Geral | 03/02/2012 20h51min
Há 25 anos, a notícia que estampava a capa do Jornal de Santa Catarina já era esperada. Nem por isso foi menos impactante. O Brasil já lidava com a situação há sete anos. Santa Catarina, há três. Mas no dia 3 de fevereiro de 1987, a população acordou com a confirmação: a Aids havia chegado em Blumenau.
O diagnóstico do primeiro caso na cidade deixou a população alarmada, num misto de medo e preconceito. Até mesmo os médicos e responsáveis pelos hospitais ficaram assustados. A cidade havia criado pouco tempo antes um programa municipal para a doença, mas mesmo assim a confirmação do primeiro caso causou surpresa e mostrou um cenário de despreparo.
O exame que diagnosticou a doença teve que ser feito em São Paulo. Hoje, são pelo menos 20 casos novos todo mês. Em 1987, um único paciente alterou o rumo do setor de saúde, que, atualmente com três centros especializados, não contava com nenhum. Para o início do tratamento, a cidade se viu diante de outro problema: não havia infectologista que cuidasse do caso.
— Lembro que assim que o Aníbal Nascimento, que era titular no cargo de coordenador do Centro de Saúde, voltou de férias, ele pegou os registros dos exames que tinham sido feitos e divulgou antes do que prevíamos — recorda Gílson Cândido, que coordenava o Centro de Saúde interinamente quando a doença foi constatada.
Primeiro portador teve o nome preservado
Mesmo com o nome preservado por questões de privacidade, o homem de 27 anos, que desde os 17 mantinha relações homossexuais, foi o símbolo do preconceito que se criou contra a doença. Altamente debilitado, o jovem havia perdido 12 quilos em apenas 30 dias, além de ter apresentado sintomas como fraqueza e cansaço. Em casa, recebia o tratamento, mesmo que precário.
Na época, ainda não existiam medicamentos que pudessem controlar a doença. Com o primeiro caso, as autoridades médicas focaram a prevenção como principal arma para que o vírus não se espalhasse. Mesmo assim, o desconhecimento e o descuido até hoje ajudam a manter o número de infectados em crescimento. Hoje, Blumenau tem mais de 1,6 mil pessoas com Aids.
Mesmo com o preconceito sendo um fator importante a ser trabalhado, o foco dos médicos na época, segundo Cândido, era a doença. De acordo com ele, os profissionais pretendiam mostrar às pessoas como o vírus se espalhava silenciosamente e precisava ser combatido. Nas edições que se seguiram depois do anúncio do primeiro caso, a repercussão do fato chegou ao Centro Administrativo Regional de Saúde, que considerou precipitado o anúncio por parte do Centro de Saúde.
Na justificativa do órgão, a divulgação poderia prejudicar a confiança do paciente em relação aos médicos que o atendiam. A apreensão por falta de conhecimento sobre a doença chegou até mesmo aos hospitais. No Santa Catarina e Santa Isabel, haviam setores de isolamento, mas as direções já haviam manifestado a vontade de não receber o paciente nas unidades, com medo que isso espantassem os outros pacientes.
Leia a reportagem completa no Santa deste fim de semana
Veja abaixo o depoimento de uma portadora do vírus da Aids de Blumenau que enfrenta a doença há quase seis anos:
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