Comportamento | 27/08/2008 10h09min
A vida é feita de fases. Infância, adolescência, vida adulta, velhice. Cada cultura estabelece seus ritos de passagem e, mesmo na ausência de rituais, sempre há fatos que marcam ou determinam individualmente esta passagem.
Se tomarmos por base a definição da Organização Mundial de Saúde, que considera adolescência o período entre 10 a 20 anos, a idade intermediária dessa fase seria o auge da puberdade. A palavra debutante, que nomeia a garota que chega aos 15 anos, vem do francês e quer dizer estreante ou iniciante.
Os bailes de debutantes, organizados para "apresentar a moça à sociedade", indicam que a menina já pode freqüentar festas, usar roupas de adultos e namorar. No entanto, há quem descarte toda essa pompa e circunstância para simplesmente satisfazer seu desejo.
É fato que as mulheres estão
fazendo sexo pela primeira vez cada vez mais cedo. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, encomendada pelo Ministério da Saúde, aponta que entre 1996 e 2006, o número de mulheres que tiveram a primeira relação sexual com 15 anos ou menos aumentou de 11,5% para 32,6%. Trocando em miúdos: em dez anos, triplicou a quantidade de meninas que estréiam sexualmente antes ou enquanto "debutam".
O que teria levado a essa mudança de comportamento em pouco tempo? Para a psicóloga e professora da Unisul Rosana Cunha, a mudança não aconteceu nos últimos 10 anos. Vinha se processando, e se constituiu nesse período.
– Há um grupo que considera a primeira relação sexual um momento importante e tem recomendações severas dos pais, mas um grande número pensa que transar não torna a pessoa melhor ou pior, transfere para outros campos o valor da pessoa. Até a forma de encarar dos adultos é diferente – considera.
A
médica Maria Dolores Biz Canela, especializada em
ginecologia infanto-puberal, alerta que a sexualidade do adolescente ocorre muitas vezes de forma clandestina, favorecendo a desinformação.
– A cada período, nota-se que as adolescentes estão amadurecendo precocemente, com a menstruação vindo mais cedo. Os pais têm uma certa reserva em conversar pelo medo que possa levar à indução ao sexo, o que é errado. A educação sexual deveria começar em casa – alerta.
A professora do Instituto Estadual de Educação, de Florianópolis, Ivonete Helena da Rosa, desenvolveu um trabalho com turmas do Ensino Médio e 8ª série para abordar o tema sexualidade. Os alunos entrevistaram meninas grávidas ou mulheres que tiveram filhos na adolescência e fizeram uma revista. Leia também: Mães adolescentes assumem o filho mas perdem a vida
social
– Em cada turma tinha,
pelo menos, uma gestante. Os pais não conversam com os filhos. Os adolescentes fazem o que querem, faltam com respeito aos pais, que nos dizem não saber o que fazer com os filhos. Jogam a responsabilidade para a escola –desabafa.
Nas aulas de Biologia da professora Marinilde Tadeu Karat, os alunos têm contato com camisinhas e próteses para treinar como usá-las.
A antropóloga Miriam Pillar Grossi, do Núcleo de Identidade de Gêneros e Subjetividades da UFSC, afirma que a iniciação sexual varia conforme a região e a escolaridade das adolescentes e dos pais.
– A vida sexual não é mais entendida pelos jovens como entrada na vida adulta. Muitos estudos têm refletido a iniciação sexual na juventude e dizem respeito a fatores como as mudanças no século 20, que trouxeram para o plano da sexualidade uma autonomia maior do sujeito. Os jovens tiveram acesso a uma sexualidade independente da reprodução e vínculo
conjugal.
Conversa familiar
Para que o início da
vida sexual dos adolescentes se dê da melhor forma possível, os pais têm papel essencial. A questão é: quando e como abordar o assunto?
– O melhor momento é aquele em que os pais recebem a primeira pergunta dos filhos – afirma a ginecologista Maria Dolores Biz Canela, para quem os pais não precisam esperar o início da vida sexual do filho para levá-lo ao médico.
– Os pais falam da plantação da sementinha, isso é errado. Tem que dizer: a mãe tem útero, o pai tem pênis, é preciso usar os termos adequados para que o filho não se sinta enganado – ressalta.
