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Comportamento | 04/07/2009 | 12h31min

As vantagens e desvantagens de morar sozinho

Matéria mostra a dor e delícia de viver só

Tríssia Ordovás Sartori | trissia.ordovas@pioneiro.com

Somam 5 milhões as pessoas que moram sozinhas no Brasil, pouco mais de 11% do total de domicílios em território nacional. A estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é reveladora por trazer um percentual, mas não contempla uma análise mais subjetiva, que permita constatar dores e delícias de quem optou por não ter companhia em casa.

Ao que parece, as vantagens dessa situação são bem maiores do que as adversidades. Especialmente se a mudança foi uma escolha e não uma imposição. O 2º Estudo Europeu sobre Solteiros 2008 apontou que o casamento deixou de ser o principal objetivo dos que desfrutam da condição avulsa: apenas 33% pensam em juntar as escovas de dentes.

A jornalista Rosane Queiroz, 39 anos, morou sozinha durante 11 anos e, por causa disso, decidiu escrever um livro sobre o assunto. Publicou, assim, Só: Dores e Delícias de Morar Sozinha (Editora Globo, 248 págs., R$ 30). Como na época era editora da revista Marie Claire, foi ouvir relatos de outras mulheres para formatar a obra, que levou três anos para ser finalizada. Descobriu, por exemplo, que a adaptação é mais difícil para quem perde a companhia por uma separação, por exemplo.

Rosane também percebeu que quanto mais cedo as mulheres ficam sozinhas, melhor é para elas. A professora Morgana Larissa Sage, 24 anos, encaixa-se no exemplo. Ela saiu de casa em 2005 para estudar em Coimbra (Portugal). Depois de 11 meses na Europa, voltou ao Brasil e já não conseguia mais se ver vivendo com os pais. Resolveu sair de casa e, desde 2007, tem um cantinho que é só dela. 

— Faço parte de uma geração de mulheres que sai de casa com algum propósito. Eu vim pra cá pra ter liberdade. Sabia que não sairia da casa dos meus pais só com uma aliança no dedo — afirma Morgana. 

— É preciso ter um porquê. Para mim o motivo sempre foi muito claro: o de construir minha vida — completa.

Estudante de mestrado e com nove turmas para lecionar, em Caxias e São Marcos, Morgana vê o silêncio como a principal vantagem de um espaço próprio, já que assim tem um ambiente ideal para estudar. 

— Sou uma caótica organizada — brinca.

Mas a professora alerta que a sensação de paz de ter um espaço livre de interferências pode, em alguns momentos, sufocar. Atualmente, ela sofre um pouco por causa da correria do dia-a-dia: 

— Chego em casa cansada do trabalho e preciso cozinhar, lavar, passar. Às vezes gostaria que alguém fizesse isso por mim.

Na casa de Morgana, os espaços são bem definidos. A cozinha serve para reunir os amigos. A sala, para jogar videogame. O quarto para descansar e conversar com alguns amigos. 

— Lembro o dia que me mudei: 19 de julho de 2007, um marco na minha vida. Foi muito legal, porque montei a casa com o meu dinheiro — afirma Morgana.

Por vezes o orgulho cede lugar à manha, geralmente em momentos mais complicados. Tanto Morgana quanto Rosane consideram adoecer e não ter ninguém por perto a situação mais desagradável do cotidiano. Morgana também reclama da falta de comida em casa. Já Rosane não gosta de fazer as refeições sozinha.

A jornalista não vive mais sem companhia. Hoje ela tem uma filha, Anita, de cinco anos. E depois que terminou o livro, publicado em 2004, Rosane casou-se. Só que ela mora separada do marido. Ele é proprietário de um bar-restaurante no litoral paulista e ela vive na capital. 

— Brincamos que somos casados às vezes. Mesmo assim, é uma vida cheia de gente, crianças, relacionamento... Então, em alguns momentos, sinto saudades do meu canto, quando todo espaço e tempo do mundo eram para mim — afirma ela, que há um ano mantém o Blog Miojo, dedicado aos adeptos do single lifestyle.

