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  • Caxias do Sul
  • 27 de maio de 2012

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01/12/2009 | N° 10598Alerta Voltar para a edição de hoje

PALAVRAS | EDUARDO DALL ALBA

  • A música da caixa

    Ouvi no rádio outro dia que uma mulher achou um caixa de música no lixo e que o nome dela é Catarina. Escutei a história que trouxe uma esperança para aquela mulher. Ela deu corda à caixa e a pequena bailarina começou a dançar a música que se ouvia, comum, de caixinha de música made in China, mas naquela hora, quando ela olhava para a bonequinha de plástico, sentiu a música nova, não ouvida por ela, enchendo o ar, os ouvidos, o corpo todo. Ela tremeu um pouco enquanto ouvia. Ela riu. O corpo todo riu. Ficou naquele momento pairando sob o lugar uma alegria.

    Era uma alegria assim, simples, mas não comum. Maior do que o dia ou do que os afazeres de Catarina, que é pobre, mas não é simples, porque achou um caixa de música em meio ao lixo e teve a sensibilidade de retirá-la de lá. Certa percepção das coisas faz a diferença, porque as coisas vicejam à luz do que se vê nelas. As pessoas são. As coisas são uma extensão do desejo do que se quer ver. Um pequeno objeto achado assim não diz muito, mas se tem música, diz algo e disse para a sensibilidade dela. Humana, simples e humana, tentando ver além da própria condição.

    Mas, é por isso que procuro durante o dia uma outra música, que é aquela breve alegria que muda o dia. Aí vem a chuva e uma ponta de pensar que me calo, repleto. Nasci com música e com chuva, no dia de Santa Bárbara. Santa das tempestades e das chuvas. Santa libertadora e alegre, nada de bailarina e algo musical, como nos trovões que fazem tremer a terra; e Bárbara apenas nisso. Sempre penso na Santa quando, segundo a lenda, rezei pedindo chuva depois da estiagem, mas rezei tão forte que ela me atendeu: choveu a semana toda e forte e bastante.

    Neste ponto é que o rio encontra o mar. Por estes dias chove. E a chuva traz um pouco do ritmo, o mesmo que se empresta às caixas de música. É aqui que a chuva se transforma em ritmo de abertura de estação, e eu sinto a alegria breve do tempo passando pelo meu aniversário. Mas haverá sol neste dia porque é um dia por ano em que peço a Santa para que segure um pouco a vontade de chover. Depois não sei certo o cronograma dela, mas sei que enquanto escrevo a chuva vem forte, e nem a bailarina se importa de molhar-se. Depois, na hora de dormir, vou escutar quieto e calmo a caixa de música da chuva que continua enquanto descubro os ritmos diferentes que a noite oferece.

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