Saúde | 30/06/2008 11h21min
Uma dor no peito dilacerante e súbita interrompeu o percurso de Carlos, 33 anos, até o colégio do filho. Sentiu o coração disparar e teve a nítida impressão de que ia cair na calçada. Tentou resistir ao mal-estar, mas sua palidez chamou a atenção de pedestres que o levaram até a um hospital.
Tudo fazia crer que, apesar da pouca idade, Carlos estava tendo um infarto. Mas era um alarme falso. Os exames atestaram que ele não tinha arritmia, doença na qual o coração sai fora do ritmo normal. A taquicardia repentina daquela manhã de segunda-feira foi, na verdade, um ataque de pânico.
Embora tenha origem psíquica, o transtorno do pânico se manifesta por meio dos sintomas físicos semelhantes e até idênticos aos de doenças orgânicas, causando uma situação corriqueira e preocupante nas emergências do país. Cerca de 60% dos pacientes que sofrem crises de pânico freqüentes, o que caracteriza o transtorno, procuram primeiro um cardiologista certos de que estão prestes a morrer de infarto ou de um acidente vascular cerebral (AVC). Mesmo após ter a confirmação de que não têm problema cardiovascular, voltam a ter os mesmos ataques e a peregrinar de emergência em emergência sem resposta para o mal que os aflige.
Uma pesquisa do Ambulatório de Ansiedade do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) constatou que uma pessoa com transtorno do pânico leva, em média, entre sete e 10 anos para procurar um psiquiatra.
– Os pacientes têm dificuldade em aceitar que a origem dos ataques é psíquica – diz a professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina da PUCRS Patrícia Picon.
Essa demora no diagnóstico agrava a doença. Segundo Patrícia, com a persistência dos sintomas, mais da metade desenvolve alterações de comportamento. Com medo de ter novas crises de pânico, passam a evitar locais e situações que podem fazer a ansiedade disparar novamente. Essa atitude, chamada na psiquiatria de agorafobia, pode limitar muito a vida do doente e de quem está a sua volta.
– Muitos deixam de andar de ônibus, param de trabalhar, de andar sozinhos e de ir a qualquer lugar onde se sintam presos e sem ter como sair para receber ajuda. Alguns ficam dependentes de um parente que também terá a sua rotina de vida alterada –detalha a psiquiatra.
O medo contínuo de ser tomado pelo desconforto causado pelas crises, que podem durar até uma hora e aparecer sem aviso prévio, gera no paciente uma atitude catastrofista: ele acredita ser portador de uma doença grave e teme morrer ou enlouquecer por causa disso. Após o primeiro ataque de pânico e mesmo sabendo que seus sintomas não eram físicos, Carlos passou a acreditar que tinha todas as doenças com as quais tomava conhecimento:
– Lia mais sobre uma doença e começava a ter todos os sintomas descritos. Por um tempo, estava sempre pensando nisso.
Corpo reage a um alarme falso
Durante um ataque de
pânico, o corpo passa por sensações tão desagradáveis que são
comparadas por quem as sofre com a morte iminente. A forma repentina das crises dá a certeza de que algo muito ruim se passa com o organismo. Até hoje, os médicos não sabem ao certo como um transtorno de origem psíquica se manifesta por meio de sintomas físicos. Uma das hipóteses mais estudadas é a que relaciona a doença com o mau funcionamento do chamado circuito do medo, que envolve diferentes áreas do cérebro e é responsável por detectar e reagir a situações de perigo.
Antonio Egidio Nardi, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que um dos núcleos centrais desse circuito é a amígdala. Nos pacientes com transtorno de pânico, essa região cerebral, localizada acima da nuca, dispararia um alerta falso de que o indivíduo estaria diante de uma situação de risco. Esse estímulo seria enviado antes de o córtex pré-frontal (região responsável pelo planejamento das ações) tomar consciência do que realmente está acontecendo. O sinal chegaria ao mesmo tempo em outro núcleo cerebral, conhecido como locus cereleus, que libera uma descarga de noradrenalina, substância promotora de taquicardia, dor de cabeça, aumento da pressão arterial e do mal-estar característicos do ataque de pânico.
