Política | 26/11/2009 01h03min
Uma investigação sigilosa da Câmara apura denúncia de que o secretário de Educação e deputado licenciado, Paulo Bauer (PSDB), teria contratado servidores para o gabinete do suplente Acélio Casagrande (PMDB) e repassado o salário a um colega de partido.
Em uma gravação de áudio entregue à Casa por um ex-assessor de Casagrande, Bauer menciona o uso de uma mulher como laranja para repassar o salário ao aliado político Fábio Dalonso, ex-presidente da Câmara de Vereadores de Joinville.
De acordo com o corregedor da Câmara, deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), servidores envolvidos no caso estão sendo chamados para depor. Bauer foi convocado e negou o caso por escrito.
— Se houver a comprovação de que o parlamentar agiu irregularmente, será encaminhado ao Conselho de Ética, onde pode responder por quebra de decoro. O que precisamos é esclarecer todos esses fatos — afirma ACM Neto.
A gravação envolvendo Bauer
foi divulgada nesta quarta-feira pelo site
Congresso em Foco. O grampo foi feito por José Cláudio da Silva Antunes, ex-funcionário do deputado. Na conversa gravada em 27 de maio, Bauer teria afirmado que indicou para o gabinete de Casagrande a servidora Selma Batista dos Santos.
— O dinheiro que essa mulher (Selma) recebe é passado mensalmente para o Fábio Dalonso, dia 20, 25 — teria dito Bauer na gravação.
Nomeada para o cargo em 9 de fevereiro, com um salário de R$ 4.020, Selma é cunhada do servidor que fez a denúncia. O salário foi reduzido gradativamente até chegar a R$ 721,09.
Casagrande garante que Selma comparecia ao gabinete e que foi demitida três meses após a contratação.
— Eu exonerei quando vi que o rendimento dela era pouco — justifica.
Casagrande assegura que não tinha conhecimento de que Selma repassaria o salário para Fábio
Dalonso, apoiador do secretário no Estado. Antunes afirma que Selma nunca compareceu ao gabinete e que o dinheiro recebido pela servidora era repassado diretamente para João Santos, ex-chefe de gabinete de Bauer e que atualmente é assessor de Casagrande.
— Essa pessoa (Dalonso) ninguém conhece aqui — diz João Santos.
Antunes foi demitido no dia 5 de agosto, depois que Bauer foi relacionado ao caso das passagens aéreas pagas pela Câmara.
Acompanhe a transcrição da gravação
Bauer - Bom, a verdade é a seguinte. Os que eu contratei todos trabalham, de lá do estado. A Mirela, a Mirela trabalha, o [inaudível] trabalha, o Reginaldo trabalha (...) A mulher do Petrônio trabalha. São pessoas conhecidas e identificáveis.(...) Só uma pessoa de Brasília que foi colocada, a meu pedido, porque não dava para colocar o Fábio Dalonso.
Cláudio
- Huhum...
Bauer - Certo? Isso por um tempo. Agora, tanto é que o
dinheiro que essa mulher recebe é passado mensalmente, pro Fábio Dalonso, dia 20, 25. Não sei se você tem conhecimento disso.
Cláudio - Não tenho não, senhor.
Bauer - Pra todos os efeitos, uma pessoa, eu pedi pro João, se ele poderia encontrar alguém que poderia emprestar o nome.
Gravação feita pelo ex-servidor José Cláudio da Silva Antunes, não autorizada pela Justiça. Entregue para a Corregedoria da Câmara que abriu investigação
Defesa duvida de gravações
Nomeado por Paulo Bauer, o advogado Péricles Prade disse que foi surpreendido pela denúncia de que o secretário teria contratado uma funcionária para desviar verba do gabinete. Segundo Prade, Bauer nega a existência de esquema de contratação de "laranjas" para repassar parte dos salários para terceiros.
O advogado afirma que
solicitará a perícia das gravações, pois suspeita que possa ter havido alguma montagem.
