A primeira vez que entrei na igreja antiga de Caravaggio senti um frio nas pernas, tremi a espinha, arregalei os olhos, fiquei com medo. O que eram aquelas muletas todas, aqueles pedaços de gesso, aqueles sapatos e coletes ortopédicos? Para que serviam aquelas fotos de crianças, aqueles bilhetes, aquelas flores de plástico?
Não sei se fiz essas perguntas aos meus pais, acho que não. Creio que eu tenha ficado intimamente tão assustado que não esbocei reações além das já citadas. Era uma cena de terror o que vi, de assustar o mais calejado cristão. Mas eu tinha só uns sete, oito anos.
Hoje, quando chego a Caravaggio, vou direto ao templo antigo. É que eu entendi o recado.
Aquelas oferendas todas, para agradecer e comprovar as graças alcançadas, hoje não me assustam mais. São do cenário da fé, são da gratidão humana diante do divino, são da nossa pequenez diante do sagrado.
Ter fé é algo que nem sempre se aprende na infância. Não me culpei na infância e não me culpo hoje por não ter entendido tantas manifestações de devoção. Mas aprendi a respeitar esse sentimento do homem que pede, que implora, que se ajoelha. Na infância ainda não temos capacidade de entender a força de um deus, de uma santa. Na infância se brinca, pouco se reza, e isso não é pecado.
Adulto, fui percebendo a grandeza de uma promessa, quando feita e cumprida. Com o passar dos anos, compreendi quem ruma descalço, quem carrega a cruz, quem ora em alta voz, quem chora. Estou ciente de que para tudo há motivos, de que a vela acesa é um significado.
Não vejo a hora de seguir a trilha dos peregrinos mais uma vez. Assim que chegar vou à capela antiga, como sempre.
Lá sentarei e cumprirei mais uma vez o simples e grandioso ritual da oração. Conto nos dedos as horas para que minhas pernas me levem ao santuário.
Lá chegando, quero aprender mais sobre a lição de ter fé. Hoje que perdi o medo daquelas oferendas que me assustavam, hoje que sou adulto e entendi o recado, quero me desculpar por qualquer mal-entendido. Nossa Senhora de Caravaggio sempre me entendeu mais do que eu.
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