– Quando o córtex pré-frontal processa a informação de que o perigo não é identificado imediatamente, ele interpreta de que só pode ter algo muito grave ocorrendo. Isso explicaria porque os indivíduos com transtorno de pânico pensam com freqüência que estão doentes. Essa hipocondria ativaria novamente o circuito do medo, provocando novos ataques – detalha Nardi, coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração da UFRJ.
O paciente com pânico fica com uma hipersensibilidade a tudo que se passa com seu corpo e tem mais dificuldade de lidar com situações de estresse. Essa combinação favorece as crises. Frente a dificuldades, um portador se torna ansioso e sua respiração se torna curta e rápida. No organismo, essa mudança na forma de respirar diminui a
concentração de gás
carbônico no sangue e no cérebro. Segundo a psiquiatra Patrícia Picon, pesquisas mostram que pessoas com transtorno de pânico têm uma sensibilidade acima do normal para o gás carbônico, que provoca as sensações de formigamento e tontura.
Trauma e depressão podem deflagrar doença
O transtorno do pânico também está associado a outras patologias psiquiátricas, como a depressão, o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) e a bipolaridade. A depressão, por exemplo, pode estar na origem do pânico ou ser desencadeada após anos tendo crises freqüentes. O tratamento, porém, é mais difícil em pacientes bipolares com pânico. Esse grupo não pode tomar os antidepressivos recomendados para controlar os sintomas em alguns casos.
Há também os indivíduos vítimas de trauma que passam a ter ataques de pânico um tempo depois do ocorrido. Foi o caso de Vanessa, uma gaúcha de 33 anos que prefere não ter o nome verdadeiro revelado. Aos 26 anos, ela sofreu um assalto no apartamento em que residia com as irmãs. Sentiu-se culpada por ter facilitado a entrada do ladrão que fingiu ser um encanador e, seis meses depois, teve seu primeiro ataque de pânico repentino dentro de um ônibus. A caminho da casa dos pais que vivem no Interior, Vanessa sentiu o coração disparar e ficou com as mãos molhadas de suor. Desesperada, pediu ajuda a uma passageira e só se sentiu aliviada na cabine do motorista.
– Durante muito tempo não consegui entrar mais em ônibus. Tinha que ir a pé para o trabalho e voltava de táxi. Não sei como aquilo ocorreu naquele momento – relata.
Vanessa ficou dois anos tendo crises freqüentes, mesmo evitando andar de ônibus. Gastou tempo e dinheiro em exames médicos e virou assídua do posto de saúde próximo ao seu trabalho. Onde quer que estivesse, cronometrava o tempo que levaria até o hospital em caso de ser surpreendida com o mal-estar.
– A enfermeira me enxergava e já sabia que eu queria medir a pressão – lembra.
Após se submeter a um tratamento psicoterápico e tomar antidepressivos, Vanessa conseguiu controlar as crises e retomar a rotina. Mas ela teve de mudar seu comportamento frente aos tropeços da vida, aprendendo a não se desesperar quando desconfia que algo está fora de ordem. De acordo com o psicólogo Edson Sá Borges, coordenador do Ambulatório do Trauma da Fundação Universitária Mário Martins, antes do início das crises, os indivíduos com o transtorno de pânico vivem como se acreditassem ter a vida sob controle, muitas vezes negligenciando seus conflitos emocionais. Alguns chegam ao consultório, diz o especialista, sem acreditar que têm um transtorno de origem psíquica.
– É comum estes pacientes usarem como argumento o fato de já terem passado por situações piores e terem reagido bem. Para melhorar, eles terão de reavaliar essa postura de onipotência e aprender que a vida, às vezes, foge do controle e não oferece garantias como se gostaria – diz Borges.
