clicRBS
Nova busca - outros

Notícias

Verão  | 25/02/2010 05h02min

Estrelas do mar: O fim de uma era

Saiba o que aconteceu com um dos ícones mais caros de gerações de veranistas

Neste texto procederei a uma investigação rigorosa: trata-se de jornalismo investigativo tratado com a seriedade que o gênero impõe. Sem piadinhas. Persistência, determinação, tenacidade, exatidão extremada, obstinação. Ufa.

O objetivo: descobrir por que um dos ícones mais caros de várias gerações de veranistas desses mares do sul, o prosaico e singelo PUXA-PUXA, foi simplesmente arrastado para a lixeira da história. Assim, sem mais nem menos.

O puxa-puxa era uma instituição das praias do litoral do Sul. Tipo os biscoitos Globo no Rio de Janeiro, tá ligado? Certo que eu não tive oportunidade de investigar de cabo a rabo, digo da Praia dos Molhes, em Torres, à Praia Barra do Chuí, em Santa Vitória do Palmar.

Mas em Capão da Canoa eu fui a fundo. Entrevistei pessoas, indaguei, bisbilhotei; apurei, enfim. E consegui inclusive usar um ponto e vírgula, o que não é pouca coisa. Percorri vielas de moradores, confrontei dados, cruzei informações. E o que tenho a dizer é: não há lugar para o puxa-puxa no mundo contemporâneo. Simples assim. Dramático assim.

Sim, claro que se pode comprar o prosaico doce no Maquiné, ponto de parada de quase todo mundo e que cobra os olhos da cara por qualquer produto. Mas não é a mesma coisa. Experimentem abri-lo. Aquele celofane, qualquer um pode ver, não é adequado. Falo do papel que envolve o puxa-puxa. E me lembro “do papel azul que envolve a maçã” do Caetano Veloso. Pois esse celofane vai se rasgando, gruda no doce e o que era pra ser puro prazer vira uma chatice.

O puxa-puxa da minha infância era enrolado em papel manteiga. Perfeito.

Pois a dona Avani, que nasceu em Santa Catarina há 63 anos e se criou em engenho de açúcar mascavo, fazia o doce e os filhos vendiam todo final de semana. Ela vive em Capão da Canoa há 33 anos e diz que os guris vendiam uns 200 puxas por dia, “saíam com a balainha cheia e voltavam com ela vazia”.

O mais bacana do ritual do puxa-puxa era o caminho que ele fazia da casa de senhoras, como a dona Avani, até as bocas ávidas por doçuras da gurizada. O puxa-puxa tinha hora pra aparecer: era depois do almoço, ali pelas 2 da tarde. E só ganhava sobremesa quem almoçava direito, vegetais incluídos.

Detalhe: eles transitavam de quintal em quintal, com o seu grito de “olhê, puxa-puxê!!” Os puxas também apareciam nos finais de tarde, pra acompanhar o chimarrão dos adultos.

É a própria dona Avani quem explica o fim da era do puxa-puxa: “eu acho que é porque agora as casas são todas cercadas, antes era mais fácil chegar às casas. Agora todo mundo tem medo.”

Pois é, o puxa-puxa é de um tempo em que não existiam muros, nem grades, nem condomínios. Praia era lugar de tranquilidade. Acho que nem se fechavam janelas e portas. As bicicletas no quintal e as roupas no varal era a paisagem noturna mais recorrente. Ninguém pensava em ladrão. Naquele tempo, os únicos ladrões que assaltavam mentes infantis eram os Irmãos Metralha. Faz tempo.

Mas nem tudo é drama neste texto, afinal ainda é verão, tempo de relaxar, tem muita gente de férias e fevereiro nem acabou.

Pois bem, para alegria de nostálgicos de plantão descolei com a dona Avani a famosa receita do puxa-puxa, o autêntico, o único, verdadeiro (te cuida Anonymus!).

Lá vai.

Ingredientes

1 kg de açúcar mascavo

1 xícara de água

½ xícara de vinagre branco

Modo de fazer

Mexer todos os ingredientes antes de botar no fogo. Terminantemente proibido mexer depois de botar no fogo, porque açucara.

Quando começa a ferver a mistura fica bem líquida e é hora de baixar o fogo e esperar engrossar. O grande segredo é o ponto e o truque é pegar uma colheirinha de chá da calda, esfriar na água e ver se está sequinha, quebradiça. Mas atenção, não pode ficar muito seca.

Daí põe essa massa marrom num tabuleiro de madeira ou numa assadeira untada com manteiga, deixa esfriar um pouco (não muito) e começa a esticar, puxando até clarear. Vai puxando e cortando do tamanho que quiser. Se não quiser enrolar em papel (manteiga!) é só passar os puxas em açúcar cristal para eles não grudarem.

Feito!

Mauro Vieira / 

O doce de açúcar mascavo ainda pode ser encontrado, mas deixou de ser oferecido em uma espécie de ritual, que tinha até hora marcada.
Foto:  Mauro Vieira


Dúvidas Frequentes | Fale Conosco | Anuncie | Trabalhe no Grupo RBS
© 2010 clicRBS.com.br • Todos os direitos reservados.