clicRBS
Nova busca - outros
  • Caxias do Sul
  • 27 de maio de 2012

O PIONEIRO - Jornal de Caxias com notícias, esportes, colunistas e mais

18/03/2010 | N° 10690Alerta Voltar para a edição de hoje

COTIDIANO | CIRO FABRES (INTERINO)

  • O CENÁRIO DO SALGADO FILHO

    Costumamos não ver. Afinal, é tudo muito rápido, passamos correndo e desabituamos de parar por conta própria, pisar no freio, fazer uma pausa para refletir sobre o que acontece, e por que acontece. Guardar um momento para isso durante o dia, não há decisão mais sábia. Se passar pela vida correndo é uma imposição da sobrevivência e de nossos compromissos, muitas vezes de nossa ganância desenfreada, submeter-se à correria não é a escolha mais inteligente e mais humana.

    Preferimos não ver, fechar os olhos, mas situações degradantes, desumanas, seguem acontecendo a nossa volta. Por isso, é preciso fincar pé diante de escândalos que surgem a nossa frente, sob risco de eles não serem percebidos como tal, mas tão somente como mais uma história fugaz que o jornal nos conta, e a vida segue. Essa história da avó que leva os netos pequenos para o local de trabalho da filha que se prostitui em uma rua do bairro Salgado Filho é inacreditável. Certamente que o roteirista de algum filme não fosse capaz de vislumbrar enredo sequer parecido do que se encontra aqui, em nossas ruas. A realidade é imaginosa, que era cruel nós já sabíamos. Há poucos dias, o mesmo jornal nos mostrou uma dona de casa no bairro Reolon que abriu sua geladeira, e ela estava vazia.

    Alguns, mais práticos e enrijecidos alegrarão não serem causadores de semelhantes absurdos, e tocarão em frente. Rápidos, como sempre. Talvez fiquem até brabos e considerem uma impertinência o desnudar de cenas terríveis, e saiam a resmungar. Outros lembrarão que a família não quer se ajudar. Mas se não temos responsabilidade direta nessas situações degradantes, temos a indireta, e torna-se essencial a constatação, a reflexão, o exame da postura individual diante delas, a cogitação de alternativas, a identificação de quem, entidades, ONGs, pessoas físicas ou administração pública, pode e deve fazer alguma coisa. Para isso, é essencial deixar-nos sacudir pelo que nos circunda, parar um momento, reaprender a se comover.

    A vida nos apresenta uma avó que leva os filhos até o local da prostituição da mãe. Mas a vida não é protagonista nem uma entidade que nos apresenta situações caídas do céu.

    Nós todos produzimos, ainda que indiretamente, o terrível cenário do Salgado Filho. E se alarmar com ele é o mínimo admissível para seres humanos.

Grupo RBSDúvidas Frequentes| Fale Conosco | Anuncie - © 2000-2012 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.