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Jornal de Santa Catarina

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Geral  |  24/08/2009 08h30min

Médicos batem ponto e saem sem atender pacientes em hospital de Florianópolis

Equipe da RBS TV flagrou comportamento de profissionais do Nereu Ramos

O descumprimento da carga horária de trabalho por médicos do Hospital Nereu Ramos, em Florianópolis, pode estar prejudicando o atendimento a pacientes da rede pública estadual. A denúncia foi exibida no domingo à noite pela RBS TV no programa Estúdio Santa Catarina.

Funcionários inconformados com o fato de alguns médicos baterem o cartão ponto e em seguida irem embora denunciaram a situação à reportagem, que fez imagens da entrada do hospital e acompanhou a rotina de médicos no horário em que eles deveriam estar na instituição.

As cenas mostraram, por exemplo, o cirurgião João José de Deus Cardoso chegando no início da manhã, registrando a entrada no cartão ponto, localizado na entrada do hospital, e minutos depois indo embora.

No seu carro, segue para uma universidade particular e ministra aula para uma turma de Medicina. O mesmo procedimento se repete em outro dia. O médico bate o cartão e depois segue para a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

No final da manhã, ele vai para um consultório particular. Com uma microcâmera, a reportagem confirma que ele atende no consultório a partir das 11h cobrando consultas de R$ 400.

No Hospital Nereu Ramos, não aparece no cartão ponto o tempo que ele ficou fora  —fica registrado apenas que ele entrou de manhã e saiu no final da tarde.

O médico cardiologista José Aloísio Della Giustina é outro que aparece registrando o cartão ponto cedo da manhã e saindo do local logo em seguida. Ele também é diretor-clínico de uma clínica particular.

Novamente com a microcâmera, a reportagem revela que o médico atendeu no local privado pela manhã e, à tarde, participou de um congresso.

— Vão de manhã, batem o ponto e voltam à tarde. Só o que funciona é o ponto, mas eles não estão lá para dar assistência. Alguns fazem uma horinha, tomam um café, saem pelos fundos, vão embora — contou um funcionário, que pediu para não ser identificado e se dizia envergonhado pela situação do hospital.

O terceiro flagrante da equipe do Estúdio Santa Catarina mostrou o médico radiologista Pedro de Luca na mesma cena: bate o ponto cedo da manhã e logo depois entra no seu carro e vai embora. A saída não havia sido registrada no cartão ponto, conforme apurou a RBS TV.

Ponto flexível

O diretor do hospital, Antônio Miranda, defendeu que apenas os médicos internistas (que atendem pacientes em ambulatórios ou enfermarias) têm "ponto flexível". A medida teria sido adotada em um acordo com a diretoria da unidade para melhor atender a demanda de pacientes.

Ele explica que se o médico tiver que cumprir a carga de 20 horas semanais, sendo quatro horas por dia, de forma integral, eles não terão como atender as emergências fora do expediente para que foram contratados. 

— Imaginemos que o médico venha aqui e atenda cinco pacientes em duas horas. Ele fica o restante do tempo na unidade e cumpre o horário de quatro horas. À tarde, se um paciente dele passa mal ou interna um outro doente, ele vai me dizer "Doutor, eu já cumpri meu horário". Eu teria que ter pelo menos três vezes o número de especialistas que dispomos hoje, para atender 24 horas por dia — alega Miranda.

Segundo o diretor, os profissionais que têm ponto flexível precisam "marcar num papel" os horários cumpridos e depois encaminhar a relação dos horários trabalhados à direção.

O que dizem os médicos flagrados

O radiologista Pedro de Luca disse à reportagem que esteve no hospital na data da gravação da reportagem, apesar de estar de férias, porque um outro profissional que havia ocupado seu lugar durante o período de afastamento estava de folga.

Ele explicou que teria batido o cartão por "automatismo" e que teria que pedir para a direção cancelar o registro.

Já o médico João José de Deus Cardoso, cirurgião toráxico, garante que o horário fora do hospital é compensado. Ele explica que em um único dia, por exemplo, pode ter de ficar até seis horas trabalhando em uma única cirurgia.

Se tivesse que compensar esse tempo extra no dia seguinte, o atendimento ao público seria prejudicado. Cardoso ressalta que no horário que esteve fora do hospital estava envolvido em alguma outra atividade.

A reportagem procurou o cardiologista José Aloísio Della Giustina na clínica particular onde é diretor. Um funcionário avisou que ele está de licença médica, inacessível, e que voltaria ao trabalho no dia 2 de setembro.

Assista à reportagem da RBS TV

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