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Jornal de Santa Catarina

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06/01/2010 | N° 11828Alerta Voltar para a edição de hoje

MAICON TENFEN | MAICON TENFEN

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  • O filme do Lula (2)

    Mesmo que Lula nunca tivesse ocupado um cargo de destaque, sua história mereceria ser contada em imagens. Quem não gosta de uma bela saga de superação? Pra falar a verdade, a trajetória do presidente é tão incrível e exagerada que jamais ocorreria a um cineasta de bom senso. Chegou às telas graças à premissa do “baseado em fatos reais”, e é aqui que começa o nosso problema. De um lado, o filme nos mostra as tragédias de um personagem destinado a “algo maior”; de outro, vemos a atividade política, o aprendizado do sindicalista, a construção de um líder de massas. No primeiro caso, temos a emoção, a desgraça, as lágrimas; no segundo, uma aparente tentativa de racionalizar episódios da história recente do país.

    O filme deixa de ser filme e se transforma em peça de propaganda quando mistura as duas coisas e confunde os dramas pessoais com a atividade política de Luís Inácio. Por exemplo: logo depois de sermos emocionalmente contaminados com as cenas da morte da primeira mulher de Lula, somos forçados a acompanhar – com a mesma emoção! – os seus primeiros passos no sindicalismo. É assim que se constrói um mito, um messias, um salvador da pátria.

    Mas o pior vem agora: fabricar a imagem do “líder do povo” como um herói capaz de superar os obstáculos é um procedimento semelhante ao adotado por ditadores como Fidel Castro (Cuba, esquerda) e Francisco Franco (Espanha, direita). Tais procedimentos, entretanto, só se tornam possíveis graças ao controle das multidões, no caso com o paternalismo do Bolsa-Família, e ao aplauso inconsequente dos chamados formadores do opinião.

    Quando professores universitários ou jornalistas encantados com o filme vêm a público dizer que “Lula é maior do que o Brasil”, estamos patinando no processo democrático e ferindo a autonomia das nossas instituições. O mais engraçado é que Lula não precisava do filme para legitimar sua popularidade. No entanto, temos o filme, e com ele uma espécie de piada sobre a nossa ânsia de heroísmo e o nosso desejo de conforto sob as asas de um Grande Irmão.

    Pois é desse jeito que Lula é retratado na tela, um Grande Irmão orwelliano, o “escolhido” que traz equilíbrio à “força” sindical, já que não existe mácula, nem tropeço ou a menor sombra de erro no personagem. O Filho do Brasil não deveria ser criticado pelos opositores do presidente, mas por seus fãs, amigos, partidários. É o maior ato falho da nossa história presidencial.


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