
Para Juliano Carpeggiani, cinema é a arte indo ao encontro da comunicação
O curta-metragem O País da Cocanha, de Juliano Carpeggiani, foi o vencedor do Prêmio Absoluto do Concorso Memorie Migranti, na Itália. O recente reconhecimento dá novo impulso à trajetória do ex-acadêmico de Publicidade e Propaganda, que colocou Flores da Cunha no mapa da produção audiovisual internacional.
Sócio-diretor de uma agência de comunicação e branding voltada para a gestão de marcas, Juliano ainda comanda a Cosmonauta Filmes e desenvolve projetos com a Alecrim Produções Culturais e a Supernatural Filmes.
Qual foi a sensação de receber esse prêmio?
Ainda não caiu a ficha e, honestamente, espero que nunca caia. Houve uma badalação na Itália logo após a premiação, em que se anunciava que um jovem diretor ítalo-brasileiro era o vencedor do festival. Procurei canalizar isso para o filme, que é o mais importante nisso tudo. Essa premiação está fazendo muitas pessoas quererem ver o curta. E espero que ao assistirem elas sejam tocadas de alguma maneira. Principalmente os descendentes mais jovens, que não entendem sua origem, que acham engraçado ou vergonhoso o sotaque dos avós.
Como vê o cenário da produção audiovisual no Estado?
O cinema gaúcho estagnou já faz alguns anos. Desde O Homem que Copiava, primeiro longa comercial do Estado a fazer sucesso em circuito nacional, não há nada de novo. Nenhum grande prêmio a ser comemorado, nenhuma bilheteria significativa. Em compensação, a vocação do audiovisual gaúcho foi parar na TV. Estamos em uma progressiva melhoria de qualidade narrativa, experimetações de formatos, além da certeza de público. O Histórias Curtas vem apostando em projetos menos convencionais, formando público. Na Serra, temos uma grande referência que é o André Costantin, possivelmente o melhor documentarista do RS. É um exemplo de realizador caprichoso, comprometido com os resultados, humilde.
De que precisa para ser feliz?
Conhecimento. Buscar saber mais é muito estimulante.
Uma cena de cinema?
Os balões coloridos tomando o céu, fazendo a casa levantar voo e sobrevoar a cidade em Up Altas Aventuras.
Quem são os grandes mestres da sétima arte?
Jean-Luc Godard, Federico Fellini, Stanley Kubrick, Billy Wilder e Clint Eastwood.
Quem são os maiores talentos do cinema mundial hoje?
Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar, Christopher Nolan, Joel e Ethan Coen, Sofia Coppola e David Lynch.
O que ama e o que não suporta compartilhar numa sessão?
Não canso do ritual. Sentar, esperar as luzes se apagarem, a projeção começar, e durante duas horas fazer parte de algo extraordinário. Ir ao cinema é uma atividade coletiva, e se você está disposto a compartilhar uma sessão com outras 300 pessoas, tem de saber que a regra número um é o respeito. Se já é inadmissível ouvir uma conversa ou um celular tocar, muito mais é quando uma tela surge brilhando no meio da plateia. Ver uma luz vindo de onde quer que seja, fora da projeção, quebra todo o envolvimento com o filme.
Um filme que o fez chorar?
Um Doce Olhar, de Semih Kaplanoglu.
Um filme que jamais deveria ter sido produzido?
Nine, do Rob Marshall. Um remake de mau gosto de 8 1/2, do Fellini.
Se pudesse salvar apenas uma obra do cinema, qual seria?
Cantando na Chuva. Cinema em estado puro, na sua melhor representação.
O Oscar eterno vai para...
Um filme que nunca foi premiado pela Academia: Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone.
Um gosto inconfessável?
Filmes de zumbi. Todos eles.
Não coloca a mão no fogo por...
... diretores de vídeos financiados por edital público que se autoproclamam cineastas.
Sua paixão pela sétima arte já o levou à loucura de...
Largar a faculdade de Publicidade e Propaganda no quarto semestre, quando a Unisinos divulgou a abertura da graduação em cinema para o ano seguinte.
O que é possível fazer com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça?
Comunicar-se. As pessoas entendem que cinema é somente arte e esquecem que, na verdade, o cinema é a arte encontrando a comunicação. Se os novos realizadores entendessem isso, provavelmente teríamos muito mais produções de qualidade. Vivemos numa era em que a câmera na mão e a ideia na cabeça ocorre a toda hora. Basta gravar com celular e subir no You Tube. A diferença é como vai comunicar, pra quem e com que foco.

Filme: Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone
Música: Álbum de estreia do The Drums (2009)
Hobby: Twitter
Viagem: As praias da Nova Zelândia
Restaurante: El Pueblo (Porto Alegre)
Tempero: Manjericão
Acessórios: Tênis
Livro: Atualmente, Barbudos, Sujos e Fatigados, de Cesar Campiani Maximiano
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