Verão | 27/02/2010 22h59min
A temporada de férias acabou e os veranistas, que disputaram cada centímetro de areia das praias gaúchas neste fevereiro insanamente quente, já tomaram o rumo de suas cidades.
A vida real, prezado leitor, está batendo na porta: trabalho, aula, contas a pagar, impostos, um novo escândalo na política, um conserto inadiável na casa, enfim, a velha e boa rotina.
Mas e quem fica na praia? Quem mora na praia? Como fica a vida dessas pessoas depois que a enxurrada de forasteiros se vai? Forasteiros sempre bem-vindos, diga-se, porque trazem vida, animação e o dinheiro.
Para os nativos, ou as pessoas que escolheram morar na beira do mar, a vida também segue. Tem de seguir.
Escolhi uma personagem desse mundo e conto aqui a sua história. E com ela presto meu tributo aos que ficam – esse exército de anônimos, sem os quais ninguém conseguiria passar férias numa boa. Os que atendem no mercadinho, cozinham na lanchonete, fazem caipirinha no
bar, vendem cangas e batas na beira da praia, os
que fazem limpeza nas casas, os que cortam a grama dos bacanas, abastecem os carros nos postos, funcionários dos hotéis, do comércio...
Pois a minha personagem é a Ivonete Medeiros Delfino, uma alemoa forte, bonitona, olhos azuis da cor do mar de Santa Catarina, terra onde nasceu o pai.
O seu Avelino, já falecido, era marceneiro e, vejam a coincidência, fez a passarela da primeira edição do Garota Verão em 1983. Olha a fotinho ali.
Ivonete nasceu em Torres em uma família de 13 irmãos e veio morar em Capão da Canoa aos nove anos. Estudou até a 6ª série e já foi trabalhar, ajudar nas contas da casa, afinal tinha muita boca pra comer. Aos 13, já fazia uns bicos como doméstica – trabalho nunca faltou. Foi aprendendo e se esmerando, não é de fazer corpo mole. Teve um período em que trabalhou na casa de uma família em Porto Alegre, e ainda fazia extra nos finais de semana. Sempre juntando um dinheirinho.
Quando voltou pra Capão,
comprou um terreno em Araçá. E construiu a primeira
casa.
E dê-lhe trabalhar. Fazia faxina em algumas casas na praia. No boca a boca, foi ganhando a confiança de muita gente que passou a deixar a chave da casa com ela. Manutenção anual. No verão cozinhava de manhã numa casa, fazia faxina de tarde em outra e, à noite, trabalhava como recepcionista de motel. Até as 8 da manhã!
Dormia uma hora e meia e de volta a cozinhar.
– Mas era só no verão. Eu tinha que aproveitar, né?
Trocou a casa, que valia uns 40 mil na época, por outra, que ficava num ponto melhor. Arrumou a nova casa, com a ajuda dos irmãos, alguns, trabalhadores da construção civil, que aliás vive um verdadeiro boom em Capão: é uma loucura o que tem de prédio sendo construído. Botou a mão na massa, digo, na argamassa.
Depois alugou a casa, comprou um carro, levou um camba da inquilina, botou na Justiça e recuperou a casa, que acabou vendendo por 130 mil.
Agora fala sério: é ou não
é um case para o Sebrae? A mulher pode dar aula de empreendedorismo,
numa boa.
E, o mais incrível, aprendeu sozinha, pura intuição. Hoje a Ivonete tem 42 anos, uma grana aplicada, um carro, uma moto e segue trabalhando como doméstica. Com muito orgulho.
Administra um condomínio de 15 casas, durante o ano todo, faz as vezes de agente imobiliária alugando imóveis de alguns de seus clientes de faxina, gente que fica na praia só um mês e deixa tudo com ela.
– Ganho uma comissãozinha – diz.
E segue firme e forte com o sonho de construir outra casa. Gostou da brincadeira.
Ivonete não entende por que eu faço tanta pergunta, nem que importância ela pode ter para o jornal. Diz que apenas faz bem o seu trabalho. E que aprendeu com o pai a ser honesta “não pode vacilar, o que é da gente é da gente, o que é do outro é do outro”.
Ivonete nem suspeita, mas ela é que é a verdadeira estrela do mar.
Ivonete (junto à passarela do Garota Verão em construção), exemplo de quem conduz o litoral
Foto:
Daniel Marenco