Prade conta que foi contratado
pelo deputado há cerca de um mês para elaborar a defesa no caso de acusações envolvendo a venda de passagens aéreas. De acordo com Prade, em fevereiro o ex-servidor da Câmara dos Deputados José Cláudio da Silva Antunes teria ligado para Bauer para falar sobre alguns problemas que ocorreram no gabinete.
O deputado foi ao encontro do servidor, em Brasília, em maio, quando Antunes teria lhe confessado que havia vendido cerca de R$ 45 mil dos créditos para aquisição de passagens aéreas, que haviam sobrado do mandato parlamentar encerrado em fevereiro de 2007.
Durante a conversa, o secretário teria pedido que Antunes assinasse uma declaração confirmando que Bauer não tinha conhecimento e nunca havia autorizado a venda de passagens.
O documento foi, segundo Prade, assinado pelo servidor e registrado em cartório. Dois dias depois, Antunes foi ouvido pelo Departamento de Polícia Legislativa (Depol), confessou que tinha vendido as passagens, alegando que
havia sido obrigado e apresentou a
gravação feita durante o encontro com Bauer.
Quanto à suposta contratação de uma funcionária para repassar o salário para Fábio Dalonso, Prade diz que Bauer nega todas as acusações. O advogado afirma que foi surpreendido com esta gravação e que não poderia comentá-la a fundo, pois precisava ouvir seu teor.
Prade destaca que Bauer não se lembra se mencionou o nome de Dalonso na conversa com Antunes, mas que não teria dito nada a respeito de pagamentos.
À tarde, Bauer emitiu nota com 26 itens, a maioria sobre o caso das passagens. Leia ao lado.
Ex-servidor diz que funcionária contratada nunca compareceu ao gabinete
Aos 37 anos, José Cláudio da Silva Antunes é o pivô das acusações contra o secretário de Educação. Ele conversou com o Diário Catarinense nesta quarta-feira, por telefone.
DC - O que o
senhor questionou ao secretário Paulo Bauer que o levou a admitir a contratação de servidores fantasmas?
José CIáudio Antunes - Isso foi sendo tratado enquanto a gente conversava sobre a declaração que eu iria prestar à Câmara sobre o escândalo das passagens aéreas. Como eu vi todo o processo das contratações para o gabinete, tentei avisá-lo. Aí ele admitiu.
DC - Ele soube que a conversa estava sendo gravada?
Antunes - Não. Foi em sigilo. Eu queria manter a minha integridade física e moral.
DC - Por que repassava o dinheiro para o Fábio Dalonso, em Joinville?
Antunes - Não sei. Quem fazia os depósitos para o Fábio Dalonso era uma secretária do gabinete do Acélio (Casagrande). Eu mesmo fui exonerado em 5 de agosto e ainda fiquei dois meses em casa, recebendo.
DC - O que fez o senhor denunciar
contratações?
Antunes - Dia 29 de maio eu fui procurar o gabinete do presidente Michel Temer (PMDB-SP) para fazer a denúncia da venda de
passagens e dos fantasmas. Mas não consegui falar com o Temer.
DC - O que o senhor fez então?
Antunes - Entreguei ao Departamento de Polícia da Câmara às 19h30min do dia 29 de maio.
DC - E sobre a Selma dos Santos, ela trabalhava?
Antunes - Não, ela nunca compareceu ao gabinete. Uma funcionária do gabinete procurou meu irmão, dizendo que precisava de uma pessoa só para emprestar o nome. E meu irmão colocou a namorada dele, a Selma.
O que disse Dalonso
O ex-vereador Fabio Dalonso (PSDB) insistiu para que fossem procurados os donos das vozes na gravação. "Que envolvimento posso ter com essa conversa?", questionou o tucano, hoje funcionário de uma empresa de informática e móveis de escritório em Joinville.
Ao telefone —
estava em Florianópolis, a trabalho — o ex-presidente da Câmara de Joinville na legislatura anterior demonstrou tranquilidade. Dalonso já manteve
contato com um advogado para estudar os próximos passos. Ele afirma que não recebia salários de Bauer:
— Não, não recebi. Essa pergunta deve ser feita também ao cara que falou isso, os motivos porque ele disse isso. Eu não recebi.
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