Caxias do Sul – Aproveitando lacunas da legislação, superlotação prisional e falhas em procedimentos policiais, o tráfico de entorpecentes está vencendo a guerra contra a repressão em Caxias.
De acordo com um levantamento da Brigada Militar (BM), obtido com exclusividade pelo Pioneiro, 68,8% das pessoas presas e autuadas em flagrante por tráfico entre janeiro e o começo de junho estavam em liberdade no último dia 10 de junho.
Nesse período, foram detidas pela BM 126 pessoas com algum tipo de envolvimento com drogas. Dessas, 65 foram enquadrados pela Polícia Civil como usuárias e as outras 61 foram enquadradas como traficantes.
Enquanto os números preocupam o comando do 12º Batalhão de Polícia Militar (12º BPM), os traficantes nas ruas, três ou quatro dias depois de presos, reincidem.
De acordo com um soldado que prefere não se identificar, PMs estão perdendo a motivação, pois têm a certeza de que prenderão a mesma pessoa mais de uma
vez no ano. Para o tenente-coronel Júlio César
Marobin, o desconforto dessa situação se traduz em uma palavra: retrabalho.
– O fato de os traficantes não ficarem muito tempo presos nos incomoda muito. As ações contra o tráfico de drogas e tomadas de pontos de venda sempre são perigosas. Toda vez que isso acontece, precisamos expor os PMs a um risco – afirma o oficial.
Marobin, que fez do combate ao tráfico de drogas, ao lado das apreensões de armas e capturas de foragidos, a principal meta de trabalho da BM caxiense em 2009, garante que as ações sempre seguem um planejamento estratégico.
– Nós trabalhamos com informações e denúncias. Desta forma, direcionamos nosso policiamento para áreas onde acontece o tráfico. A BM só faz a prisão se forem preenchidos os requisitos do flagrante. Se reunir a materialidade, a autoria e a situação de flagrância, levamos as pessoas presas – assegura.
Entretanto, na maioria dos 61 casos de prisões por tráfico da corporação, o flagrante não é
suficiente para manter suspeitos presos, já que 42
estão em liberdade, de acordo com os dados do 12º BPM.
– No dia 23 de maio, prendemos uma jovem com uma quantidade de crack suficiente para ser transformada em 200 pedras. No dia seguinte, ela já estava em liberdade. Uma semana depois, ela foi presa no mesmo lugar, só que com uma quantidade equivalente 300 pedras de crack. A BM calcula que cada grama de crack seja transformada em quatro pedras. Mais uma vez ela foi para o presídio e foi posta em liberdade. Não queremos que todos as pessoas que prendemos fiquem recolhidas para sempre, mas pelo menos que fiquem o tempo suficiente para refletir sobre as suas ações – desabafa o capitão Marobin.
guilherme.pulita@pioneiro.com
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