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Variedades  |  03/09/2010 10h56min

Clube Kênia completa 50 anos com três dias de festa em Joinville

Local é o único clube afro em atividade em Santa Catarina

Rafaela Mazzaro  |  rafaella.mazzaro@an.com.br

Imerso em uma sociedade preconceituosa quanto as diferenças raciais, nascia um clube como forma de defesa contra a exclusão. Hoje, a tonalidade de pele já não é a principal motivação para a existência do clube joinvilense.

O que embala os últimos anos, dos 50 vividos pela Sociedade Kênia Clube, além da paixão pelo samba, também corre pela veia. O objetivo agora é preservar e valorizar a cultura afro dentro da própria etnia.

Conta Ideraldo Luiz Marcos, o Neco, presidente da diretoria do clube por dois mandatos seguidos e atual conselheiro fiscal, que até a década de 1960 Joinville mantinha o hábito de consagrar os descendentes de imigrantes e ignorar a existência afrodescendente, o que acontecia também, infelizmente, em outras cidades do Sul do País.

Em Joinville, a população negra era quase insignificante, se comparado ao grande número de louros de olhos azuis que por aqui fixaram residência. O resultado foi a criação de sociedades próprias para as descendências. Os clubes de bailes e atividades desportivas eram uma tendência, até porque não havia muitos atrativos até meados do século 20.

— O negro não tinha lugar de diversão. Podiam até ir nas domingueiras das sociedades, mas não podiam dançar, só ficar sentado —, relata Ideraldo.

Um dia antes das comemorações da independência do Brasil do ano de 1960, este gueto resolveu fundar um espaço próprio para lazer, onde tocasse o ritmo musical preferido e onde eles pudessem, enfim, dançar sem a preocupação de serem barrados.

Hélio Cardoso Veríssimo, José Francisco Ramos, Rubens Martins, Marcelino Rocha, Luis Paulo do Rosário, José Domingos Cardoso e Oziel Silva, levaram a ideia adiante e a batizaram com o nome do país que idealizavam para eles.

Paralelo ao clube, surgia também time de futebol, o Senegal.

— Essas pessoas queriam garantir qualidade de vida aos negros, inserindo-os em um contexto social —, explica o conselheiro que passou grande parte da juventude ali.

BERÇO DE FAMÍLIAS, LUTAS E VITÓRIAS

O clube também uniu a comunidade. Das festas dominicais, muitos casamentos saíram e famílias se formaram. Completando 50 anos, o clube atualmente cumpre uma função ainda mais complexa. Com o crescimento da cidade, há negros que não sabem da existência do Kênia.

— Nosso desafio é mostrar para a juventude que, se hoje ela pode frequentar qualquer espaço, é porque alguém precisou lutar por este direito —, afirma Neco.

O “clube da resistência”, como a diretoria presidida por Everaldo José Pereira intitulou os que permanecem levando a comunidade em meio a muita dificuldade, foi palco de muitas festas que trouxeram nomes da música como Agnaldo Timoteo, Almir Guineto, Marquinho Diniz, Reinaldo e Toninho Geraes.

Mas nem só de glória viveu a Sociedade Kênia Clube. Nestas cinco décadas, o salão já fechou e reabriu por diversas vezes.

— É a única sociedade que não tem sócios —, diz Ideraldo ao relatar a dificuldade de arrecadar recursos.

Por conta do caixa vazio, a diretoria precisou arrendar o salão na década de 90.

— Quando tomamos o clube de volta, não tinha mesas e cadeiras, e a água e luz estavam cortadas —, conta.

O resgate foi questão de honra para os poucos membros que ainda queriam levar a diante o clube. O Kênia não possui alvará para receber grandes eventos, portanto, promove pequenos encontros regados a samba e pagode, o que restringe a única fonte financeira.

A própria essência do clube mudou nos últimos anos. Como o preconceito já não é a motivação maior para a existência do Kênia, o objetivo é divulgar a cultura afro.

— Às vezes tem mais branco do que negro aqui. Não tem mais diferença —, brinca Zelândia Custório da Costa, a Fioca, que acompanhou o clube desde a fundação e hoje é a presidente de honra.

