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Mesmo que Lula nunca tivesse ocupado um cargo de
destaque, sua história mereceria ser
contada em imagens. Quem não gosta de uma
bela saga de superação? Pra falar a
verdade, a trajetória do presidente
é tão incrível e exagerada
que jamais ocorreria a um cineasta de bom senso.
Chegou às telas graças à
premissa do “baseado em fatos reais”,
e é aqui que começa o nosso
problema. De um lado, o filme nos mostra as
tragédias de um personagem destinado a
“algo maior”; de outro, vemos a
atividade política, o aprendizado do
sindicalista, a construção de um
líder de massas. No primeiro caso, temos a
emoção, a desgraça, as
lágrimas; no segundo, uma aparente
tentativa de racionalizar episódios da
história recente do país.
O filme deixa de ser filme e se transforma em
peça de propaganda quando mistura as duas
coisas e confunde os dramas pessoais com a
atividade política de Luís
Inácio. Por exemplo: logo depois de sermos
emocionalmente contaminados com as cenas da morte
da primeira mulher de Lula, somos forçados
a acompanhar – com a mesma
emoção! – os seus primeiros
passos no sindicalismo. É assim que se
constrói um mito, um messias, um salvador
da pátria.
Mas o pior vem agora: fabricar a imagem do
“líder do povo” como um
herói capaz de superar os
obstáculos é um procedimento
semelhante ao adotado por ditadores como Fidel
Castro (Cuba, esquerda) e Francisco Franco
(Espanha, direita). Tais procedimentos,
entretanto, só se tornam possíveis
graças ao controle das multidões,
no caso com o paternalismo do
Bolsa-Família, e ao aplauso inconsequente
dos chamados formadores do opinião.
Quando professores universitários ou
jornalistas encantados com o filme vêm a
público dizer que “Lula é
maior do que o Brasil”, estamos patinando
no processo democrático e ferindo a
autonomia das nossas instituições.
O mais engraçado é que Lula
não precisava do filme para legitimar sua
popularidade. No entanto, temos o filme, e com
ele uma espécie de piada sobre a nossa
ânsia de heroísmo e o nosso desejo
de conforto sob as asas de um Grande
Irmão.
Pois é desse jeito que Lula é
retratado na tela, um Grande Irmão
orwelliano, o “escolhido” que traz
equilíbrio à
“força” sindical, já
que não existe mácula, nem
tropeço ou a menor sombra de erro no
personagem. O Filho do Brasil não deveria
ser criticado pelos opositores do presidente, mas
por seus fãs, amigos, partidários.
É o maior ato falho da nossa
história presidencial.
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