Caxias do Sul – A ideia de implantar a capina química na zona urbana de Caxias do Sul levou pesquisadores a contestar as afirmações sobre a inexistência de riscos desse sistema ao meio ambiente. A Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca) pretende utilizar agrotóxico, possivelmente o glifosato, para conter o crescimento da vegetação em meio a paralelepípedos e junto ao meio fio.
A prática é autorizada por uma resolução do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), desde que haja licenciamento e projeto detalhando dias, ruas e horários da aplicação do produto. Para entrar em vigor, a medida precisa de aprovação da Câmara de Vereadores, já que a iniciativa está vetada desde 2004 no município.
Na sexta-feira, em reportagem do Pioneiro, especialistas destacaram que o glifosato não deixa resíduos no solo e não escorre para a água, portanto, não ofereceria risco aos seres vivos. Mas a doutora em toxicologia e professora da Universidade de Passo Fundo Mara
Regina Calliari Martin tem
opinião diferente. Ela estuda os efeitos dos agrotóxicos no homem desde a década de 1980. Em 2006, ela realizou testes com ratas prenhes, aplicando doses diárias de glifosato de mil, duas mil e três mil miligramas por quilo do peso do animal. O número considerado tóxico é de 3,4 mil miligramas, segundo Mara Regina.
– A dose que usamos é 100 vezes menor do que a que pode causar danos aos humanos e em via oral, diferente do contato que os humanos têm, que é por via respiratória. Mesmo assim constatamos que os filhotes nasciam mal-formados e alguns morreram. Ele (glifosato) também pode causar alergias respiratórias. Inclusive, alguns filhotes desenvolveram bronquite – atesta Mara.
Em um levantamento realizado pela professora de janeiro a junho de 2006 com 779 famílias de 25 municípios do Alto Uruguai, 99% delas utilizava o glifosato na agricultura.
– Desse total, 46 mulheres tiveram aborto espontâneo, 119 alergias respiratórias e 89 tinham câncer. Também
45,45% tiveram intoxicação por
esses produtos – enumera.
O engenheiro agrônomo Luís Carlos Diel Rupp, do Centro Ecológico Ipê, em Ipê, vê com preocupação o projeto da Codeca. A organização não-governamental promove, há 25 anos, assessoria e capacitação em orientação ecológica a agricultores.
– Fazemos pesquisas sobre os impactos dos agrotóxicos no meio rural e eles não são inócuos à saúde e ao meio ambiente. Eles podem sim escorrer para o esgoto ou para os rios pelo calçamento – afirma Rupp.
O engenheiro destaca que há pesquisas que comprovam que pelo menos 10 ervas daninhas são resistentes ao glifosato.
– Há máquinas que utilizam vapor para limpar as ruas e que não causam danos – sugere.
juliana.almeida@pioneiro.com
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