Cada religião, cada igreja tem seus ritos, dogmas e liturgias. Assim, com todo respeito aos irmãos e irmãs de demais profissões religiosas, no dia 12 de outubro celebramos uma das festas mais populares do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. São milhões que recorrem aos santuários marianos. Em Blumenau não será diferente. Estamos recebendo a visita da imagem de Nossa Senhora, vinda do Santuário Nacional de Aparecida (SP).
É justo, necessário e oportuno celebrar a participação do feminino no Mistério existente em Deus. Visto que a hipócrita visão predominante de nossa sociedade pós-moderna coloca ainda o homem como um ser superior diante da mulher. Vivemos ainda em uma sociedade patriarcal influenciada por mentalidades machistas onde a mulher deve ser propriedade do homem. Foi necessário até mesmo a Lei Maria da Penha para amenizar esse machismo.
É nesse contexto que fica oportuno falar do ser mulher em Maria, gestora de Deus. O termo grego para “ave”, usado por Lucas, é
chairé. É a saudação grega
que corresponde ao “salamalek” dos árabes atuais ou ao “shalom lak” dos hebreus, podendo-se traduzir: salve ou a paz esteja contigo e/ou em meu coração há um lugar para ti! Existe uma conotação de alegria na palavra chairé, porque em grego alegria é “chara”, que tem a mesma raiz que charis, graça. A alegria brota da manifestação da graça.
Maria é convidada a alegrar-se por dois motivos. Primeiro, porque “encontraste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). Depois, porque Ela é “cheia de graça” (Lc 1,27), dois da Trindade – um Menino e o Espírito – se abrigaram na fertilidade do seu ventre virgem, isto é, do qual somente Deus pode tirar vida. Deus está nela, “veio sobre ela e a cobriu com sua sombra” (Lc 1, 35), apreciando a ternura da Mãe.
No momento da anunciação, o humano se recolheu num ponto decisivo em Maria. Tudo depende de seu “Fiat” (Faça-se), de seu sim. Ela é a Shekinah (Tenda Sagrada), é a presença de Deus no ventre fértil de Maria: “o templo do próprio Deus”. Ela
foi “concebida” para ser
o templo divino e para tornar-se Mãe de Jesus. Mãe que gesta o filho na periferia de Belém, Mãe educadora e Mãe que encontra o filho preso.
Sua maternidade é a mais pura exaltação de Deus. Somente Deus pode tirar vida de um ventre virgem. Com isso, ao celebrarmos Nossa Senhora Aparecida, Guadalupe, Fátima e outros títulos populares, ressaltamos o feminino em Deus e a importância das mulheres de todas as etnias.
O processo, uma vez iniciado em Maria, continua na história. Disso resulta o aprendizado: homens aprendendo com as mulheres a arte e beleza da gestação de filhos de Deus e mulheres que em Maria reaprendem tal arte, redescobrem a graça no feminino, rompem com o poder, tiram as burcas tecidas por mãos machistas para encantar o mundo com beleza e ternura.
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