O reconhecimento da importância do Kênia para a sociedade joinvilense se refletiu na aprovação pelo Simdec do projeto para a comemoração do cinquentenário. A diretoria recebeu R$ 7,5 mil para organizar três dias de festa.

— O Kênia está começando a engatinhar para ser referência no Estado, já que é o único clube afro em atividade —, comemora Neco.

PRECURSORA DO CARNAVAL DE JOINVILLE

O Sociedade Kênia Clube foi a primeira a formar uma escola de samba em Joinville. A Escola de Samba Amigos do Kênia brincou o Carnaval pela primeira vez em 1968, com apenas 20 participantes e hoje volta para a data festiva com mais de 400 integrantes.

Apesar de ficar alguns anos sem entrar na avenida, a escola, agora chamada de Príncipes do Samba, neste ano retornou aos desfiles depois de 19 anos sem colocar suas alas na avenida.

A história do grupo carnavalesco começou quando Adelmo Braz, integrante do clube, juntou alguns jovens moradores e formou um bloco para o Carnaval de 1967. O bloco cresceu, passou a ser chamado de Escola de Samba do Clube Kênia e a competir com as escolas Unidos do Boa Vista e Acadêmicos do Serrinha, sendo campeã por 13 vezes.

Com o incentivo da construção de uma nova sede do clube, e com o apoio da Secretaria de Turismo de Joinville, formou-se uma comissão que resolveu batizar a escola com um nome que homenageasse o popular apelido da cidade.

O nome Príncipes do Samba ecoou na rua do Príncipe por mais quatro anos até que, a partir da década de 90, o Carnaval perdeu forças, período em que o clube também passou por crise.

Os integrantes mais antigos lembram que um dos desfiles mais marcantes foi justamente o primeiro. Em 1986, a escola fez uma homenagem a Joinville. Apesar de pequeno, na época Joinville tinha o terceiro maior Carnaval de Santa Catarina, perdendo apenas para Florianópolis e Laguna.

A ideia é de que todos os anos o salão se transforme em galpão para os preparativos da escola. Com incentivo de editais, a Príncipes do Samba já se prepara para fevereiro do próximo ano. 

O samba-enredo ainda é surpresa, mas a expectativa é de que a participação da escola seja ainda mais gloriosa. No dia 18, haverá um ritual de batismo, onde a Príncipes do Samba se tornará oficialmente uma afilhada da Portela, com a presença de Monarco e Marquinhos Diniz, principais representantes da escola de samba carioca.

A FESTA JÁ VAI COMEÇAR NESTE SÁBADO

O meio século será comemorado com três dias de festa. Sábado, 12 ex-presidentes e ex-diretores da sociedade serão homenageados. Para animar o encontro, haverá a apresentação do Grupo Fundo do Baú, conhecido na região pelo repertório de sambas que marcaram época e enredos de escolas de samba. O evento inicia às 20 horas, com entrada gratuita e aberta ao público.

No domingo, a sociedade promove o Encontro do Samba com o grupo Tempero da Cor e convidados: Sandro (Grupo Samba por Inteiro), Paulão (Imperadores do Samba), Marcelão (Bera Samba), Paulista (Fundo do Baú), Pepinho (Artifício), Rogério (Grupo por Acaso), Pia (Cor do Samba) e Richard (Novo Sonhar). O samba inicia às 14 horas. A entrada custa R$ 5.

No dia em que completa 50 anos, na segunda-feira, o clube promove um baile com a Pop Band. O evento inicia às 23 horas. Os interessados podem reservar a mesa para quatro pessoas no valor de R$ 80, ou na hora com entrada individual por R$ 25.

SERVIÇO
O QUÊ: aniversário de 50 anos da Sociedade Kênia Clube.
QUANDO: Sábado, às 20 horas; domingo, às 14 horas; e segunda-feira, às 23 horas.
ONDE: na sede do clube, rua Botafogo, 255, Floresta, Joinville.
QUANTO: no sábado a entrada será gratuita. Para o domingo, ingressos a R$ 5. No baile de segunda, serão vendidos mesas a R$ 80 e ingressos individuais a R$ 25.

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