O romance está aí, remoçado, renovado por Paulo Ribeiro, em Chegaram os Americanos. Frases curtas, o tempo e os costumes o exigem. Diálogos ágeis. A narrativa segue com criatividade e inteligência. Surpreende, mais do que tudo. Sem sofisticação, a linguagem do povo assumida em tom literário. O texto tecido a fragmentos busca unidade. Associações de palavras e imagens ganham força expressiva e profundidade. A memória ajuda os eventos históricos. O estilo cria dinamismo, movimento, rapidez. Um sopro de inovação percorre as páginas, inventa estórias.
Ribeiro é por excelência escritor. Cria mitos. Entrelaça enredos, personagens, ações e ideias. Mistura o real e o imaginado. Mas o real nu é transfigurado na linguagem. Nomes conhecidos, lugares sabidos, velhas notícias ganham novos cenários e ações, em Chegaram os Americanos. Todo real é fictício e toda ficção é real. Bom Jesus, celebrada e imaginada, torna-se síntese do mundo, da época, geografia de ações, inauguração do romance. A vida recriada, em fragmentos, na unidade da aventura, do drama, do conflito. Pois a essência da narrativa está na invenção da verdade.
A linguagem de Ribeiro serve a expressão, tece o texto, burila a palavra. Tudo para visar à comunicação. Acontecimentos reais e irreais enredam o leitor no sabor do inventado. O Gregg Tolland e o Justino Martins aportam em Bom Jesus e o autor, com diversos outros personagens, como Orson Welles, os faz participar da trama possível. Como num filme, numa sucessão de cenas, de situações, o leitor é conduzido num mundo de sentidos que misturam informações, vida (experiência) e situações fictícias.
O autor do excelente Vitrola dos Ausentes não escreve de modo linear. Recria na linguagem o mundo. A linguagem faz o romance, com seus toques de ousadia. E isso pode dificultar o leitor inexperiente. Mas o leitor competente tira o máximo de prazer. Ler é usufruir a beleza, viajar na imaginação. O estilo depurado, pessoal, de humor sutil, projeta novas categorias estéticas. Os jogos de linguagem universalizam o particular, personalizam o coletivo, presentificam o passado e o futuro, globalizam o regional, retiram os personagens do cotidiano para consagrar seus sonhos e desejos, aspirações e necessidades.
- Paulo Ribeiro é autor de 12 livros publicados. É uma notável produção. Li Chegaram os Americanos num fôlego. Primeiro, as 50 páginas. Após o jantar, as demais. Assumi nas duas primeiras páginas a atitude de quem quer entrar no ritmo da escrita. Depois fui levado, puxado, pela leitura. Li correndo associações, notas, anedotas, registros, nomes famosos, notícias, pensamentos, situações, história e estórias.
- Júlio Cortázar, numa entrevista, afirma que um texto bem elaborado exige a ausência de elementos inúteis e negativos. Quando se podem cortar pedaços de um texto sem perder nada de sua expressão, é sinal evidente de que ainda não havia alcançado o acabamento necessário. Não se deve ter medo de retirar sobras. Nisso, Paulo Ribeiro é mestre. Seus textos são feitos com a palavra necessária, sem retórica, sem enfeites. Os bons textos eliminam o acidental, as firulas, as repetições. A tensão do estilo nasce unicamente do que é necessário para dizer algo.
- As palavras e a narrativa formam o estilo, o caráter da escrita, o desvio do comum, a invenção do novo. O segredo está na coerência entre o modo de contar e o que é expresso. Existem escritores que usam a linguagem e as técnicas consagradas. Outros renovam a linguagem e a organização dos textos. Esse é o caso de Paulo Ribeiro. Escreve com personalidade própria. Foge do trivial. Transforma o comum em algo extraordinário.
- Os romancistas do passado fazem longas descrições, às vezes, chatas. Ribeiro só escreve o essencial. Está mais para o cinema do que para a pintura. Seu romance não tem medo de mostrar a estrutura óssea da narrativa. Tudo é simples e, ao mesmo tempo, radical, isto é, das raízes. O romance quase poema informa, brinca, sugere, crítica, ironiza. Tende-se a lê-lo de pressa, mas só se pode usufruir sua leitura lendo-o devagar.
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