Porto Alegre – Longe de ter uma visão conservadora da sustentabilidade, mas engajado em projetos que possam ajudar empresas e pessoas a modificarem a forma como se relacionam com o mundo, Henrique Versteeg Vedana faz da palavra cuidado o seu lema, aplicável a todas as relações que mantém. Desde 2009 como parceiro da Co Criar, consultoria dedicada a levar práticas sustentáveis a empresas, o gaúcho precisou carimbar o passaporte por diversos países, trabalhar em multinacionais e buscar formações até encontrar aquilo com que desejava trabalhar.
Aos 33 anos, casado com a holandesa Florentine Versteeg, de quem adotou o sobrenome, e morador de São Paulo, não despreza a formação universitária. Atribui, porém, às experiências vividas fora da sala de aula durante os sete anos que levou para concluir o curso de Ciência da Computação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a descoberta de uma carreira bem distante da profissão escolhida no vestibular, em 1996.
– Já no primeiro ano de faculdade vi que tinha outros interesses, mas logo fui trabalhar na área para juntar dinheiro. No segundo ano, fiz um mochilão no Peru e na Bolívia – conta.
Na volta, encontrou um caminho na AIESEC (veja quadro), entidade que lhe proporcionou as primeiras experiências em gestão e a descoberta do tema da sustentabilidade.
– Entendo que a sustentabilidade é a forma como nos relacionamos conosco, com os outros e com o planeta. Se fumar ou beber, terei uma consequência na minha saúde. Se não cultivar as amizades ou o relacionamento com as pessoas, terei outro tipo de resposta. O mesmo vale para o ambiente – avalia.
Quando começou a trabalhar na área, não existia a figura do profissional de sustentabilidade. Foi a oportunidade de ir para a Holanda, como trainee no ABN AMRO Bank, que deu a largada para o seu trabalho de consultor em grandes corporações. Lá, participava da construção dos relatórios de sustentabilidade:
– Os documentos mostravam diferenças de salários entre homens e mulheres, acidentes de trabalho, onde o banco investia e se as empresas tinham as mesmas preocupações. Pude entender que, mesmo atentas às questões de sustentabilidade, as empresas têm um limite.
Para Vedana, mais do que fazer um levantamento, é preciso propor novas práticas para que o resultado dos relatórios se modifiquem para melhor. Agora a Bolsa de Valores de São Paulo já exige das empresas com ações a divulgação dos informes ou um bom motivo para não fazê-lo.
Atuando como consultor de grandes empresas, a Co Criar tem entre seus clientes Natura e Santander, Vedana enxerga novos desafios para a implementação dos conceitos de sustentabilidade. Para ele, a visão do brasileiro sobre as companhias é de assistencialismo: entendemos que elas existem para ajudar comunidades com projetos culturais, ambientais e sociais (especialmente em áreas carentes), e os resultados desses relatórios, que mostram impacto ambiental ou disparidade salarial, pouco interessam à população. Por enquanto, vale o resultado prático.
– Mesmo no meu círculo de contatos, a visão é de que o negócio é o importante. Mas quando questiono, todos têm uma visão negativa, até cínica, das consequências que as empresas podem causar. Alguns acreditam que a mudança para outros países resolve o problema, como se fossem inatingíveis. Não percebem que tudo está conectado – diz.
É para tentar mudar esse tipo de comportamento que o consultor também apoia projetos educacionais, a partir de sua formação na dinamarquesa Kaospilots. Antes de voltar para o Brasil, estudou empreendedorismo e inovação social, seguindo um modelo de ensino com mais discussões e projetos de estudo do que provas. Em Curitiba, usa a experiência dinamarquesa na coordenação em um curso de jovens lideranças na Universidade da Experiência, um centro extra acadêmico.
– Nossas faculdades de Administração ensinam a tocar o negócio, pouco ensinam sobre liderança participativa. Trabalho preocupado em entender a forma como a gente aprende. A formação escolar é muito antiquada. Todo mundo fala em colaboração, em cooperação profissional, mas a distância entre o mercado, que fala em compartilhar, e a educação, que é compartimentada, é muito grande – diz.
Com a Co Criar, Vedana tenta levar para as empresas experiências de diferentes formas de trabalho, de acordo com as mudanças necessárias para o desenvolvimento da equipe e dos resultados desejados. Acredita que a sustentabilidade das empresas está ligada à cooperação das equipes, com liderança compartilhada. Ainda que entenda que a participação não serve para qualquer coisa, ele aposta que, com mais pessoas, aumenta a capacidade de inovação. E nisso, sem dúvida, ele é craque.
tassia.kastner@zerohora.com.br
| Mudança |
| no horizonte |
| Hoje, Vedana mora em São Paulo, mas tem planos de se estabelecer em Florianópolis. |
| 1 . Troca de rumo: Vedana participou da AIESEC desde o segundo ano de faculdade e permaneceu na entidade depois de formado. Foi pela instituição que fez um intercâmbio para o Canadá, de onde voltou com a certeza de que não trabalharia com computação. Entregou o trabalho de conclusão, em 2002 e ouviu do pai tu estás formado, agora a vida é tua. Era a deixa para se mudar pela primeira vez para São Paulo, quando assumiu a gestão nacional da AIESEC por dois anos, nos cargos de presidente e vice. |
| Comecei a me interessar por educação e por gestão, coisas que não aprendi na faculdade, porque a formação é muito técnica avalia. |
| 2 . Novo conceito: para ele, é preciso haver uma mudança de paradigma: |
| O filósofo Bernardo Toro disse que o grande problema é que a gente sempre viveu, e ainda vive, no paradigma do sucesso (na escola é a obtenção de melhores notas, quando adultos, é ter o melhor emprego, status etc). É esse paradigma de sucesso que está levando o mundo a um colapso, com imigração, desastres naturais. É preciso uma mudança de perspectiva, para o paradigma do cuidado: cuidarmos de nós mesmos, dos outros e do planeta. |
| 3 . Mais Europa: em setembro, Vedana parte em uma jornada de aprendizagem para a Europa, com uma expedição para brasileiros interessados na inovação na educação. Lá, a equipe vai conhecer alguns dos modelos mais inovadores de educação social que existem na Europa (Kaospilots, na Dinamarca, Team Academy, na Espanha, e Schumacher College, na Inglaterra). As informações sobre o projeto estão no site www.aoka.com.br. |
| 4 . Co Criar: desde 2007 em São Paulo, a Co Criar tem em sua equipe sete coordenadores que desenvolvem projetos que trabalham com inovação organizacional e sustentabilidade. Além dos coordenadores, outros 20 parceiros auxiliam na implementação das atividades de consultoria dentro das empresas e órgãos públicos, como prefeituras. Natura e Santander estão entre os principais clientes da Co Criar. Mas Vedana explica que o grupo já recusou projetos de corporações que não estavam alinhadas à filosofia ou que não atenderam aos resultados esperados. |
| 5 . Na Holanda: depois de trabalhar no ABN AMRO Bank, Vedana seguiu na Holanda, trabalhando na Global Reporting Initiative (GRI), projeto que desenvolve os modelos de relatórios de sustentabilidade que depois são adotados pelas empresas. Foi também lá que conheceu a holandesa Florentine, quando já estava voltando para o Brasil. Ela veio logo depois, para visitar, mas acabou ficando por aqui mesmo. |
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