Separação sem traumas

O número de homens e mulheres que vivem só é praticamente igual: são 49,6% deles e 50,4% delas. Das cerca de 5,6 milhões de “famílias unipessoais”, como classifica o IBGE, mais de 87% estão na faixa etária acima dos 30 anos, ou seja, a maioria se encontra na categoria economicamente ativa, com maior poder de compra. Dados do IBGE apontam que o número de solitários cresce, em média, 6% ao ano.

O mercado imobiliário nacional não fica de braços cruzados assistindo ao avanço dos solitários por opção. As empresas planejam, constroem e oferecem imóveis pensando nesse público. Além da construção civil, o ramo alimentício vem se esforçando para atrair esses clientes. Prateleiras lotadas de porções individuais estão melhorando a vida dos solteiros, antes forçados a comprar porções em tamanho família, que costumavam ultrapassar as datas de validade.

O estudante de técnica em informática Rodrigo Cristiano Prates, 31, saiu de sua terra natal, Ijuí, há nove anos. Veio para Caxias em busca de emprego e não demorou muito a encontrar uma ocupação. Aqui, morou com amigos conterrâneos, mas há cinco meses vive a experiência de morar sozinho. 

— Aqui tenho mais privacidade, não preciso impor regras. A casa está sempre limpa, tenho mais tempo para estudar e não fico preso aos compromissos dos outros. E sozinho é o começo de tudo — conta o estudante.

Para ele, a pior parte é comer desacompanhado. A melhor é poder ficar sem fazer nada, ter a opção de deixar tudo para depois. Estranho é ficar longe da família. 

— Se soubesse que era tão bom, teria me mudado antes — conta.

Já o empresário Emilio Finger, 45, foi viver sozinho pela primeira vez depois da separação do casamento de 14 anos, em 2005. Ele afirma que foi bem sofrido, até que redescobriu o prazer em atividades que havia deixado para trás ao longo dos anos, como tocar violão, mergulhar e estudar. O aprendizado de bonsai veio em paralelo, para driblar a ansiedade.

Com o tempo passou a curtir o espaço que decorou com a sua cara. Fez novas amizades, ficou com mais vontade de viajar, conhecer pessoas. Mas ainda considera ficar longe da grande paixão, a filha Rafaela, 15, como a pior parte de viver sozinho. 

— A gente se fala todos os dias, ela é maravilhosa e vive lá em casa. Mas isso foi o que mais senti — relata.

Finger reaprendeu a ser sozinho, mas para isso teve que prestar atenção a sentimentos como angústia e solidão e desenvolveu métodos para deixá-los bem longe. 

— No começo foi difícil, mas percebi que não há melhor companhia do que a minha. E, se for pra me relacionar com alguém, aprendi que não vou dividir mais nada. Só quero multiplicar — conclui, filosófico.

BUSCA PELO PRÓPRIO CANTO

A caxiense Pâmela Bampi Rech, 29, mora em Brighton, no litoral da Inglaterra, desde 2000. Ela saiu de Caxias para passar três meses estudando inglês, mas decidiu estabelecer-se por lá. Fez faculdade — International Business —, comprou imóveis, casou, descasou e ainda não conseguiu ficar sozinha. 

— Morei com duas famílias, depois fui morar com meu namorado — conta.

O relacionamento durou sete anos e, com a separação, ela ganhou a companhia da irmã, Priscila. Depois que a irmã se mudou, Pâmela hospedou um amigo inglês, Paul. Por fim, não quis deixar o apartamento vazio e tratou de alugar os quartos. Após a passagem de coreanos, agora ela mora com dois espanhóis. Mas não vê a hora de ter o apartamento só para ela: 

— Às vezes a gente divide a casa com alguém que não ajuda, não limpa as coisas. Nunca consegui ficar sozinha, mas acho que devo fazer isso em breve.

 

 

Comentários

edilson

Denuncie este comentário11/12/2009 08:27

separei em agosto de 2009, estou morando sozinho e é bom, as vezes não pois vem a saldade de minha filha, que não consigo imaginar está sem falar com ela. é muito dolorido, principalmente quando vejo que não fui eu quem sai do relacionamento, fui imposto para tal. mais morando só é bem melhor para refretir-mos os acontecimentos. a minha filha com 11 anos sei que precisa de mim, por isso optei de morar só.

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