Distinguindo os
sintomas
Quem sente o coração
disparar de forma repentina e é tomado por náusea, ondas de calor e tonturas deve procurar um médico para investigar as possíveis causas para a crise. Há casos em que o ataque tem causa exclusivamente orgânica, e outros cuja origem é tanto física quanto psíquica.
– Existem pacientes com predisposição para arritmia cardíaca que desenvolvem transtorno de pânico e passam a sofrer das duas doenças ao mesmo tempo – detalha o chefe do serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS, Luiz Carlos Bodanese.
Neste caso, o paciente deve ser acompanhado tanto por um cardiologista quanto por um psiquiatra. Segundo a psiquiatra Patrícia Picon, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), associada ao uso de remédios em alguns casos, mostrou-se a mais eficaz forma de controlar as crises de pânico. Além de trabalhar com o paciente os medos, a TCC ajuda a discriminar os sintomas de ansiedade dos causados pela arritmia.
Para destacar a presença da doença
cardíaca, o paciente precisa ser submetido a
exames clínicos, como eletrocardiograma, que mede o ritmo do coração, e a ecocardiograma, para avaliar se há um defeito na estrutura do órgão. Há dois tipos de arritmia: a taquicardia (aumento da freqüência cardíaca) e a bradicardia (redução dos batimentos). O tratamento é feito com remédios, conhecidos como antiarrítmicos, mas há também a opção cirúrgica, com a colocação do marcapasso ou de um desfibrilador.
Segundo o chefe do setor de Eletrofisiologia do Instituto de Cardiologia (IC) do Rio Grande do Sul, Gustavo Glotz de Lima, em casos de taquicardia o paciente também pode ser submetido a um procedimento de ablação por cateter. Introduzido pela virilha, o cateter localiza o foco elétrico que altera os batimentos cardíacos e o cauteriza, curando em definitivo o problema.
Caso for descartada a enfermidade cardíaca, Lima ressalta que é importante realizar exames laboratoriais para verificar a presença de outras doenças com sintomas parecidos.
– Hipertireodismo (excesso de produção de hormônios da tireóide), feocromocitomas (tipo raro de tumor) ou abuso de drogas podem provocar sintomas semelhantes aos relatados por quem sofre um ataque de pânico – detalha Lima, que é professor de medicina interna da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.
ZH/VIDA| Não misture |
| Algumas doenças e situações confundidas com o transtorno de pânico: |
|---|
| Arritmia cardíaca Hipertireoidismo Asma Doenças do labirinto Feocromocitomas (tipo de tumor raro em células das glândulas supra-renais) Intoxicação por anfetaminas, cocaína e maconha Abstinência de álcool, opióides, sedativos, entre outros Certos tipos de epilepsia |
| Evite |
| Estudos demonstram que a cafeína pode disparar os ataques de pânico. Por isso, médicos recomendam limitar o consumo diário: |
|---|
| – Café Alguns tipos de chá Chimarrão Refrigerantes de cola Chocolate Alguns remédios para dor de cabeça |
| 15% da população pode ter ataques de pânico isolados 3% a 5% têm crises freqüentes de pânico, o que caracteriza um transtorno de pânico |
| Como lidar com os pacientes |
| Fontes: Patrícia Picon, psiquiatra, e Edson Sá Borges, psicólogo |
| Ajude-o a respirar profundamente durante os ataques: essa atitude regulariza a entrada e saída de gases e estabiliza a crise Não menospreze os sintomas: acompanhe-o no médico e incentive-o a procurar a ajuda de um psicoterapeuta Evite ter a mesma atitude catastrofista: tente acalmá-lo durante as crises, argumentando que, felizmente, ele não tem uma doença fatal |
Grupo RBS Dúvidas Freqüentes | Fale Conosco | Anuncie | Trabalhe no Grupo RBS - © 2008 clicRBS.com.br Todos os direitos reservados.