Aos 21 anos, Lia (nome fictício) pesava 62 quilos e queria afinar a cintura. Ela nunca fora gorda mas, desde a adolescência, havia feito vários regimes. O problema é que, quando atingia o objetivo, abandonava o cardápio saudável e recuperava o peso perdido. Em 2005, a estudante caxiense decidiu que seria determinada. Emagreceria e não voltaria a engordar. Acabou adoecendo. Em sete meses, Lia chegou aos 38 quilos para seu 1m63cm de altura. Estava subnutrida e correu o risco de morrer de inanição.
– Eu me olhava no espelho e me enxergava a mesma. Só tive a noção de que estava muito magra no dia em que vesti uma calça tamanho 34 e ela ficou larga. Mas já estava tão debilitada que não tinha controle. Preparavam paneladas de comida para mim e eu sentia náuseas – recorda ela.
Lia sobrevivia à base de pequenas porções de verduras, frutas e iogurte. Passava a maior parte do dia trancada em casa. Na rua, quando enxergava uma pessoa gorda, sentia aversão. Sofria por estar daquele
jeito.
– Sentia
uma angústia de morte, mas não conseguia admitir que estava doente. Quando o ciclo da anorexia se desencadeou, eu perdia dois quilos num dia. Não era meu objetivo inicial virar pele e osso – conta.
No dia em que Lia foi arrastada pela irmã a um consultório, estava esquelética, seu organismo manifestava os efeitos graves da falta de alimentação: úlcera, unhas e cabelos quebradiços, pele ressecada, baixa pressão arterial e hipotermia em função da perda drástica de gordura, que retém calor.
– Estava tão mal que sentia dor nos ossos. Não tinha fôlego nem para subir a escada de casa.
Para vencer a anorexia, ela teve de se amparar em uma equipe multidisciplinar:psicanalista, psiquiatra, endocrinologista, cardiologista e nutricionista. Hoje pesando novamente 62 quilos, Lia não quer emagrecer mais e diz que conseguiu reagir à doença quando entendeu as motivações psicológicas para tal.
– Meu corpo mostrava por fora toda a destruição que
existia por dentro. A negação da comida era a
negação da minha vida – diz Lia, que detalha:
– A anorexia foi o estopim de uma relação difícil com a minha mãe. Eu tive de ser uma criança adulta e estudiosa. Sempre fui isolada, nunca namorei. Eu me perguntava: o que eu tenho para contar de histórias? Minha vida era um livro em branco.
Essa sensação de vazio está sendo resolvida com terapia. O corpo ela trata bem.
| Tratamento |
| Cerca de 20% dos casos de anorexia terminam em morte e 30% passam a viver num vaivém de sucessos e recaídas. O tratamento de distúrbios alimentares é difícil e exige um grupo de profissionais: psicólogo ou psiquiatra, para tratar o emocional, endocrinologista para reparar os danos e nutricionista para readequar a dieta. |
| Fotos |
| Para conferir a campanha da fotógrafa alemã Ivonne Thein intitulada Thirty-two Kilos (32 quilos) acesse www.ivonnethein.com. |
| Blog |
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