 1978, no mesmo Arroyito de hoje, mas não foram a única motivação de Maradona.
Em vídeo, David Coimbra e os ilustradores Fraga e Gonza debatem a rivalidade entre os países e mostram como foram feitas as caricaturas da reportagem:
Uma das respostas está no alto de seu
braço direito, quase no ombro. Ali está a
tatuagem do rosto de um personagem sobre o qual
Maradona costuma falar com orgulho, em conversas com
amigos, nas entrevistas coletivas ou simplesmente como
afronta para quem pensa diferente dele. Ela mostra o
rosto de Ernesto Che Guevara, um dos líderes da
revolução cubana. Guevara nasceu na
Rosário do jogo de hoje.
Em audioslide, relembre a confusa partida de 1978 entre Brasil e Argentina em Rosário:
Estátua de Che está no centro da
cidade
Quem circula pelo Parque Hipólito Irigoyen, um
dos principais da cidade, verá bem no centro uma
estátua de bronze, de quatro metros de altura,
de Che, feita pelo artista argentino Andres Zerneri
Español em Buenos Aires e trazida até
Rosário em 2008. A obra foi construída
depois de uma campanha mundial de doações
de chaves, maçanetas e outros objetos de bronze,
em todo o mundo. Zerneri fundiu 75 mil chaves,
conseguiu 3 mil quilos de bronze e esculpiu a figura do
guerrilheiro que hoje é um dos principais
monumentos da cidade. Maradona não poderia ficar
indiferente.
O astro Messi vai jogar em sua casa
Foi em Rosário, cidade da província de
Santa Fé, que o General Belgrano lançou a
bandeira argentina em 20 de junho de 1816, pouco antes
da Batalha do Paraná.
Luiz Zini Pires e Diogo Olivier conversam com
Batista, ex-volante da Seleção:
Rosário é também a cidade de
Messi, hoje o principal destaque da
seleção argentina, favorito destacado
para receber no fim deste ano o troféu de melhor
jogador do mundo. Messi nunca disputou uma partida
profissional na cidade. Saiu ainda pequeno, chegou
adolescente a Barcelona, fez um tratamento para crescer
e hoje estará diante de seu público
mostrando por que a cidade pode se orgulhar dele.
Não é só isso. Maradona
também pensa em seus devotos. São aqueles
que traduzem seu nome com a sigla D10S, usando a
pronúncia do 10 em espanhol para ficar
semelhante a Deus. É um dos símbolos das
bandeiras e oferendas da Igreja Maradoniana, criada em
2002 por um grupo de fanáticos pelo ex-jogador.
O Pai Nosso deles é um pouco diferente. Quando
se unem para orar, juntam as mãos em
silêncio respeitoso e começam a entoar a
prece, eles não falam em nome do Pai, mas em
nome de Maradona, para eles uma espécie de Deus
na terra. Natal para os integrantes da igreja é
comemorado no dia 30 de outubro de cada ano, a data de
aniversário de Diego Maradona. São
fanáticos, devotados ao ídolo e nem se
importam em ser encarados com desdém ou
sarcasmos: desde que fundaram a Igreja Maradoniana,
ganharam adeptos no país e passaram estabelecer
uma rede de contatos. Levam a sério a
devoção. Há até altares
especiais. Pois bem, sabem onde é a sede da
Igreja Maradoniana, aquela criada como uma forma de
também deixar claro que Maradona é
superior a Pelé por ser Deus? Na Rosário
do jogo desta noite, pelas Eliminatórias.
– Cada um tem suas crenças, mas eu fico
com as minhas – disse Felipe Melo na entrevista,
evitando qualquer risco de bater forte demais.
Maradona gostaria de entrar em campo
Maradona sabe que todo esse ambiente pode ser valioso
para uma seleção que precisa vencer
– e Rosário e seus simbolismos surgiram
como uma bênção. Desde que olhou a
tabela de classificação e viu sua
seleção colocada em quarto lugar, a um
passo da repescagem e com três duros rivais pela
frente (Brasil, Paraguai e Uruguai, esses dois fora),
Maradona fez seu lance. Encarou as queixas dos
torcedores do River, as acusações de que
estava armando uma guerra e decidiu trazer
Rosário e seus pouco mais de 1 milhão de
habitantes para seu lado.
– Penso tanto neste jogo que dá vontade de
entrar em campo – disse Maradona esta semana,
durante os treinos em Ezeiza.
– Precisamos dar o coração –
completou seu genro, pai de seu neto Benjamin, o
atacante Sergio Aguero.
Maradona e seus jogadores sabem que Rosário
poderá ser um aliado fundamental – e,
principalmente, o Gigante de Arroyito e seus 38 mil
lugares. Nada comparável aos quase 80 mil do
Monumental, mas no ambiente de Rosário
não há neutralidade. Foi assim em 1978. O
Brasil enfrentou pressão, os gritos
intermináveis de uma torcida que fica bem
próxima de campo, resistiu o que pôde
à marcação dos argentinos de
César Luiz Menotti, e ficaram no empate em 0 a
0. Vitória poderia encaminhar para o
título – ou ao menos não deixar o
Brasil na dependência da frágil
seleção peruana, que acabaria goleada por
6 a 0 pelos argentinos no mesmo ambiente do
Arroyito.
Os brasileiros sabem disso. Desde os primeiros sinais
de que os argentinos queriam um ambiente complicado, de
pressão, eles falam com extremo cuidado sobre os
adversários. Foi assim na entrevista coletiva de
ontem. Os jogadores escalados pareciam ter sido
instruídos a ficar em um limite seguro. Nada que
parecesse provocação poderia ser dito.
Houve até elogios entusiasmados a jogadores
adversários. Júlio César chegou a
falar que os argentinos têm razão em
escolher “um alçapão” para
tentar a vitória no jogo desta noite, antes de
fazer um afago especial no ego argentino ao eleger
Zanetti como um exemplo de profissional do
futebol.
De sua concentração, Maradona deve ter
sorrido ao ouvir as declarações dos
brasileiros. Ele sabe que a cautela também pode
ser entendida como um primeiro sinal de que o
adversário sentiu, ao menos em parte, o golpe
dado com a transferência para Rosário. A
cidade de Che, Messi, da bandeira e dos seguidores da
Igreja Maradoniana fez o adversário ficar na
retranca – e este pode ser o primeiro golpe para
quem pretende vencer uma luta complicada como poucas.
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