Porto Alegre – Patrícia Galvão (1910 - 1962) publicou poemas e ficções, escreveu sobre arte e política, pode ser lida em coletâneas que vêm sendo compiladas há décadas. O melhor da autora paulista, no entanto, não está nesses registros. Trata-se de um daqueles casos em que a vida da artista foi maior que a obra que ela deixou. País de poucas biografias aprofundadas e independentes, o Brasil é um dos únicos lugares em que um mito como ela sobrevive sem livros mais conclusivos sobre sua trajetória. Pagu foi mais do que a musa do Modernismo, rótulo ao qual é frequentemente reduzida.
Tida como modelo comportamental por afrontar o conservadorismo da sociedade, sobretudo nos efervescentes anos 1920, Pagu viveu e morreu pelas causas que adotou como suas: o comunismo, o teatro, a arte de caráter nacionalista. Presa e torturada no Brasil e depois na França ocupada durante a 2ª Guerra, inspirou artistas modernos, muitos dos quais, nos anos seguintes, entrevistaria como jornalista.
Agora, acaba de ganhar a fotobiografia Viva Pagu. Fruto de uma pesquisa de 20 anos, o livro traz documentos, imagens e textos inéditos, além de um apanhado amplo de sua história. Pode-se ver, agora em detalhes até então desconhecidos, que não é uma história ordinária – nem no contexto do Modernismo brasileiro, nem no Brasil do pós-Guerra.
Viva Pagu é o mais completo registro de preservação da memória de Patrícia Rehder Galvão. Assinado em parceria com o segundo e último filho de Pagu, Geraldo Galvão Ferraz, o livro resume o trabalho de pesquisa de 22 anos da professora Lúcia Furlani, da Universidade Santa Cecília, de Santos (SP), onde a biografada viveu seus últimos anos. Conforme expressão da pesquisadora, a obra mapeia as “muitas vozes” da escritora e jornalista, da jovem revolucionária sedutora e enigmática à mulher angustiada diante da vida.
“Nada era convencional em Pagu”, diz Lúcia, que empilha adjetivos sobre ela. Pagu nasceu em junho de 1910 na região cafeeira entre São Paulo e Minas, numa tradicional família de imigrantes, mas cresceu no Brás, capital paulista. Do convívio com operários da região, tirou a inspiração do romance Parque Industrial (1933), seu texto mais conhecido. Os escândalos começaram nos anos 1920, com o namoro proibido com o cineasta Olympio Guilherme. Foi com ele, aos 11 anos, que Pagu perdeu a virgindade – “sem violência, em algo provocado por mim”, ela diria mais tarde, em texto reproduzido na fotobiografia.
Aluna de Mário de Andrade, depois virou objeto de adoração de Raul Bopp, que lhe cunhou o apelido e lhe dedicou o muito difundido poema Coco de Pagu. Adotada pelo casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, forjou um casamento para sair de casa. Aconteceu de Oswald largar Tarsila para ficar com Pagu, o que originou uma relação turbulenta e muitas decepções.
Apesar do material inédito e de sua riqueza visual, Viva Pagu não dá conta, detalhadamente, de todas as turbulências de seus 52 anos. Sua produção jornalística, por exemplo, não coube no livro-álbum, mas será reunida numa coletânea a ser lançada ainda este ano também pela Unisanta e a Imprensa Oficial de SP.
| No cinema |
| e tevê |
| Patrícia Galvão já ganhou as telas no longa Eternamente Pagu (1988), dirigido por Norma Bengell e estrelado por Carla Camurati. A escritora também foi retratada em dois documentários de curta-metragem: Eh Pagu Eh (1982), de Ivo |
| Branco, e Pagu Patrícia Galvão: Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo (2001), de seu filho Rudá Andrade e do diretor Marcelo Tassara. Apareceu ainda como personagem da minissérie da TV Globo Um Só Coração (2004), vivida por Miriam |
| Freeland. |
| - Título: Viva Pagu - Fotobiografia de Patrícia Galvão |
| - Autores: Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz. |
| - Editora: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Unisanta (348 páginas) |
| - Preço: R$ 63 |
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