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Saúde  |  04/07/2008 09h41min

Raio X da saúde da brasileira

Quase um terço das mulheres com vida sexual ativa nunca teve um orgasmo

Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde avaliou os hábitos sexuais de 15 mil mulheres em idade reprodutiva no país. Nos resultados, constatou-se que o número de adolescentes virgens caiu de 67,2% em 1996 para 44,8% em 2006.

– As mulheres brasileiras estão mais curiosas e mais dispostas para o sexo. Elas estão falando mais sobre o assunto, valorizando mais as informações que saem na mídia. E é uma tendência que só tende a aumentar – explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, que está conduzindo uma pesquisa sobre a vida sexual dos brasileiros.

Entre os dados colhidos pela psiquiatra, estatísticas confirmam que a vida sexual das brasileiras realmente está acontecendo mais cedo, mas que elas ainda são conservadoras neste aspecto. Quase 90% delas espera para ter a primeira relação com o namorado ou um "ficante" fixo, diz Carmita Abdo. 

– Embora as mulheres estejam adotando um comportamento mais masculinizado quando o assunto é relacionamento, 50% delas ainda afirmam que não conseguem separar sexo de afeto. E muitas ainda têm dificuldade para aproveitar a relação plenamente. Quase 30% das mulheres com vida sexual ativa nunca tiveram um orgasmo – avalia Carmita.

>> Leia também: Cresce número de mulheres que iniciam vida sexual antes dos 15 anos

A preocupação pela estética também anda impedindo a satisfação sexual e afetiva delas. Dois terços delas se preocupam em ser julgadas pelo parceiro na cama, e 65% dos homens acreditam que a preocupação exagerada delas pelos cuidados com o corpo acaba atrapalhando a relação.

– Nos últimos dez anos, o valor que a mulher começou a dar à aparência se equiparou a importância que os homens dão à ereção. E, apesar de elas terem mais coragem de trair e tomar a iniciativa de iniciar uma nova relação, elas também estão mais insatisfeitas – acredita a médica.

Mais sexo, menos filhos

Apesar de estarem iniciando a vida sexual mais cedo, as brasileiras também estão tendo menos filhos. A pesquisa do Ministério da Saúde mostra que, em dez anos, a média de filhos caiu de 2,5 para 1,8 e 99% delas garante que conhece bem os métodos contraceptivos disponíveis no mercado. O método preferido delas é a camisinha masculina, seguido da pílula anticoncepcional. 

– As mulheres têm que colocar o conhecimento sobre contracepção em prática. Quase metade das mulheres (42,6%) diz que não usa nenhum contraceptivo nunca, e o resto não mantém uma assiduidade. Além disso, as brasileiras ainda têm preconceito com alguns métodos que não precisam do aval do homem, como a camisinha feminina, e a responsabilidade por sua saúde acaba nas mãos do parceiro. Isso tem que mudar - enfatiza Carmita Abdo.

Fertilidade

A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006 (PNDS) foi financiada pelo Ministério da Saúde e realizada com 15 mil mulheres em idade fértil (15 a 49 anos) e 5 mil crianças com até 5 anos, entre novembro de 2006 e maio de 2007.

A pesquisa mostrou também que cresceu no período o acesso aos serviços de saúde, assistência médico-hospitalar, medicamentos e métodos contraceptivos. A redução em mais de 50% da desnutrição das crianças menores de cinco anos, de 1996 a 2006, somada a medidas educativas de hidratação oral e higiene, contribuiu, segundo o Ministério da Saúde, para uma queda de 44% na mortalidade infantil.

Excesso de peso e obesidade crescem entre mulheres

Por outro lado, os dados mostram que o excesso de peso e a obesidade cresceram entre as mulheres brasileiras. Em 1996, 34,2% delas tinham excesso de peso. Dez anos depois, esse percentual foi elevado para 43%, resultando num aumento de 25% no período. No caso da obesidade, o crescimento foi maior: 64% em dez anos. Mulheres obesas representavam 9,7% da população em idade fértil, em 1996. Em 2006, esse percentual aumentou para 16%.

Para o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, os resultados mostram que as políticas públicas para o setor têm evoluído no país. Em tom de desabafo, ele reclamou de críticas que na sua avaliação seriam ideológicas e direcionadas contra o governo. Ainda na quarta-feira, o ministro adiantou alguns dados da pesquisa, como o aumento da obesidade e do número de cesarianas nos últimos dez anos. 

– Esses dados são uma contundente resposta as afirmações, muitas vezes irresponsáveis, de que a política de saúde não melhorou e de que a saúde brasileira é um caos.

O ministro disse também que os resultados da pesquisa são muito animadores, apesar de ter feito ressalvas ao aumento da obesidade entre os jovens e a ao índice de insegurança alimentar na região Norte.

– A política de saúde ampliou, e só não se ampliou mais porque nos perdemos a CPMF. Estamos no caminho correto, nós temos que soltar foguetes e sair daqui cantando.

Quando mais estudo, menor o percentual de excesso de peso

Ainda de acordo com a pesquisa, quanto maior o tempo de estudo, menor é o percentual de brasileiras com excesso de peso e circunferência da cintura acima de 80cm. A circunferência da cintura, segundo a OMS, também indica o estado nutricional de adultos, pois está associada a doenças crônicas, entre elas, cardiovasculares e diabetes. Há risco se está acima de 80cm em mulheres. Quando ultrapassa 88cm, o risco é muito elevado. A PNDS revela que 52,3% das mulheres estão com 80 cm ou mais. E entre aquelas com mais de 88 cm, o percentual é de 29,8%.

Alimentação adequada atinge 62,5% dos domicílios

Do total de mulheres entrevistadas, 62,5% consideraram ter acesso à alimentação em quantidade suficiente e qualidade adequada. O maior percentual foi registrado na região Sul (75%) e o menor, no Nordeste (45,4%). A insegurança alimentar grave (restrição quantitativa e qualitativa de alimentos que gera fome) nos três meses que antecederam a pesquisa foi verificada em 4,7% dos domicílios. No meio urbano, atinge a 4,5% dos domicílios, e no rural, 6,1%. A região Norte tem o maior percentual, com 13,3% dos domicílios, e a Sul com o menor, 2,7%. Conforme o tempo de estudo das mulheres, a tendência é a redução da insegurança alimentar.

Sudeste tem maior percentual das que tiveram relação com outras

A pesquisa mostra também que 68,8% das mulheres que já tiveram relações sexuais com alguém do mesmo sexo alguma vez na vida se encontram na região Sudeste e 11,4% na região Sul. Em relação à situação de residência, 96,1% estão localizadas na área urbana. Estes percentuais devem ser vistos com ressalva, de acordo com o Ministério, em função do pequeno número de casos encontrados – 82.

Cresce o número de cesarianas

Nas regiões Sudeste e Sul estão as maiores taxas apuradas de cesarianas em 2006: 52% e 51%, respectivamente. No sistema de saúde privado ou suplementar, esse percentual alcançou 81% em 2006.

Por outro lado, segundo a pesquisa, houve um salto importante no percentual de mulheres que passaram a realizar a primeira consulta pré-natal nos três primeiros meses de gestação. O percentual saltou de 66% para 82,5% das gestantes. Na região Nordeste, o aumento na realização de consultas pré-natal pelas mulheres foi o mais expressivo: mais de 97% das mulheres em 2006, contra 74% em 1996.

AGÊNCIA O GLOBO

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