Reminiscências de pouco ou quase nada ajudam
depois que você já está
desgovernando um caminhão entupido de
combustível pela Terra Devastada. Mas pode
acreditar ou não, houve um tempo no futebol
em que os escanteios eram cobrados acima dos
joelhos e as faltas acima das barreiras –
porém ainda abaixo do limiar dos refletores
do estádio, numa inconcebível
demonstração de
equilíbrio.
Sim, era outro tempo. O futebol ainda parecia fazer
parte do mundo real. Pois ao menos remotamente
lembrava aquilo que um dia foi o máximo
denominador comum entre geografia, sociedade e
anatomia. Ou algum dos gordos, vesgos, pernascurtas
e mangolões que batiam pelada na rua ou no
chão de terra sabe dizer com precisão
as origens, os patrimônios e as raças
de todos os envolvidos? Exceto do cara que
combinava e não vinha, que esse realmente
tornava-se bem identificado.
Houve um tempo no futebol em que cabia só
à bola escolher quem seria digno de seus
favores. Qualquer um poderia ser o herói.
Só por um dia.
Dias que se passavam nos estádios. Que era o
local onde as pessoas se reuniam para testemunhar
epopeias de 90 minutos. Mas para outras coisas
também.
Nos estádios que cresci frequentando, para
aprender a falar palavrão longe da
mãe. Para se esquentar na misturinha de
doisdenberg com coca durante os antigos
Gauchões que seguiam inverno adentro. Para
ver senhoras idosas com cara de catequista fumando
e praguejando. Para se queixar que não
mandavam embora aquela ferida que estava a
três temporadas no clube, mal sabendo que
anos depois imploraria por algum maisoumenos que
ficasse além de seis meses. Para, no caso
destes velhos gringos, descobrir mais
motivação e companhia com quem
reclamar do governo – qualquer um, de
qualquer esfera em qualquer gestão –
ou do técnico, ou dessa gurizada que fica
aí, caminhando. Para vibrar e se irritar com
aquele traste de time que não ganha *erda
nenhuma. Para ver surgirem – e sumirem
– os heróis do homem comum de todo
dia.
Jamais importou se os jogadores não faziam
luzes ou escova nos cabelos, ou se não
usavam cremes, loções, hidratantes,
produtos que desafiam as propriedades da
testosterona, calças justas, flexões
verbais, ou se não ganhavam um
salário obsceno para um país
corrupto, ou se seus carros não voavam no
espaço. Nos estádios que cresci
frequentando, o Ca-Ju sempre foi o maior
clássico do mundo. Azar do mundo se
não percebe isso.
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