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Jornal de Santa Catarina

30/07/2009 | N° 11692AlertaVoltar para a edição de hoje

ENTREVISTA

Dramaturgia em verso

DIRETOR JORGE FURTADO FALA SOBRE A SÉRIE DECAMERÃO, QUE ESTREIA AMANHÃ NA RBS TV

Atelevisão recebe uma safra de produções com pedigree de cinema, um tipo de parceria que se torna cada vez mais frequente. Depois de Fernando Meirelles fazer Som & Fúria, que foi ao ar no começo do mês, na RBS TV, Jorge Furtado fez algo quase artesanal: uma série de quatro episódios, baseada no Decamerão escrito por Giovanni Boccaccio no século 14, toda interpretada em versos.

A série, que será apresentada a partir de amanhã e nas três sextas seguintes, sempre depois do Globo Repórter, traz elenco de grandes nomes – Lázaro Ramos, Deborah Secco, Matheus Nachtergaele, Daniel de Oliveira, entre outros –, que interpretam personagens bastante arquetipais da Comédia Dell’Arte. São eles que amenizam qualquer resquício de radicalismo do texto, que resulta numa história leve e divertida, sobre sexo e dinheiro. O formato passou no teste de sucesso num programa especial que foi ao ar no dia 2 janeiro, e conseguiu 29 pontos no Ibope.

Como surgiu o projeto de Decamerão, que é tão diferente do que você faz, sempre tão contemporâneo?

Queria fazer alguma coisa de dramaturgia em verso. E também com o Decamerão, que é uma coletânea incrível de histórias. Foi muito apropriado, porque são fábulas, todas de humor, erotismo, com truques e artimanhas, que poderiam reunir uma trupe da Comédia Dell’Arte. E eu vinha na batida da comédia dell’arte desde Saneamento Básico (2007). Pensei em usar os contos do Decamerão, que podem ser interpretados pelos sete personagens da comédia dell’arte: é o triângulo amoroso – o marido rico, avarento e ciumento, a mulher que o trai, e um falso padre, que é o amante –, o casal de criados e o casal romântico.

Qual era o receio? O fato de ser interpretado em versos?

Há um preconceito contra a poesia, de que ela vai resultar em algo erudito e não popular. Mas eu argumentei que não, que a poesia é muito popular no Brasil através da música.

O mercado de coprodução com a TV está fervendo. Você tem uma produtora fora do eixo Rio-São Paulo e trabalha para a Globo. Como é?

É bacana, estou feliz da vida, porque a coprodução está aumentando, e diversifica a TV. Se tu produzes sempre dentro da casa, as coisas ficam meio parecidas, inevitavelmente. Mas se tu mandas o negócio para Pernambuco, Minas ou Rio Grande do Sul, fica diferente. Outra coisa é este cenário aqui, que é uma coisa muito específica. Não gosto muito de filmar em estúdio. A locação tem uma vivência que é quase um personagem.

E a liberdade que você tem, é total?
 

Total não existe nunca. Mas é uma liberdade grande, que tem a limitação do tempo, do custo, do clima. O erotismo do nosso Decamerão tem um limite de televisão, então eu não posso fazer cenas muito fortes de sexo. E nem quero, porque não acho que combine com comédia. Umas pessoas nuas transando não é engraçado – não tem como passar disso para a piada. Então, nosso erotismo é soft. Mas tem muita sacanagem, erotismo sugerido. É uma tradição da poesia brasileira, aquela coisa “ela deu o rádio e não me disse nada”, do Genival Lacerda.

Mas o subtítulo da série – A Comédia do Sexo – dá impressão de algo muito mais picante do que realmente é.

Sim. Tem um monte de sexo – mas eles rolam na cama e acabou. Acho mais legal, e muito mais erótico para falar a verdade, porque dá margem à imaginação. Tu não consegues fazer algo tão incrível quanto podes imaginar. Tem alguns caras que filmam sexo brilhantemente, como o Almodóvar, mas é muito difícil. Só tem uma coisa mais difícil de encenar do que sexo: futebol.

PATRÍCIA VILLALBA|AE

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