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  • Caxias do Sul
  • 9 de fevereiro de 2012

O PIONEIRO - Jornal de Caxias com notícias, esportes, colunistas e mais

04/02/2010 | N° 10653Alerta Voltar para a edição de hoje

PALAVRAS | GABRIEL IZIDORO

  • O maior do mundo

    Reminiscências de pouco ou quase nada ajudam depois que você já está desgovernando um caminhão entupido de combustível pela Terra Devastada. Mas pode acreditar ou não, houve um tempo no futebol em que os escanteios eram cobrados acima dos joelhos e as faltas acima das barreiras – porém ainda abaixo do limiar dos refletores do estádio, numa inconcebível demonstração de equilíbrio.

    Sim, era outro tempo. O futebol ainda parecia fazer parte do mundo real. Pois ao menos remotamente lembrava aquilo que um dia foi o máximo denominador comum entre geografia, sociedade e anatomia. Ou algum dos gordos, vesgos, pernascurtas e mangolões que batiam pelada na rua ou no chão de terra sabe dizer com precisão as origens, os patrimônios e as raças de todos os envolvidos? Exceto do cara que combinava e não vinha, que esse realmente tornava-se bem identificado.

    Houve um tempo no futebol em que cabia só à bola escolher quem seria digno de seus favores. Qualquer um poderia ser o herói. Só por um dia.

    Dias que se passavam nos estádios. Que era o local onde as pessoas se reuniam para testemunhar epopeias de 90 minutos. Mas para outras coisas também.

    Nos estádios que cresci frequentando, para aprender a falar palavrão longe da mãe. Para se esquentar na misturinha de doisdenberg com coca durante os antigos Gauchões que seguiam inverno adentro. Para ver senhoras idosas com cara de catequista fumando e praguejando. Para se queixar que não mandavam embora aquela ferida que estava a três temporadas no clube, mal sabendo que anos depois imploraria por algum maisoumenos que ficasse além de seis meses. Para, no caso destes velhos gringos, descobrir mais motivação e companhia com quem reclamar do governo – qualquer um, de qualquer esfera em qualquer gestão – ou do técnico, ou dessa gurizada que fica aí, caminhando. Para vibrar e se irritar com aquele traste de time que não ganha *erda nenhuma. Para ver surgirem – e sumirem – os heróis do homem comum de todo dia.

    Jamais importou se os jogadores não faziam luzes ou escova nos cabelos, ou se não usavam cremes, loções, hidratantes, produtos que desafiam as propriedades da testosterona, calças justas, flexões verbais, ou se não ganhavam um salário obsceno para um país corrupto, ou se seus carros não voavam no espaço. Nos estádios que cresci frequentando, o Ca-Ju sempre foi o maior clássico do mundo. Azar do mundo se não percebe isso.

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