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Jornal de Santa Catarina

06/02/2010 | N° 11855AlertaVoltar para a edição de hoje

PERFIL

PERFIL

Em autobiografia em forma de poesia, Nane Pereira mostra o que cerca seu mundo-formigueiro

Existe uma espécie peculiar de formiga em Blumenau. É a formiga-poeta. Ela habita uma região pequena no Bairro da Velha. Durante o dia, anda agitada, cuidando das obrigações do formigueiro. À noite, delicia-se com o frescor do vento, calmamente sentada, olhando o quintal. Alimenta-se da vida. Do bom e do mal do amor, das perdas, da simplicidade das plantas e borboletas e da complexidade das questões sem resposta. O nome científico desta formiga é Eliane Pereira.

A poeta Nane Pereira, 35 anos, ganhou o apelido de formiga ainda na infância, por ser agitada demais. Hoje, divide a casa com as formigas de verdade, com o ciumento gato João, com a nova amiga, a gatinha Alice, e com o filho de 13 anos, Ian Feldmann. O quintal recebe toda a atenção da poeta. Retira folhas da plantas, amassa para liberar o cheiro e oferece ao visitante, explicando de onde veio e para que serve. Tem plantas para chá, temperos, com frutos, para enfeite e até uma que atrai borboletas.

– As larvas adoram essa planta, e às vezes, de manhã, está cheio de borboleta voando no quintal – explica a poeta, enquanto uma borboleta voa tonta por entre as folhas.

As borboletas saem voando pelo quintal e de vez em quando pousam nas páginas escritas por Nane. Em seu primeiro livro, Particularidades, lançado no final do ano passado, há referências ao inseto, como no simples poema Cor Azul Céu: “Vista-se de amor, dance com o vento e borboletas de alegria te acompanharão.”

Os poemas do livro contam mais de 10 anos de vida. Há uma biografia escondida nas palavras. Existem poetas que se inspiram facilmente com o exterior. Nane é toda para dentro. Quando fala sobre sua obra, mesmo a contragosto, rapidamente os olhos brilham, ao mesmo tempo que procuram alguma fuga para o assunto. Dessa forma ela mostra como cada vírgula está impregnada de verdade.

Proteção

Quando conta histórias, Nane Pereira vai aos poucos se revelando. Fala emocionada da morte do pai, Nesto, como aparece no poema Protesto. Com certa raiva, questiona valores humanos, que aparecem em seus poemas mais robustos, e acalma-se ao falar novamente do quintal. Ao revirar as pastas organizadas com os escritos originais, conta do processo da publicação.

A caneta azul do professor Alfredo Scottini, que revisou as poesias do livro, assinala algumas vírgulas e sugere pequenas mudanças nas palavras das páginas amareladas pelo tempo. Da década de 1990 surge um desenho colorido com a palavra Particularidades escrita à mão. O projeto do livro era antigo, mas a segurança para lançá-lo só veio ano passado.

– Depois da correção do professor Scottini, perguntei se ele gostaria de escrever o prefácio, e ele respondeu ‘Eu já o senti’ – comenta em meio a um sorriso.

Nane agora está envolvida em outro projeto. O muro ao redor da casa. As mudas da planta trepadeira que cobrirá o cercado já foram plantadas. A formiga-poeta reforça a morada, buscando proteção física e espiritual. Até sai de seu refúgio, inspira-se no mundo, mas no final carrega tudo nas costas, volta para o formigueiro e transforma o que colheu em poesia.

vinicius.batista@santa.com.br

VINICIUS BATISTA
RETRATO
O espelho reflete
uma formiguinha
de um formigueiro
de gigantes incrédulos,
sanguinários,
de corações cardíacos.
Ela exaltada diz:
– Ah, esse surrealismo me fascina!

 


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