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Jornal de Santa Catarina

16/05/2013 | N° 12883AlertaVoltar para a edição de hoje

CINEMA

Prazer, João do Santo Cristo

Com coerência e simplicidade, filme Faroeste Caboclo é tão forte quanto a canção que o originou

Não tinha medo o tal João de Santo Cristo...” Se seguisse a risca os nove minutos seguintes da composição de Renato Russo que todo bom adolescente sabia de cor no fim dos anos 1980, a versão para as telas de Faroeste Caboclo tinha tudo para resultar em uma trama longa, inverossímil e cheia de clichês. O filme que estreia no próximo dia 30, no entanto, é um faroeste mais simples, coeso e tão forte quanto a canção que a originou.

Produzido por Daniel Filho, Faroeste Caboclo, exibido terça-feira à noite em sessão exclusiva para a imprensa de Brasília, tem o brasiliense René Sampaio na direção e contou com o escritor Paulo Lins no roteiro, autor do romance Cidade de Deus. Como na célebre favela carioca, Lins faz da trama um tratado sobre a formação da Capital Federal e suas primeiras tensões sociais.

– Era uma juventude que tinha que achar o que fazer nesse lugar plano em que não havia sequer um precipício para se jogar – resume Ísis Valverde, a Maria Lúcia do filme.

O encontro entre João e Maria Lúcia é simbólico. Ele, um imigrante à beira da criminalidade acomodado na Ceilândia, uma das caóticas cidades satélites para quem não tinha lugar na cidade planejada por Oscar Niemeyer. Ela, a princesinha maconheira na janela de um confortável apartamento funcional do chamado Plano Piloto, onde mora com o pai senador – vivido por Marcos Paulo, em seu último papel no cinema.

– João tem um pouco do espírito do Renato como trovador solitário. É como se ele tivesse pensado: e se eu fosse negro, baiano, como essa cidade iria se relacionar comigo? – diz Fabrício Boliveira, que interpreta o protagonista com firmeza e discrição.

Em nome de uma história coerente, muito da letra ficou de fora do roteiro, o que pode desagradar aos fãs mais xiitas da Legião Urbana. Mas não faltaram referências como a pistola Winchester 22 ou a Rockonha, presente naqueles versos cujo significado ninguém de fora de Brasília entendia até o advento do Google.

Entre as mudanças mais significativas, está o confronto final entre o mocinho e bandido Jeremias. O duelo é filmado com a brutalidade e os planos clássicos de um bom faroeste, mas sem a transmissão ao vivo em rede nacional. A escolha, que apela mais para a coerência interna da trama do que pela grandiloquência, é justificada pelo diretor Sampaio de forma mais criativa:

– Talvez o desejo de Renato se concretize agora. Só que em vez de o Brasil ver o duelo na TV, vai assistir no cinema. Para aí sim crucificar ou beatificar o João de Santo Cristo.

*Colaborou Rodrigo Saccone

lazer@santa.com.br

CAUE FONSECA*
Verso a verso
Confira alguns trechos da canção Faroeste Caboclo, de Legião Urbana, que retratados no filme:
“Quando criança só pensava em ser bandido, ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu”
O trauma é praticamente só o que é mostrado da infância de João na Bahia, embora seja fundamental para justificar a violência do protagonista.
“Logo logo os maluco da cidade souberam da novidade: ‘Tem bagulho bom aí!’ “
No centro do conflito está a inserção da droga produzida por João e seu primo nas cidades satélites na Brasília dominada pelo traficante playboy Jeremias.
“Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha e fez todo mundo dançar”
Festa verídica realizada em 1980, a Rockonha teve convites impressos em seda na gráfica do Senado. A galhofa terminou com intervenção policial. No filme, como na letra, vira cenário da história.

 


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