A dificuldade dos pais em abordar o tema é também um obstáculo. A psicóloga Rosana Cunha diz que os pais precisam perceber se conseguem ou não falar sobre o assunto.
– A primeira coisa é se colocar disponível. É muito importante que conversem a partir das dúvidas que eles próprios tinham na adolescência. Dar lição de moral é a pior coisa a fazer. É melhor dizer como as coisas
acontecem, isso não muda de geração em geração, o que
muda é o jeito de expressar – explica.
A cozinheira Maria Salete de Mattia, 48 anos, é mãe de Jainara, 16, que teve um filho aos 15 anos. Disse sempre ter conversado com os filhos sobre sexo, indicando métodos contraceptivos e mostrando-se amiga. A decepção com a gravidez da filha foi grande, mas a dificuldade foi superada com o sorriso do neto no colo.
– Eu aprendi sobre sexualidade com os amigos no colégio. Quiz fazer diferente com meus filhos. Desde os quatro ou cinco anos, eles começaram a perguntar e eu respondia a tudo. Eles cresceram sabendo o que era certo e errado. A Jainara se iludiu, disse que na hora não pensou em mais nada. Creio que ela amadureceu. Eu me guardei, casei e foi tudo direitinho. Achei que ela fosse fazer o mesmo – recorda a mãe-avó.
– Eu pensava que não ia acontecer comigo. Hoje me sinto mais responsável, olho para minhas amigas e vejo que os assuntos são outros – revela Jainara, que se considerava bem informada sobre
métodos contraceptivos.
Priscilla Infâncio Antunes tem os mesmos 16 anos de Jainara, no entanto, quer casar virgem. Embora a postura das meninas seja diferente, o pensamento de suas mães converge. A mãe de Priscilla, Maria Nazarete Antunes, 46 anos, assim como Maria Salete, afirma que o assunto sempre foi abordado de maneira natural em casa.
– Digo aos meus filhos que, se comerem a fruta antes de estar madura, sentirão o amargo. Eu e meu marido damos liberdade, mas cobramos, sabemos quem são os amigos, as festas que vão – diz.
– Nunca nem beijei porque não apareceu ninguém que eu achasse especial. Disse para amigas que quero casar virgem e algumas me recriminaram – afirma Priscilla.
A ginecologista Maria Dolores enaltece a
admiração dos adolescentes pelos pais.
– Adolescentes são
rebeldes, mas, no fundo, pai e mãe são ídolos. Foi com eles que os filhos aprenderam a andar, escrever, por que não aprender sobre sexo? – conclui.
| SEXO EM NÚMEROS |
| Fonte: Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS-2006), encomendada pelo Ministério da Saúde |
| – Em 2006, 32,6% das mulheres com até 15 anos de idade já haviam tido relações sexuais. Em 1996, a porcentagem era de 11,5%. |
| – Há uma tendência de diminuição da idade de início da vida sexual para as mulheres. Foi verificado elevado uso do preservativo na população jovem, entre 15 a 24 anos, na primeira relação sexual. No entanto, nas uniões estáveis, o uso é inconsistente. |
| – À medida que a idade da mulher aumenta, verifica-se um percentual cada vez menor de pessoas que tiveram relações sexuais com até 15 anos. Ou seja, na faixa etária entre 15 e 19 anos, 32,6% já tiveram relações sexuais até 15 anos de idade, enquanto na faixa entre 20 a 24 anos, apenas 28,2% perderam a virgindade antes dos 15. |
| – Entre as mulheres com menor nível de escolaridade (até quatro anos de estudo), 3% não tiveram relações sexuais até os 15 anos. Para níveis maiores de escolaridade, o percentual sobe para 12%. |
| – Quanto ao local de residência, as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentaram padrões parecidos: 74% tiveram as primeiras relações sexuais até os 20 anos e aproximadamente 9% eram virgens até essa idade. No Norte, 80,8% transaram antes dos 20. No Nordeste, apenas 57% tiveram relações até os 18 anos e 15,7% ainda não descobriram o sexo. |
Jainara, uma estudante de 16 anos e mãe aos 15. Ela se considerava informada sobre o tema
Foto:
Diego Redel, DC
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